30 janeiro 2012

um dia para fernando










Hoje encontrarei Fernando. Preciso estar bem. Preciso demonstrar que estou bem. Afinal de contas, já não nos vemos há 12 anos. Tanto tempo... Fiquei tão eufórico quando soube que Fernando está na cidade. Recebi do porteiro o bilhete de Fernando. Dizia: Olá. Estou em São Paulo. Gostaria de vê-lo. Encontre-me no lugar onde costumávamos ir. Tenho certeza de que irá se lembrar. Carinhosamente, Fernando. Tentei não sorrir quando li o bilhete. O porteiro me olhava enquanto eu já estava sorrindo. Trêmula, minha boca soltou um pequeno som de alegria e triunfo. Eu sempre soube que Fernando voltaria um dia e, mesmo que eu não queira, sinto um doce gosto de vingança ao pensar que Fernando talvez esteja ansioso por me ver. Talvez ele esteja se arrumando, se perfumando, decorando frases tolas para me dizer. São muitos anos de distância. Eu nunca o procurei. Aliás, não o procurei mais desde que ele me pareceu bem enfático ao dizer: "minha vida agora é outra. Não preciso mais de você". Sofri muito quando Fernando me deixou. Passei dias sem comer, sem querer receber visitas e faltei tanto no trabalho que perdi o emprego. Eu não culpo Fernando. Eu fui irresponsável comigo mesmo. Fiquei desempregado, minha família se afastou de mim após minha tentativa de suicídio, e meus amigos não suportaram minhas freqüentes conversas a respeito de Fernando. Todos fugiram de mim. Fiquei sozinho. Talvez eu deva agradecê-lo por tudo, porque, de certa forma, ele me ensinou a viver e a aceitar minha solidão durante todos estes anos. Irei agradecer. Fernando irá tentar me persuadir com suas palavras doces que tanto me encantavam. E irá me olhar com seus olhos de arrependimento. Ele ainda deve estar bonito. Um pouco mais velho, mas ainda bonito. Farei a barba. E vestirei um terno. Terno é muito formal. Vestirei minha camisa listrada e assim parecerei mais magro. E calças pretas. Jeans é muito vulgar. E irei de sapatos. Usarei minhas melhores meias. Onde estão minhas meias? Faz tanto tempo que já não lembro como Fernando preferia o meu corpo. Mas lembro que ele adorava quando eu vestia jeans e camiseta branca. E ele adorava me ver de tênis. Está decidido. Jeans, camiseta branca, tênis e meias brancas. Fernando me fez sofrer e, por isso, é preciso que ele me veja bem. Estou bem, direi a Fernando. Vou sorrir e mostrar meus dentes amarelados de tantos cigarros fumados. Preciso me policiar e não sorrir escancarado. Sorrirei fechado. Da forma como ele gostava. Roupa de baixo? Mas o que deu em mim? Não posso esquecer que Fernando sempre preferiu me ver em tons mais claros. Cueca branca. Estarei como Fernando sempre me quis. Vestido para ele. Ah, como estou cheio de saudade. Como deverá estar Fernando? Embora tenhamos ficado distantes por tanto tempo, sempre arrumei formas de ficar sabendo de sua vida. Sei que ele teve um longo relacionamento com um médico. E sei que morou em Veneza. Sei também que conseguiu o emprego que tanto buscava. Fernando é jornalista. Ele sempre foi bom com as palavras, com suas falas, com suas mentiras. Ficamos juntos por dois anos e aprendi a lidar com as mentiras de Fernando. Eu simplesmente fingia que elas não me feriam. Eu o amava demais para julgar. Eu precisava tanto de Fernando que nada mais me importava. Era somente Fernando que comandava minha vida. E, depois de nossa separação, nunca mais consegui me envolver. Tive dois ou três relacionamentos. Todos forçados por minha necessidade de não me sentir só. Mas de nada serviram. Eu sempre enxergava tantos defeitos em todos que não suportava mais de 15 dias na companhia de quem quer que fosse. Passei a encontrar pessoas apenas por uma noite. Nunca telefonei de volta. Nunca quis me envolver. Fernando ainda era o único com quem eu passaria todos os dias de minha vida. Mesmo tendo sofrido, eu o aceitarei de volta. Embora o bilhete deixado na portaria tenha me parecido um tanto frio, sei o que Fernando espera de mim. Ele já deve ter decorado suas desculpas. Dirá que sentiu minha falta por todos estes anos. E dirá que estou lindo com meus cabelos grisalhos. E vai adorar me ver vestido da forma como ele sempre exigia. Ah, Fernando, não é preciso que diga muito. Basta um sorriso seu, um pedido de perdão, e eu darei tudo que tenho por você. Todo o meu sentimento. Mas o que estou dizendo? Como posso me entregar tão facilmente a um homem que me fez de tolo, que me fez sentir usado, que tanto esnobou de minha dor? Fernando, não pense que será tão fácil reconstruir tudo assim, num piscar de olhos. Não pense que me entregarei sem antes dizer tudo pelo que passei em sua ausência. Eu direi.

Após perfumado e barbeado o homem sai de casa, pega um táxi e se dirige ao local marcado. Como eu poderia esquecer nosso lugar favorito em São Paulo? Desce do táxi, sequer pega o troco, caminha disfarçando sua excitação por saber que, em alguns minutos, estaria diante de Fernando.

Não queria fazer planos. Mas já estava tudo perfeitamente idealizado: palavras, perdão e um beijo de reconciliação. Ao entrar no café, fora recebido por uma elegante garçonete que o encaminhou para uma parte mais isolada do ambiente. Sim, eu lembro. Era aqui que costumávamos ficar. Estava feliz. Estava fora de si. Estava a ponto de amar Fernando cada vez mais. Entrou no segundo ambiente do café e sentou-se. Pediu um expresso. Passou a ler e reler o bilhete deixado com o porteiro. Carinhosamente, Fernando. Fora servido seu expresso, estava submerso em lembranças, sorveu o café decorando o que diria a Fernando. E falava em voz alta. Foi então que percebeu outras vozes ao seu redor. Todas as mesas estavam ocupadas. Estranhou. Eram homens e todos seguravam um bilhete azul entre as mãos. Bilhete da mesma cor que também havia recebido. E estavam todos vestidos da mesma forma. Jeans, camiseta branca e calçavam tênis. Alguns grisalhos e outros ainda muito jovens. E estavam todos com o mesmo sorriso débil de esperança. Aproximou-se de um rapaz jovem que olhava o bilhete extasiado e disse: ― Desculpe interrompê-lo, mas você se incomoda que eu lhe pergunte o que há no bilhete? O rapaz sorriu e entregou o bilhete nas mãos do homem que, aterrorizado, sentiu-se enganado, sentiu-se terrivelmente idiota, usado mais uma vez. Sentiu-se cômico, derrotado, um objeto sem valor algum ao ler uma cópia do bilhete que tanto o fez sonhar desde a hora em que o porteiro lhe havia entregado. Quase chorou. Respirou fundo e saiu perambulando feito louco tomando das mãos de todos aqueles homens seus bilhetes azulados e isto causou tamanha confusão no lugar que fora preciso que seguranças o retirassem dali. O homem estava desequilibrado. Dois homens grandes o tomaram pelos braços e o levaram para fora enquanto ele apenas dizia que não era justo e que ele não merecia ser tratado daquela forma. Chorava. E, ao ser levado à calçada, deu de cara com Fernando. Magro, em cadeira de rodas, e levado por uma enfermeira. Fernando estava sem cabelos, olhos fundos, pálido, e respirava por um tubo de oxigênio. O homem parou atônito. Perguntou à enfermeira o que havia com ele e ela respondeu friamente: "câncer. Não há mais o que se fazer". O homem olhou Fernando nos olhos, pensou em dizer algo, mas um sorriso abriu sua cara e deixou a mostra seus dentes amarelados. O homem sorria. Acendeu um cigarro e sentiu-se completo porque, finalmente, encontrara Fernando e agiu como age qualquer amante abandonado, rindo da desgraça e desejando ver o outro à beira da morte, incapaz e triste.

Rasgou o bilhete ainda na calçada do café e, pela primeira vez em 12 anos, sentiu-se imensamente livre.








Image by Anastasia

2 comentários:

Thais Souza disse...

Adoro essa liberdade e ousadia nos seus textos!
Um tanto egoísta, sentimental e humano. Adorei os personagens e todo o enredo!

Marcelo Novaes disse...

Letícia,



Aqui, vc multiplicou os espelhos. Se um portador-do-espelho é uma figura poderosa, a multiplicação de espelhos pode ser tão cacofônica quanto a multiplicação das células de um tumor.


Ou das fantasias, em cantos e contracantos incessantes, até a morte.






Um beijo, amiga.