01 fevereiro 2012

servos iguais













Trombas de elefantes, cargas d’água e objeto-me a traduzir o que diz a formiga que passeia elegantemente ao redor da xícara. Estará pensando em mim? Tantas suaves passadas em círculo e sigo, de olhos bem abertos, o inseto que invade meu espaço sem ao menos dizer de sua existência. Formigas precisam saber das leis, dos eventos, precisam saber da humanidade e da matemática que rege o tempo. Não me venha, inseto traiçoeiro, dizer que não enxerga que o vejo. Estou atento. Dois minutos e caminha arrastando consigo restos de comida e a densa uniformidade da grama que acoberta os pecados do jardim. Em suas patas há mais histórias que em minhas mãos. Confronto o ser diminuto. Admito-me pequeno, insustentável, admito-me inconformado, e, muito embora me aborreça a lentidão das coisas, não abandono a criatura preguiçosa que há em mim. Foram anos até chegar ao tempo em que estou. Não fora fácil construir-me, iludir-me, atraiçoar a mim mesmo. Eu queria servir de cobaia aos meus inventos. Eu quis tudo o que me atingiu. A sova do vento, o indiscreto passar dos anos fazendo curvar minha estatura, meu ereto servir às criaturas, meu sorriso sedento de aplauso e, das vezes que fui ao chão, era tudo o que eu queria. Chamar sem voz a atenção de quem me visse e tanto engoli poeira de tantos chãos e estraguei-me de orgulho e devorei a sorte imbecil de quem acredita que a única chance é a vida e não a partida para outro lugar distante deste aqui. Eu me dou de aplauso. Eu acalento meu fracasso por estar prestes a cometer o início de um novo ciclo de desaventuras. O homem que acordava ao celeste estrondo da manhã, agora desfruta de uma xícara de café, atormentando o silêncio de meus pensamentos com esta caótica misericórdia tardia. Elevo a xícara à altura dos olhos e vejo, claramente, que não somos tão diferentes. A formiga e eu. Vejo que vivemos da mesma afasia. A formiga faminta de açúcar caminha absoluta e eu sei que também invado espaços, pois nunca na vida indaguei minha existência e nunca soube se deus me desejava nascido ou fora eu um erro aborrecido que viera ao mundo desviado de outro caminho. Tenho tanto por dizer. Mas o tempo cala minha boca que fala e não há mesmo diferença entre o inseto na xícara e o homem à vida. Somos todos matéria ígnea que à natureza retornará. E não me incomoda mais o inseto. Não me incomoda mais meu similar que agora escapa de meu campo de visão e cai ao chão e caminha pelo piso e retorna ao jardim. Saberá a formiga o quanto a vivi? Terá o pequeno ser memórias deste instante? Não me atrevo a buscar respostas. Não me atrevo a sair de mim. E perde o homem outra chance de se iludir.







Image by Carl Spartz

4 comentários:

Valter Nunes Corrêa / Shang disse...

Peixes - quando a gente está próximo de nascer, se demora nessas coisas pequenas, invasoras, nessas outras nem tão doces ou quentes ou perfumadas.
Ser um feto racional pede emoção, para um parto com menos dor.

Marcelo R. Rezende disse...

Lindo. Perceber o cenário é a primeira coisa pra entender-se como ser, como mulher/homem, entender o sexo e a solidão. Somos tudo aquilo que nos cerne, certo? Não sei, mas me parece que sim.

Um beijo, Letícia.

Felicidade Clandestina disse...

uma bela surpresa encontrar seu blog.

Marcelo Novaes disse...

Letícia,




"Um rosto pensa e, às vezes, decide por cores demais num filme barato, e elas se amontoam, se atrapalham, se inutilizam pelo excesso. Um rosto fala muito e se depara com a palavra que sempre repetiu. E as frases se repetem sempre. Nem se sabe por que mas elas voltam. Voltam e o rosto parece retroceder, os passos parecem retroceder, os dedos parecem folhear jornais antigos e parece que as mãos devolvem, sempre, o velho chá para a mesma xícara que já bebemos".


Excerto do capítulo: "Da Antiga e Novíssima Cerimônia do Chá". Cidade de Atys, meu romance mitológico.



Pode ser café o que estimulou o passeio da formiga e o acompanhar antropocêntrico de seu percurso: do inseto ao homem-inseto, conjecturando sobre Deus e seus (não-)motivos. Mas a passagem me remeteu a tal cerimônia relida em minha clave nada-Zen.




Um beijo, amiga.