20 março 2012

hortaliças









Rufem os tambores, senhoras e senhores. A cena é a mesma de anteontem. Ele sai do banheiro equilibrando o peso de seu objeto identificado causador de belos males. Homem pelado é um traste. Olha quanto pêlo. Olha a simetria descombinada. Elvira pensa enquanto o homem caminha em sua direção. Lingerie apropriado para ocasiões, abajur meia luz, palpita o coração e lá está Elvira deitada esperando seu pepino. Mulher templo divino. E começa a jornada. Um-contra-um-igual-a-poucos. Ele deita sobre a mulher que sorri envaidecida. Obrigada, meu deus. Este homem é meu. Elvira se movimenta que é uma beleza. De lado, de cabeça pra baixo, escoando pelo ladrão. Olhe para mim, Elvira. Isso, Elvira, você acertou. Aplausos para Elvira que, após tanto treinamento, finalmente conseguiu engolir a melancia. Um sobe e desce, entra e sai e nada de música porque música vicia, Elvira. Gire os quadris, Elvira. Isso. Elvira se arrebenta de raiva quando ouve pronome demonstrativo empregado em tão simples contexto. É demonstrativo ou interjeição a comando de voz? Vamos, amor. Amor? Elvira conspira contra palavra. Desde quando sou amor? Elvira cogita razões e pensa em sua irmã Marília que está com problemas hormonais. Preciso ajudar Marília. Hormônios podem destruir alguém. Marília tem 50 anos e se diz feliz. Marília tem bigode. Eu já aconselhei Marília a fazer depilação a laser. Marília não ouve ninguém. Marília cansativa que adora anunciar seus aumentativos insuportáveis: lindérrima, gostosérrima, chiquérrimo e belíssimo. Eu odeio Marília. Irmã desgraçada. É sempre o mesmo abacaxi. 45 minutos e segue o torneio. Ele acerta a caçapa, mede o peso do taco e se apavora. Ele não pode chegar antes de mim. Respira forte no ouvido de Elvira que já nem sente mais seu corpo. Tanto fogo para pouca palha. De quatro agora, meu bem. Vamos. Rema remador. Elvira lembra de ter esquecido de comprar panos para suas mangas. E agora o homem é bailarino. O que é isso que ele está fazendo? O homem agita o corpo de forma que Elvira não sabe se chora ou se tenta ajudar o marinheiro a retirar a âncora presa ao chão. Uma posição eclética. Homem sábio é aquele que fomenta algo e responde com decisão. Um golpe de esquerda, um de direita, chave de braço, depressa, Elvira, estou quase lá. Lá aonde? Irá o homem descobrir o segredo do universo? Elvira conseguirá abrir as pernas sem rasgar-se feito papel? O homem realmente foi à lua ou terá sido montagem para enganar a população? Elvira está rubra de tão descascada. Uma flor. Esfolada, mal passada e, feminina, consegue arrancar gemidos de seu apicultor. Elvira, tente outra posição. Vamos, Elvira. Não quero ainda, Elvira Amor. Ele está romântico. É uma benção. 57 minutos de vai e vem, esconde e mostra, morde e assopra e Elvira está contente porque, de tão cansada de quebrar a lei da gravidade, decide usar a manobra final. Ela sabe que ele não se manterá firme. Planejada a vencer, ela sabe os caminhos para o precipício. Elvira beija o homem apaixonada, diz tudo falando nada, e cede o corpo acelerado e úmido em sua última tentativa de vitória. E o juiz apita o final da partida, senhoras e senhores. O homem ejaculou feito louco, rosnou feito cachorro e tombou seu corpo ao lado de Elvira. E, dias depois, o mesmo homem arruma as malas e vai embora dizendo que precisa de mais espaço, de mais vida, de alguém que o ajude, de alguém que se mostre mais companheira. Elvira sofre seus lamentos. Chora por alguns dias, ajuda sua irmã com seus problemas hormonais, conhece outro homem na fila do caixa eletrônico, namora fruta vaidosa, se afoba romântica e segue sua rotina cega de chorar pitangas e ninharias em meio às imensas plantações de hortaliças.







Image by TierraL

5 comentários:

Marcelo R. Rezende disse...

Que cena deliciosa, que mulher in satisfeita, que homem incompleto. Gosto de tudo.

Beijo, Lê.

Germano Xavier disse...

Tenho a impressão de já ter lido este texto.

grazzi disse...

há de nascer a pitangueira, frondosa, de tanto ser regado esse chão sem graça!

Karine Tavares disse...

Teu blog é lindo, parabéns!

Vem conhecer o meu:
leiakarine.blogspot.com

Marcelo Novaes disse...

Letícia,


Pobre Elvira. Seria muitíssimo mais recompensada se se dedicasse à horticultura.


Sim.





Um beijo, querida.