18 janeiro 2012

trópico explícito (dois)











E além de vós
Não desejo nada.

(Hilda Hilst)






Minha palavra ardida de flora feminina ousa dizer que nunca meus lábios beijaram boca tão pura quando a tua que se tornou rua de minha língua passear. De nosso beijo sem epílogo, sem parcos elogios, insiste a vontade que me faz sentir a casta sensação de beijar de novo o homem que mal conheço e me aborrece o azar de querer conhecer por completo. Quero permanecer anônima aos teus discernimentos, aos teus orgulhos, aos teus meros aborrecimentos. Nada quero saber da tua rotina, do teu dia, da tua vida de trabalho e ninharias, de foto de família ou plano feito para vingar. Que nosso vocabulário se permita calar. Calados, colados, moldados pela fome, pelo signo, em nosso trópico explícito, sejamos sempre estranhos em nossos encontros, que nossa cama nunca nos formate atônitos de matrimônio, que a mesa não seja posta, que promessa alguma venha nos encalacrar devotos de um precipício de amar até o fim o que sempre será início. Nada quero saber de teus precários eventos, de teu passado à remendo, de tuas linhas futuras em palmas da mão. Quero apenas a língua que transpassa a outra língua e que se cruzam unidas trocando saliva em nosso cio imperfeito de amar.









Minha palavra fria de fauna masculina ousa dizer que nunca meus lábios beijaram boca tão suja quando a tua que se tornou pia batismal de minha língua se purificar. De nosso beijo de previsível prólogo, sem extenuadas ofensas, desiste o esquecimento que me faz sentir a puta sensação de beijar uma vez que fosse a mulher que conheço melhor que o trajeto do emprego que me sustenta e me aborrece a sorte de já saber de antemão o que jamais desejei ter ideia. Quero permanecer tão exposto quanto alheio às tuas dúvidas, aos teus medos, às tuas várias alegrias. Já sei tudo do teu cotidiano, até da noite, do trabalho e algumas fortunas, algumas fotos sozinha e do amor que não vingou, mas resultou noutro que não há de se acabar. Que nosso alfabeto ao menos se permita soar. Falados, separados, talhados pela saciedade, pelo ceticismo, em nosso típico exercício, sejamos sempre cúmplices nos desencontros, que nossas linhas descruzadas nunca nos separem satisfeitos da distância, que estejam todos os talheres à mesa, que as promessas se precipitem afoitas na agonia tão grande de fazer desnecessário o amor que será para sempre a sobra. Tudo já sei dos teus miraculosos feitos, do teu futuro brilhante, do teu passado de superação a despeito da inevitável dor marcada em calos nas palmas das mãos, ainda que invisíveis na pele, mas sensíveis à alma. Quero apenas a letra que transpassa a frase e que se cruzam unidas trocando versos em nosso poema perfeito de tanto prosear.





(Por Don Mattos)









7 comentários:

Z. Tamires disse...

Palavras que queimam...


Adorei o texto, moça! :)

bruniuhhh disse...

é bom querer assim, mas pra mim não basta, mas basta um dia.

Maria Oliveira disse...

Oi,vim conhecer seu Blog,amei e já estou super seguindo,parabêns por seu cantinho e muito sucesso aqui!

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Anônimo disse...

Queria eu conseguir assim, seria tão mais gostoso, menos dor de cabeça, mas verdade, inclusive. A gente ama e se perde. O amor nos faz isso. Foda.

Lindo, como sempre.
Beijo, Letícia.

Verônica Hiller. disse...

absurdamente lindo. adorei. estou seguindo.

Moer Cana disse...

Você escreve muito bem. Texto muito bom, parabéns!

Marcelo Novaes disse...

Letícia,

Don Matos é mais aquiescente. A questão da primeira voz narrativa, haurida de algum lugar de Letícia Palmeira, é de fácil solução: o cara dorme no chão, não tem mesa em casa, só come na rua [nada de talheres à mesa], faz uns bicos sem trabalho fixo ou qualquer rotina, é nômade e sem família. Talvez tenha clã, desses que vagam e se cruzam de vez em quando. Sabe ler as mãos, como bom cigano, mas não entrega as suas próprias à leitura.


Tá tudo resolvido?! Huuummm?! Huuumm?!






Um beijo, amiga.