26 fevereiro 2012

quadrinhos










Amor a tempo


Ludmila acordou cedo e me olhou com seus olhos carentes. Parecia uma menina contando sonhos.

― Vamos ao cinema? Vamos ao museu? Que tal passear pelas ruas? Eu preparo seu café.

Respirei fundo comprimindo ares em meus pulmões. Olhei dentro dos olhos de Ludmila e apenas consegui dizer que já era tarde. E Ludmila apenas sorriu como se concordasse.





O jogador


Eu não sei por que sinto tanta ânsia. Tenho tantas vontades. Faço até planos. Penso em comprar uma bicicleta, viajar de trem, assistir partidas de futebol e ler muitos livros e conhecer muita gente. Faço todos os planos e sorrio ao fazê-los. Mas quando chega o tempo de cometê-los, eu me canso e os esqueço.





Toda em palavra


Ela vestia uma camiseta branca e havia uma estampa de slogan engajado. Não li o que diziam as palavras. Eu só conseguia dar atenção ao formato de seus seios. E eles, sim, me diziam todas as coisas.





A visita


Certa vez visitei um amigo que há muito não via. Marquei de almoçar em sua casa. Conheci sua família, sua mulher e seus filhos crescidos. Todos foram muitos gentis comigo. Após a refeição, meu amigo e eu tomamos café na varanda e fumamos alguns cigarros. Conversamos muito a respeito de nossas vidas. Ao fim da tarde nos despedimos e prometi voltar em breve. Mas isto não iria acontecer. Aquele encontro foi doloroso o bastante para que eu percebesse o quanto é ruim saber que meu amigo não passa de uma pessoa que consegue vencer.





Egípcios


Ele dorme ao meu lado. Ronca e se movimenta. A cama de casal tornou-se minúscula. O ventilador vai e vem com suas pás empoeiradas. Eu estou coberta por um belo lençol azul de puro algodão egípcio em diversos fios. E, sob tudo isto, meu corpo nu permanece frio.





Congênitos


Passei o dia na companhia de um homem. Um distinto poeta. Bebemos e fizemos amor (ou terá sido sexo?). O homem encharcou-se de mim. Não considero que tenha sido uma orgia. Foi um encontro entre iguais. Conversamos sobre nossas vidas. Segredos foram revelados, dores, amores. E também vivemos o espanto que revela o coito. Deitamos lado a lado e nos olhamos. Eu estava nua e não me incomodei por me deixar ser vista. Ouvimos música e ficamos em silêncio. Abraçados por nossa dor congênita. E, através da janela da noite, azuladas nos observavam as estrelas.









Image by morganpenn

3 comentários:

Germano Xavier disse...

Quadrinhos.

bruniuhhh disse...

que lindo e triste e lindo.

Marcelo Novaes disse...

Letícia,


O verbo cometer, não-conjugado pela voz narrativa [mais de uma vez, em outras narrações] é que é o mais fantástico dessa sequencia de acometimentos.



Um beijo, querida.