02 março 2012

overdose









(porque a vida é tão outra coisa)








― Já percebeu que todo mundo anda cometendo excessos? Falei muito alto?

― O problema não está em falar muito alto ou não. O problema está em dizer. Eu não quero ouvir essas coisas, sabe? Não quero mesmo. Olha o tamanho do sol. Tá vendo? Ele tá enorme e tá bonito.

― Mas querer ou não saber não vai fazer com que as coisas desapareçam.

― Eu sei. Eu também não quero que desapareçam. Eu só não quero saber delas. Vou te dar um exemplo bem simples. Quando não quero ver a bagunça alojada em meu guarda-roupa, eu simplesmente não abro o guarda-roupa. E, quando abro, porque eu preciso trocar de roupa, eu faço tudo muito rápido. Abro a porta, pego qualquer roupa e não dou atenção à bagunça. É mais ou menos por aí.

― Entendi. Mas seu guarda-roupa continua lá. Ele não some e a bagunça também não.

― Eu sei.

― Eu não entendo por que você evita falar em certas coisas.

― Eu não evito. Eu só estou me dando a chance de não falar a respeito.

― É mais fácil fingir, não é?

― Não, não é mais fácil fingir. Porra, você está me confundido. E o sol tá lindo. Olha lá aquela coisa ao redor dele. É tudo nuvem. Elas se condensam e formam um tipo de anel esfumaçado. Olha o azul do céu todo esfumaçado. Isso é perfeito.

― Até quando vai fugir?

― Perdi. Minha paciência morreu. Pode falar. Fale tudo que estiver pensando. Eu posso ouvir. Eu consigo. Mas não vou discutir.

― Eu só pensei a respeito dessa autodestruição que está rolando por aí. Já reparou nisso? Não percebe que tudo anda exagerado?

― Já reparei sim.

― Olha. Presta atenção. Eu tenho amigos. Eu converso com muita gente. E sabe o que vejo? Tudo é 80.

― Sim. Tudo é 80.

― É assim. Se alguém decide usar alguma química, vai usar até enfiar o pé. Se alguém decide trabalhar, acaba trabalhando tanto que se camufla. Tem gente que se torna crente e vai seguir ordem de igrejinha até ficar tão cego que nada mais fora da igrejinha faça sentido.

― Entendo.

― Eu conheço muita gente e converso com todo mundo. E todo mundo me parece tão exagerado, sabe? Gente que fica estudando, fazendo mestrado, doutorado, os diabos, se entupindo de alguma coisa que faça com que sintam algo ou não sintam nada. Conheço gente que escreve e passa horas falando nisso e vive tanto do que escreve que a vida se torna só aquilo. A gente exagera no mesmo tema e a vida é tão outra coisa.

― Sabe o que acabei de pensar? Naquele trecho... Você já tá pra lá de Marrakesh.

― Rindo de mim?

― Claro que não. Só estou ouvindo. Então as pessoas exageram. E o que mais?

― Elas se camuflam. Tem gente sofrendo pra ser o que precisa ser ou pra ser o que sente que deve ser e não consegue porque fica se sabotando. Ou o mundo sabota a gente. Já nem sei.

― Está falando de quê?

― De muitas coisas. É mais ou menos assim: quando alguém resolve transar, vai transar até ficar viciado naquilo. Quando alguém resolve gastar grana, vai gastar até quebrar. Falir. Quando alguém resolve ser o foda em tudo, vai e se torna o foda em tudo. Minha questão é: cadê a merda do meio termo?

― Talvez não exista o meio termo que você espera.

― Como assim?

― Sei lá. Eu disse que não queria falar. Eu só escuto.

― Começou a falar, agora termina.

― Tá bom. Esse meio termo de meia tigela que você está falando ele simplesmente não existe na concepção que você espera.

― Como assim?

― Porra, olha bem. Talvez o meio termo seja algo além do exagero. Algo como a bonança após tempestade.

― Eu tô aqui falando o tempo todo e você me vem com essa de chavão que explica tudo? Que bonança? Do que você está falando?

― Do exagero. Não era disso que você queria falar? Eu tô falando do exagero. Dessa coisa de viver tudo, fazer tudo, falar tudo. Não era esse o tema?

― Era sim. Mas você saiu do tema. Você fugiu. Você se camufla.

― Eu não me camuflo. Eu só não quero ver o formato das coisas. Não agora. Eu não tô a fim de ver o formato de nada. Eu só quero viver, sabe?

― Como você consegue agir assim diante de tudo que tá acontecendo?

― Não sei. Não tem fórmula.

― Mas existe algo que te basta? Você sente satisfação? Qual é o teu exagero?

― Eu não sei. Eu só quero olhar aquele sol ali que tá lindo com aquele rastro de nuvem todo esfumaçado em azul. É a minha decisão de agora.

― Assim? Tão simples?

― Eu só busco um foco. Eu não quero me perder pensando em coisas enormes, entende?

― Tá. Mas e daí? E quando este sol lindo da puta que pariu se pôr, o que você vai fazer? Em que vai pensar?

― Na lua, ora. Ou nas estrelas.

― E se estiver nublado, sem lua e sem estrela?

― Aí eu vou observar o céu nublado. Ou a chuva. E só.












Image by Samantha Nagel

5 comentários:

Eder Asa disse...

Eu te adorei em diálogo. Já havia te dito e sabia que você iria se dar muito bem. E se deu. Sustentou visceralmente o diálogo. Além da densidade cênica. Mulher, você é puro Teatro.

Malu Machado disse...

Viver simples é um arte. