18 março 2012

às cegas















Big Bird In A Small Cage by Patrick Watson on Grooveshark










Eu me lembro da primeira vez que te vi. Você não me viu. Engraçado, não? Você apenas sorria e era sempre com o violão e a voz e sempre com tantos planos. E eu te ouvi. Você falava muito. E nunca houve nada. Eu apenas te olhava. Aí coisas aconteceram. Você casou, fez família, ficou triste, distante, morreu. Não de morte mesmo. Você se encolheu e sumiu no mundo. E eu fiz a mesma coisa. Que mais uma pessoa pode fazer a não ser perpetuar-se em espécie? É um vício. Depois de um tempo nos vimos. Foi um dia (à noite) em uma calçada. Em uma praia. Você estava sozinho. Lembro de te ouvir dizer que a coisa havia desandado. Pensei: Normal. Tudo tem seu fim. E passou mais tempo e não nos vimos mais. A gente se esconde em tudo. Já reparou? Trabalho, botão e rasgo, beijo na boca que compromete tudo. Depois ouvi falar de você. Havia encontrado outra pessoa e estava pronto para perpetuar-se louco. E você amava que mal olhava ao redor. Pensei: Amor é mesmo um belo esquife. Então você fez novo capítulo e assumiu missa e promessa: o ateu que por deus celebra. E eu continuei vivendo minha vida equilibrada de mulher que não larga o osso. A boa fêmea que respeita a prole. E tudo mais caminhou: trabalho, distância e a velha crença de que amizade é sempre perto (mesmo não dando cara às vistas). Não te visitei em parto, em aniversário, em festa de pouco barato. Eu havia esquecido de te ver. E admito: era chato. E eu vivia também. Tanto que nem sei. E veio de novo um encontro que nem era encontro. A vida vai jogando com a gente. O tempo todo. E você estava sofrendo. Parecia recém-saído de um precipício, enlutado em martírio, um filme na clausura da mesmice. Eu não senti compaixão. Porque, a gente sabe, é tudo feito de começo e fim. Foi apenas mais uma promessa que acabou com os burros n'água: casa mobiliada, prestação paga e cama vazia. Entendo bem. E tudo isso passa. Ouvi dizer que agora você vive seus recreios. E você amadureceu. Ou talvez não. É pai de filhos, vinil em drama antigo e amigo da família. Sempre que nos falamos você sorri e diz que está bem buscando alguma paz. A mentira já perdeu as pernas de tão curta que ficou. E nada vai mudar o enredo porque meti a língua em falso beijo. Na verdade, eu lamento não ter tido a chance de dizer que eu sempre vi você. Antes. Lá no começo. Mas aí eu penso: Vai ver não era para ser dito. Nem vivido. Vai ver era só o meu gosto de princípios. E agora eu conto a história toda porque a vida é sempre nova trajetória. E eu encho a boca com o que tenho. Eu nunca tive receio. Porque eu sempre te vi como te vejo.












Image by MisOtrasCosas

6 comentários:

Marcelo R. Rezende disse...

Os caminhos são muito tortos para a gente que gosta de viver e se entregar. Nem sempre em linha reta tampouco com final certo.

Lisa Alves disse...

Teus contos são rapsódias do cotidiano. Muito bom!

Lorena disse...

Absurdamente belo!
Não tenho mesmo o que dizer. Não sei dizer. Eu fico embromando feito uma retardada porque não consigo deixar de dizer como fico catatônica e imbecil diante de tudo que você escreve. Eu ia destacar duas frases que gostei muito e uma delas era a última... suas frases curtas são enormes. Interessante é que encontrei esse texto por acaso no google enquanto procurava uma imagem de braile. Aproveitei e li. Mulher, tu escreves com as vísceras. Gostei demais.


Bj.

Cyelle disse...

Tão poético, tão sentimental.
O vedadeiro amor platônico.

Mai disse...

Superior!

São tantas as caixas que enlaçamos e guardamos, né?

Outra vez - belo!

Marcelo Novaes disse...

Letícia,

O personagem aludido pode achar a paz acalentada, entre um acorde e outro do velho violão. Ele ainda deve lembrar de alguns.






Um beijo, amiga.