07 janeiro 2012

diário de ana b.














Acordei. Cocorocó. Galo chato que não morre. Qual será a expectativa de vida de um galo? Talvez 50 anos. Talvez mais. Nada importa. O galo desperta todo mundo. Piso em falso. Ainda me sinto dormente da noite passada. Quem passou a mão em quem? Será que perdi o que já não tinha? Virgindade é mesmo um milagre. Ninguém vê. E todos dizem que existe.

Oops. Não me apresentei.

Let me introduce myself.

Sou Ana B. Requintada filha da classe média, revoltada sem motivo aparente, brasileira, branca (minha certidão diz que sou parda. O que vem a ser parda?). Quero ser apenas Ana B. Sem sobrenome, sem data, sem muito compromisso e cheia de quinquilharia na cabeça. Sou pano pra manga. E haja truque para tanto tecido.

Ontem saí. Resumo: comi mais que o permitido. Sou de mão única. Porém, quando meu trem sai do trilho, beijo até mendigo. E isto não é preconceito. É manutenção de meu mecanismo. Meus pais são crentes e leem a Bíblia. Não me revolto por causa deles. Tenho fome desde que nasci. Fome de mim a me ver em outros. Por isso como muito e sofro meus pesares de indigestão.

Túlio provou de mim. Aberração aquele cara desbocado se pervertendo em verbos querendo me fazer vingar. Quero não, Túlio. Bebi, mas não enlouqueci. Estou lúcida feito aeronave sobrevoando ares em oceano pacífico. Me deixe. Larguei Túlio na primeira música. Fugi. Sei lá aonde fui parar. Reconheço hematomas de cerca. Pulei cerca que sou ovelha. Porém, não sigo rebanhos. Devo ter rezado missa inteira por alguém. Mas quem?

Telefona toca.

Quem é?

Desculpa. Não gravei seu nome. Cinema. Vou.

Fomos. Estranho ver aquele cara ao meu lado. E, mais estranho, ouvir sua voz falando da noite passada. Senti vergonha de dizer: não lembro de nada. Eu ando avoada, sabe? Entende? Claro que ele não entenderia. Falei nada. Ri debochada (Atriz de novela mexicana fingindo surpresa com ponto no ouvido para não esquecer a fala).

Durante o filme senti vontade de morrer. Me senti enjoada. Da vida, da caça, da vontade de estar em destaque no meio de tanta gente. E aquele cara estranho ao meu lado? Alguém me explica por que me desobedeço tanto? Eu não queria estar aqui. Isso não é fim que eu mereça. Sou Ana B. Mereço fim em Capital Letter e bons créditos por saber viver muito. E, se não me lembro do que vivi, é como se não tivesse vivido.

Depois do cinema, conversa:

Como foi?

Bom.

Se divertiu?

Muito. (menti)

E ontem?

Gostei. (menti)

Você é perfeita, sabia?

Não. Como assim?

Ah, você sabe.

O pior é que eu não sabia. E vou continuar sem saber. Saí do cinema e voltei pra casa. Tão apática minha sinfonia de querer dançar e acabar sem par algum. Deitei em minha cama. Luz do quarto apagada. Dormi e acordei. Será que alguém pode me dizer por onde andei?

(...)


Silêncio.

Meus pais tomam café. Sou Ana B. Classe média. Brasileira parda.

Objetivo:

Que mais posso fazer além de viver?










Image by maCGot

9 comentários:

Julliany kotona disse...

Jogue seus sonhos aos ventos...Eles voltaram para você em forma de realidade!Tenha uma linda noite de sabado e um ótimo domingo bjos de uma amiga!

Jean Almeida disse...

Nossa, com a leitura flui..

bruniuhhh disse...

flui.
recortei sobre esse negócio de ñ ter vivido se ñ se lembra,

Anônimo disse...

Adorando demais essa tua nova fase, Lê.

Marcelo R. Rezende disse...

Nada, viver é a única coisa. E os meandros, eles que se virem.

Beijo.

Maíra da Fonseca Ramos disse...

Feliz ano novo! E muita inspiração!!!

Ana SS disse...

adoro seus textos, sempre com personagens socialmente inadequadas e por isso encantadoras!

Lívia Inácio disse...

sua escrita é tão leve!

Marcelo Novaes disse...

Letícia,



Respeito as transações e transições da quase-perfeita Ana B. O que, de fato, me espanta, é saber que um galo, este macho da galinha doméstica, pode ser tão longevo, além de robusto, viril, belo, forte e impávido colosso.





Um beijo, querida.