08 março 2012

monólogo explícito









Why is it, when I am in Rome,
I'd give an eye to be at home,
But when on native earth I be,
My soul is sick for Italy?

And why with you, my love, my lord,
Am I spectacularly bored,
Yet do you up and leave me - then
I scream to have you back again?


(Dorothy Parker)






Eu quero que você vá embora. A frase surgiu do nada. Saltou da língua. Quando percebi eu já havia dito. Dei um bom trago no cigarro e depois o larguei no cinzeiro. Cinzeiro bonito feito de mosaico. Pequenas pedrinhas de vidro. Bonito este cinzeiro. E eu quero que você vá embora. Não, não importa a hora. Eu sei que são duas da manhã. Mas eu quero que você vá embora. Só isso. Pegue aquela mala. A mala verde. Aquela que usamos em nossa viagem à Petrópolis. Sim, aquela mala. Coloque suas roupas dentro. Coloque suas coisas dentro da mala. Eu quero que você vá embora. Não, isso não tem nada a ver. Não há nenhuma problemática a mais. Não, também não tô partindo pra loucura. Eu só quero que você vá embora. Claro que eu sei que é muito tarde. Mas há táxis. As ruas estão cheias de táxis. Ou então você pode ir andando. Ah, não me importo pra onde você vai nem como vai, entendeu? Eu só quero que você vá embora. Estou me repetindo? Não, eu não vou gritar, nem estou fazendo alarde. Eu só estou dizendo claramente que eu quero que você vá embora. Ah, porque com você aqui dentro, de cá pra lá, pra cima pra baixo, andando aqui, existindo, eu não aguento mais. Eu não suporto. Tudo é muito pra mim. Não, eu não tô falando em falta de amor. Amor e paixão não tem nada a ver com isso. Ainda existe amor, existe paixão, existe tudo. Mas eu quero que você vá embora. Eu quero ter a chance de sentir outra coisa além de amor e paixão. O quê? O que eu poderia sentir além de amor e paixão? Você realmente acha que é só isso que deve haver entre duas pessoas? Coloque suas coisas dentro da mala verde. Ah, eu vou deixar a mala aberta em cima da cama. Você vai até o quarto, abre o guarda-roupa, abre suas gavetas e vai jogando tudo dentro da mala. Se quiser pode levar alguns cds, alguns livros seus, essas coisas, coisas pequenas. Mas, como sei que não vai caber tudo na mala, então você pode pegar a mala maior. Pode usar as malas todas. Eu não vou mesmo usar as malas. Você pode usar todas. Eu vou colocar todas elas em cima da cama e você vai lá, coloca suas roupas, tá? Começa pelas camisas, tudo em degrade. Coloca assim tudo organizadinho pra você não ficar perdido quando chegar a algum outro lugar. Coloque tudo em degrade, coloque as meias, seja organizado. Não, não esqueça nada. Leve tudo. Por que estou com pressa? Não, não é pressa. Eu já venho pensando nisso desde ontem, desde anteontem. Aliás, eu já tô pensando nisso desde o dia em que você veio morar aqui. Desde a primeira noite em que a gente dividiu essa cama. Eu sempre pensei em dizer pra você ir embora. E agora estou dizendo que eu quero que você vá embora. E eu vou ficar repetindo isso a noite toda. Se você quiser levar a sério ou não, o problema é seu. Mas a minha vontade ainda vai existir. Amanhã, se você ainda estiver aqui, e acordar e olhar pra minha cara, você vai saber que eu quero que você vá embora. Claro que você pode levar a toalha. Ela tá molhada, mas pode colocar dentro da mala. Ela não vai mofar suas roupas. Você nem vai pra um lugar tão longe assim. Vá pra um hotel qualquer, ligue pra um amigo e fique na casa de alguém. Não precisa fazer drama. É só ir embora. E nem precisa olhar pra trás. Mas é claro que te amo, sinto paixão, tudo, até explodir. Morro de paixão por você. Uma maluquice enorme. Mas não é só isso. O que mais deve haver? Não, não existe nenhuma fórmula, não existe nada específico. Eu só quero que você vá embora. Coloque todas as suas coisas dentro da mala verde e depois você usa aquela mala verde maior, coloca um cadeado pra não perder suas coisas por aí e não precisa viajar pra longe. Mas, se você quiser ir pra longe, tudo bem. Você pode ir. Você tem dinheiro. Saque o dinheiro no caixa eletrônico. Sim, há caixa eletrônico funcionando a esta hora. Principalmente em aeroporto. Você acha que não tem? Tá, então fica até de manhã esperando em algum lugar e depois saque o dinheiro e vá embora. Eu não tô falando em amor. Eu não tô falando em paixão. Você me satisfaz muito. Você me satisfaz em tudo. Você caminha pela casa, eu fico olhando seu corpo, sempre admirei você, tenho o maior orgulho de você. Olha, você é imenso e perfeito e gigantesco. Você é o motivo, sabe? O motivo que eu tenho pra respirar dia após dia. Eu trabalho pensando em você, eu bebo pensando em você, eu faço muitas coisas pensando em você. Eu tô o tempo todo pensando em você. E, pra completar, eu tô o tempo todo com você. E é isso que está me incomodando. Eu estou o tempo todo com você. Eu amo você o tempo todo, eu sinto paixão o tempo todo, a gente sente esse amor o tempo todo, e deita na cama e se beija e faz tudo. Mas eu só quero dizer uma coisa. Eu quero que você me entenda. Eu quero que você vá embora porque eu quero outra coisa. Eu quero ter a chance de sentir falta de você. Eu não sinto falta de você. Eu não sinto saudade, sabe? É esta a palavra que tô buscando: saudade. Eu não sinto saudade. Eu quero sentir saudade. Eu quero olhar as coisas que você tocou aqui em casa, eu quero saber que você tocou naquele porta-retrato, naquele livro, eu quero saber que você fumou e jogou as cinzas do seu cigarro naquele cinzeiro, eu quero olhar o banheiro e saber que você sentou naquela privada e fez suas coisas ali. Então eu quero sentir saudade de você. Eu tô cansada de sentir só amor. Eu tô estufada. Eu quero sentir saudade. Por isso quero que você vá embora. Porque se você não for embora eu não vou sentir saudade. A sua pergunta é essa? Se eu quero que você vá embora para que eu sinta saudade? Então a resposta é sim, eu quero que você vá embora para que eu possa sentir saudade. Talvez amanhã eu não sinta. Nem depois. Mas eu tenho certeza que em algum dia eu vou sentir saudade. Eu vou ficar olhando as coisas e choramingando e ouvindo música, caindo em pranto e me sentindo triste. Eu quero ter a chance de sentir tudo. Eu preciso. Eu não posso ficar prisioneira de amor e companheirismo e paixão. Eu quero sentir saudade. Então você vai embora, faça suas malas agora e vá, pegue um táxi, faça alguma coisa. Você escolhe. Eu só quero que você saia por aquela porta e me deixe sentir saudade. Eu só quero sentir saudade de você. Porque se você passar o tempo todo comigo eu não vou conseguir sentir saudade e isso tá me deixando mal. Então eu te peço, por todo amor que a gente sente um pelo outro, por toda paixão que nos envolve, eu te peço pra ir embora porque eu quero realmente sentir saudade. Eu quero que você vá embora. De verdade. Eu quero sentir saudade. Eu preciso. Um dia talvez você me entenda. Ou não. Talvez nem seja preciso.









