04 fevereiro 2012

gioconda














Que horas são? 9:15. Meu Deus! Vou me atrasar. Não posso perder a consulta com minha ginecologista. Olha de novo o relógio. 9:16. Suspira tão alto que chama a atenção de uma mulher sentada a frente de uma grande mesa esverdeada compenetrada em seu computador. Mulher abusada, pensa Gioconda. Trabalha sentada e ainda tem coragem de ficar de cara feia. Muita petulância. Eu bem queria estar no lugar dela. Trabalhar sentada e ser servidora pública. Gioconda dá risinhos como se estivesse vencendo guerras. Ah, eu seria uma ótima funcionária. Seria amiga de todos. Eu estaria sempre sorrindo e traria potinhos de biscoitos para distribuir entre amigos. "Olha o que a Gioconda trouxe hoje: biscoito de polvilho!" Eu seria assim. Atenderia todo mundo. Não deixaria ninguém mofando em uma cadeira. E faria bolo de chocolate quando fosse aniversário de algum colega de trabalho. Cantaríamos os parabéns. Pare Gioconda, dizia a mulher para si mesma. Pare de sonhar. Você sempre acaba se ferindo. Sonha tão alto... Mas Gioconda não conseguia parar de imaginar sua vida como servidora pública. Eu não seria como esta mulher. Eu sorriria. Ou talvez me tornasse ranzinza. Imagine só se eu me tornasse a típica funcionária antipática. E se isso acontecesse? Todos me odiariam. Falariam mal de mim. Ou me respeitariam. E eu ficaria sempre de cara azeda e boca franzida. Não teria amigas. Não conversaria bobagens com ninguém. Ou até poderia ser o tipo bonitona que a todos encanta. Gioconda sorri maliciosa. Eu teria muitos amantes. Faria sexo inapropriado. Gioconda ergue a voz e pergunta à mulher sentada à mesa:

― Moça, aqui tem almoxarifado?

A mulher diz que sim e se volta ao computador. Tão indiferente. Mas Gioconda está feliz. Eu sempre quis fazer sexo em um almoxarifado. É tão sexy. E tão romântico. E todas as mulheres teriam inveja de mim embora me expusessem a má fama. Eu não me importaria. Mas e se eu me tornasse extremamente gorda? Eu ficaria entediada com minha vida de funcionária e engordaria comendo escondido doces e outras porcarias que eu cuidadosamente guardaria na gaveta de minha mesa. E todos sentiriam pena de mim por estar gorda e solitária. Muitos dariam conselhos e muito iriam me ridicularizar. E eu choraria escondida no banheiro.

― Moça, onde fica o banheiro feminino?

A mulher aponta para a direita e se volta para o computador. Gioconda não queria mais pensar. A ideia de estar sozinha chorando em um banheiro a deixou triste e estranhamente preocupada. Gioconda respirou fundo e tentou não pensar mais. Que horas são? 9:20. Se demorar mais 10 minutos vou ter que adiar a consulta com a ginecologista. De repente Gioconda é chamada e convidada a entrar em uma sala muito aconchegante. Senta-se. Percebe que há porta-retratos sobre a mesa meticulosamente organizada e limpa. Ouve a porta se abrir por sobre seus ombros e se depara com uma figura de rosto amável e sorriso gentil. Uma mulher alta, vestida de forma elegante, de cabelos grisalhos e bem penteados e a mulher exalava um aroma em fragrância floral. Gioconda sente-se atordoada, não sabe o que dizer, não pensa de forma coerente, se interroga, seu coração acelera, seus lábios tremem sem que saia deles uma palavra. A mulher então cumprimenta Gioconda e senta-se a sua frente. Gioconda, de olhos escancarados, não entende o que está havendo ali. O tempo para e Gioconda percebe que estava sentada diante de si.









Image by GloriaSw7

4 comentários:

bruniuhhh disse...

Não sei o que dizer de Gioconda...
apenas sorri com ela, me preocupei com ela, me estranhei com ela.

Marcelo R. Rezende disse...

Gioconda é das minhas, pensa muito.

Zélia disse...

Voltando aos textos de final "surpreendente". Mas, devo dizer que ri ao longo do texto. Sou funcionária pública, mas, escolhi o cargo errado. Trabalhando em pé há 18 anos, eu seria realmente uma funcionária pública, dessas que trabalham sentadas apontando para aqui ou ali e dizendo: "Diga!", exemplar. kkkkkkkkk

Marcelo Novaes disse...

Letícia,




A portadora-do-espelho é uma figura e tanto. Engole até Monalisa.







Um beijo, querida.