Ouvindo Adriana Calcanhotto na sala
Casa limpa
Dorzinha chata de torcicolo
Vontade de dormir
Mas também quero viver
Na dúvida, eu me meto a escrever
Casa limpa
Dorzinha chata de torcicolo
Vontade de dormir
Mas também quero viver
Na dúvida, eu me meto a escrever
Não tenho escrito muito ultimamente. Ando calada sem calcular os dias. Estou tão inapropriada, assim, nua, autobiográfica. Choveu muito nos últimos dias (mas não quero falar a respeito da chuva). Nem sei sobre o que quero falar. Vocês viram? Saiu no jornal: Mulher bipolar surta e arremessa cães da janela de seu apartamento. Senti pena da mulher. Será presa. Irá parar em algum sanatório e lhe darão tantos remédios que ficarão dormentes as pontas de todos os seus dedos e ela irá se esquecer de si, de tudo, da vida. Os cães estão salvos. Embora mortos, não correm o risco de serem arremessados novamente. Nem todo mal é por todo ruim. Fiquei de escrever para uma amiga que perdeu alguém que amava. Eu diria: embora você esteja triste agora, você vai ver que, em alguns dias, irá sorrir tanto que sentirá câimbras no maxilar. Mas ela não acreditaria. A gente prefere acreditar que a dor irá persistir. Então não escrevi porque de nada iria valer minha palavra. Espero que minha amiga esteja bem. Cruzes. Estou fúnebre. Deixe-me mudar o rumo do dito. Não posso falar de amor (assunto favorito porque todos querer encontrar sentido). Não falo de política. Não me atrevo. Faço algumas críticas muito tolas e prefiro guardá-las para mim. Material escolar é um bom assunto. Tesoura sem ponta, estojo com lápis grafite e borracha. Muita cola. Cadernos e mais cadernos. Eu tenho um filho. Será que já me dei conta disso? Ele me protege. Ele tem o sorriso mais belo que já vi. Ilumina o rosto, a casa, minha idade. Dia desses ficamos na cama conversando. Sem querer eu disse que estava ficando velha. E ele me perguntou se eu iria morrer. Eu disse que sim (Um dia, filho, todo mundo morre. E isto não é ruim). Ele ficou sério, pensativo e seus olhos se encheram de lágrimas. Nos abraçamos. Meu filho tem uma teoria a respeito da morte: Só morre quem já está de cabelo branco. E ele começou a examinar meus cabelos e disse: "Mamãe, você não tem cabelo branco. Não vai morrer". E sorriu aliviado. Eu também sorri, admirando sua inocente sabedoria. Este amor entre mãe e filho, que muitos tentam deixar nas mãos de Freud, vai bem além das teorias. Tenho quase certeza de que este é o amor de deus. E, talvez, todas as pessoas que partiram nos últimos dias, de fome ou de terra que sofre deslize, já estavam de cabelo branco. Um branco que não é visível aos nossos olhos por estarmos cegos de forçar a vida com o nosso vão raciocínio.
Image by arwenita

6 comentários:
Falando em Adriana, comprei "O Micróbio do Samba" hoje. Vi na loja, lembrei da nossa conversa e comprei. Acho os sambas desses CD uma delícia.
Quanto a sabedoria de seu filho, tenho algo a dizer: estou pintando os cabelos desde já, rs.
Beijo.
Gostei do teu blog. Estou entrando nessa de escrever. Acho que só assim poderei me conhecer e entender um pouquinho da vida. Estou te seguindo. ok!
a inocência é a beleza maior das crianças. a inocência é ainda maior beleza em gente grande.
essa vida. essa branquidão dos cabelos.
(essa calcanhotto)
Gosto de quem escreve bem. Talvez esse seja um critério meio falho, mas tem valido para mim, que sou apaixonada por literatura e que espraio até os escritos não tão literários assim.
Fui seguindo o texto, um papo bom. Imaginei as pessoas que morrem acidentalmente com cabelos brancos algum tempo antes do fato. Uma aura que a gente não vê - nem quem morre, ainda bem -, mas que está lá, desde antes, fazendo de pessoa uma assinalada.
Quanto aos filhos, eles são muito especiais, quando pequenos. Aproveite para ouvir tudo o que ele diz agora. Às vezes, eles mudam.
Eliane F.C.Lima (blogues Poema Vivo, Conto-gotas e Literatura em vida 2)
Já dizia a minha avó: "Não há mal que não traga um bem". Há quem não acredite. Eu acredito. Minha avó, Lucinha, tinha a sabedoria e inocência das crianças. Hoje, prefiro não falar de certos assuntos. Quanto aos mortos, eles estão bem. Mas, quando a rizada dá a quem perde(u) quem Ama, "câimbras no maxilar", vc lembra que lhe está faltando um braço, uma perna, um dedo, uma orelha, depende. De perder quem se Ama, não se esquece nunca. Vive-se. Aprendi, na pele, que se é para dizer qualquer coisa "por dizer" a quem perdeu um ente querido (clichê), é melhor mesmo que não se diga nada. Eu já tenho meus cabelos brancos visíveis a olho nu. Dou um jeito nisso de tempos em tempos. Sem grandes preocupações. É a morte do outro que eu temo, não a minha. A não ser pela minha mãe, meu marido, meus bichinhos e por aqueles que precisam mais de mim. Filhos? Não os tenho. Me dou conta que não os tenho. Há quem não se dê conta que tem filho(s). Essa gente não é Mãe/Pai e não está perto do Amor de Deus. Assim como quem judia de animais indefesos. Não comparo criança e bicho, porém, um é tão inocente quanto o outro (respeitando-se os limites de cada um). Ontem, quando minha sobrinha, que faz 3 anos hoje, deixou minha casa, ela disse para o meu marido: "Eu vou deixar os seus filhinhos, viu?" (se referindo aos nossos bichinhos). E foi colocada no carro, no qual ela não queria entrar, com os olhos marejados e o coração pesado.
Hoje era o dia de eu vir aqui. ;)
fantátisco o que você escreveu!!!!! não abordou nehum tema e ao mesmo tempo abordou vários. lindo!!!! bela filosofia!
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