22 janeiro 2012

decora o roteiro














Luz dos Olhos by Cássia Eller on Grooveshark









Acontece que aconteceu. E agora Inês é morta. E nós estamos vivos. E eu me encolho toda ao lembrar que não passaria de mais um dia comum se você não tivesse se metido a vir, com sua cara de perdido, amigo, soldado ferido, me visitar. Foi engraçado aquele dia. Conversamos muito até vir a noite e bater vontade de catar o mundo. Você me convidou para sair e disse que a noite seria só de nós dois. Saímos com vontade de beber. Beber e conversar. E veio riso, conversa, vinho que tirava roupa da alma e fomos para outro bar. Você, sempre com seu ar de produto fora de alcance, prateleira mais alta da estante, me olhava surpreso. Ria muito. E eu também. Lembro que nos sentamos de cara, um pro outro. Mesa perto da saída de emergência. Você disse que achava lindo algo em mim. Não retribui elogio. Escapei. Havia placas no lugar. Plaquinhas do tipo conselho avant-garde. Decidi anotar cada frase. Compartilhamos cigarro pelo estreito vão entre as vigas de madeira que cercavam o lugar. Sempre achei que aquele ato, fumar do mesmo trago, foi o início do estrago causado. Era como beijar. E veio mais riso e gente chamando para sentar à mesa e puxar conversar cheia de folga. Eu estava alta de azul e tequila. Você era homem mais que imaginava. Vamos para outro lugar que não quero cara passando a mão em você. E partimos sem companhia. Só nós dois: rindo de medo, frio na barriga, curiosidade em saber o que havia do outro lado do muro que era você, que era eu. Vai me beijar? Minha bravata caiu como luva. E veio beijo longo, completo, boca a boca para nos salvar da solidão. Minha fome era de alguém. A sua era a mesma. Mas já estávamos salvos. Beija outra vez. Agora em público. Duvido que você faça. Fez. Outro beijo. Meio inglês, tímido e educado ao demonstrar afeto. Ri ao ver você com medo de mim. Sou tão indefesa. Mais bebida porque a noite já seguia nos engolindo e a fome aumentava a cada minuto. No carro, o velho amasso desesperado de quem não come há dias. Você me escala, eu engulo você, tira o cinto com pressa, tiro tudo, a luz é forte, vamos para outro lugar. Você dirigia enquanto eu fazia o que não se diz a tantos. Chegamos. Tontos de loucura nós caímos na cama. Corpo meu no corpo seu, algumas ordens para coordenar movimentos, o clima, a fome, à beira do abismo. Mãos na cintura, eu obedeço, mãos no cabelo, eu faço por merecer o que recebo (de você). Mais e sempre a força dentro de mim. Medo e força e olhos fechados para não me ver porque era realmente uma mulher que você comia, que você invadia, que você amava. E chegamos juntos ao extremo. Tombamos na cama. Lembro do cigarro, do trago, da conversa, do silêncio no quarto, da música, um poema dito, mais beijo, tudo caindo no mesmo ritmo, tudo saindo do trilho. E veio dor de cabeça, um adeus esquisito, chá de sumiço e não se fala mais nisso. Sou boa em me calar. A história nem precisava mesmo continuar. Mas eu vou de cara, sem medo, largo na rua meu receio e digo que o seu azar começou faz tempo. Lembra de quando nos conhecemos?










Image by MisOtrasCosas

10 comentários:

Marcelo R. Rezende disse...

Foi uma noite linda. Pena, ou não, que foi só uma.

Eder Asa disse...

"Você dirigia enquanto eu fazia o que não se diz a tantos."

Não se diz mas se ostenta. Se inveja. Fodam-se os bem comidos (mais uma vez).

Flávia disse...

Eu quis ser essa moça do seu texto, boa em se calar e fazer com o corpo essas coisas que não se diz.

bruniuhhh disse...

eu senti inveja de não tê-lo escrito ou inveja de não ser quem o vive.
há cenas tão belas!

bruniuhhh disse...

eu senti inveja de não tê-lo escrito ou inveja de não ser quem o vive.
há cenas tão belas!

Orion Love disse...

Fui atropelado por esse texto e adorei.

Don Mattos disse...

VÁ SE FODER!!!!!

(embora não pareça, é um elogio)

Zélia disse...

Faz tempo que não venho aqui. Voltarei. E eu tenho essa fotinho guardada em meu baú... :D

Thais disse...

Você dirigia enquanto eu fazia o que não se diz a tantos.
Pois isso calou minha alma, devo ter perdido meu amor, por jamais ter feito isso ,não que eu tivesse nojo, ou fosse puritana aquilo não era confortãvel eu tenho ânia até com escova de dente... e tinhamos um trato de nos respeitar,fazer sómente aquilo gostásesemos,e quizessemos mas ela deve ter caido de bôca, um casamento lindo, de 16 anos acabou com uma mulher que foi casada 3 vezes,fora os ficantes ,mulher vivida e ela caiu de bôca, e ele deve ter adorado... senti tristeza,senti nveja ,senti ciumes e imaginei o amor deles, fiquei triste, vou tomar um rivotril e dormir infeliz da vida.Tem de se beber:Tem de se dar inteira?mesmo não querendo?E não haverá mais ninguem pois eu queria enxer a cara e tentar,mas eu queria meu amor e isso eu dei o maior azar ACABOU!

Marcelo Novaes disse...

Letícia,




Capisco. "O azar foi seu, meu bem". Claro, claro.




Um beijo, amiga.