02 janeiro 2012

carpideira













Nude by Radiohead on Grooveshark










"ao som das carpideiras que rasgaram fotografias e vidas inteiras".


(Marcelo Novaes)











Dia 1: estaca zero.

Encontro marcado com algum mistério íntimo. Inflado, o ego apóia-se sobre um livro. Murcho, desliga o telefone. Entre o vinho e o beijo de língua, ficou nada. A equação mais desgraçada que já fiz desde os tempos da mísera matemática de escola. Eu tenho tanto a dizer que não cabe na boca tanta palavra. Por isso desertei. Não falo. Estou escondida e tripudio multidões que sorriem gastas de alegria forjada. Eu não sou feliz. Sou algo além de mim e eu não saberia definir o que sinto. Ontem percebi que é inútil fazer canoas. É preciso aprender a nadar. Percebi também que tenho forte trato para com o outro. Às 4 da manhã presenciei acidente de moto. Eu precisava ajudar o próximo. Corri e segurei a mão de um homem que nunca vi em minha vida. Caído, em poça de sangue, o homem se preocupava com tudo: minha carteira, meu celular, eu não tenho habilitação. Eu menti dizendo ser enfermeira. Eu queria deixar um pouco de tranquilidade no ar inóspito da cena. Perguntei o nome. Alguém para quem eu possa ligar? E, de repente, um sorriso. O homem estava bem. Bebida e direção. Sexo sem proteção. HIV nunca vai sair de moda, pensei. Voltei pra casa, café-da-manhã no jardim. Bêbada do mais alegre pileque, eu sorri. Acordei fuzilada por uma ressaca que encara e diz: E aí? Que há de novo? Dormi o dia inteiro. Encolhida feito um caracol, caramujo, lesma. Arrastei-me ao banheiro, tomei o banho mais completo de uma vida inteira, pensei em sexo de forma inflamada e molhei as plantas. Não li jornal, não penso em revelar fotos, não quero mais me esquecer nos braços mortos de alguém. Quero transgredir-me. Há quem pense que transgredir é viver espalhafato, viver desvairado, vestir camisa ao contrário. Tenho dó desses parcos coitados. Transgredir é aguentar-se e só.











Image by vernice61

10 comentários:

Isaac Marinho disse...

É sempre bom te ler! =)

Sigo transgredindo por aqui.

Espero me aguentar por mais um ano... ou até o fim do mundo. =D

Feliz 2012!

Abraço!

Letícia Palmeira disse...

Feliz 2012, Isaac.
E que nos aguentemos.

Luciana Santa Rita disse...

Letícia,

Estou acompanhando o blog e adoro os textos. Feliz 2012 com muita vida.

Lu

Sandrio cândido. disse...

o final é surpreendente e a forma como você desenha a cena com as palavras
beijos

Anônimo disse...

Olá, Letícia. Tudo bem? Meu nome é Daniel Zanella, sou editor de um jornal mensal de literatura aqui de Curitiba chamado Relevo.
Neste mês publicaremos o primeiro capítulo do livro do Germano Xavier. Aliás, foi ele quem te indicou.
Gostaria de saber se você topa colaborar com este seu texto de abre-alas 2012.
O nosso emeio é jornalrelevo@gmail.com

Um grande abraço e ótimo 2012 por aí.

Zélia disse...

(Cara de quem comeu e não gostou)

No fim, é preciso pouco para seguirmos em paz até o fim da linha. "... não quero mais me esquecer nos braços mortos de alguém.", é a minha cara. Concordo com a questão da transgressão. É como a questão da liberdade. Pessoas confudem com carnaval. Transgredir é ser livre e ser livre é (SER) só. ;)

Marcus Natir disse...

Diferente de tudo que ja li! Muito bom!

Cyelle Carmem disse...

Belíssimo. (aplausos de pé)
"Ontem percebi que é inútil fazer canoas. É preciso aprender a nadar"
Adoro minha transgressão!

Camilla Tebet disse...

Assim..transgredir é tão forte que só pode segurar o que se é. De tão pesado. O texto saiu do fundo de você, sem talvez passar por filtros seus!
Bravo!

Marcelo Novaes disse...

Letícia,




E não é que as carpideiras estão "cantando" por aqui?! Transgredir é morar perto de si mesmo.



Um beijo, querida.