Image by Steve

9 comentários:

Marcelo R. Rezende disse...

Talvez a distância se encarregue do entendimento.

Saudade de te ler.
Saudade de você.

Beijo.

Cinthia Maria Bezerra disse...

Gostei!
Muitas vezes esse discurso acontece em algumas mentes por aí...

Beijo.

Thais disse...

Ai como eu queria ter feito isso...Nem mala teve, e nem despedida e nem explicação, e havia tudo,deve ter sdo isso, a pessoa siplesmente não aguentou ser tão feliz, mas que droga de vida é essa?

bruniuhhh disse...

tão simples e tão não-entendível. saudades são necessárias.

Cyelle Carmem disse...

Sinto um pouco de falta da distância também.

Zélia disse...

Voltando...

Gosto da Dorothy. Trabalhei com esse poema, inclusive. Minha língua solta me faz dizer que o problema é do Eu no poema. O que não tem nada a ver com o Eu que se "explicita".

"Nesses dias tão estranhos" eu só tenho pensado em viver "in spite of all the danger". Viver bem e feliz e chorar quando preciso for. Tenho me assustado com o que vejo, com as pessoas, com o que sinto. Síndrome de pânico? Não. Talvez, seja a síndrome da "lucidez perigosa" de Clarice. Nessa eu acredito. Sei que, às vezes, é preciso deixar ir. Seja o que/quem for. Nem que seja para sentir saudades. A saudade nos faz sentir vivos também. No entanto, há saudades e saudades. Sentir saudade do que eu ainda posso alcançar é uma coisa. Sentir saudades do que eu não posso mais alcançar, é outra. De todo jeito, sentindo saudade, estamos vivos.

"Um dia talvez você me entenda. Ou não. Talvez nem seja preciso." ;)

Chellot disse...

Por vezes a convivência se torna cansativa, não há atrativos. Então a esperança é a distância, é sentir saudades, é querer estar perto mesmo estando longe.

adorei sua estória.
Beijos doces.

Camilla Tebet disse...

"Tudoé muito pra mim". Também pra mim.
Vá embora, é urgente.

Marcelo Novaes disse...

Letícia,



O interlocutor da voz narrativa é lento. Já devia ter ido. As negociações do "não-ainda", "mas será?" e que tais são tanto mais desnecessárias pela necessidade de elencá-las todas.


O interlocutor poderia deixar a toalha molhada na casa da voz narrativa, afinal estaria abrindo mão de pouquíssima coisa. Uma toalha, oras.





Um beijo, querida.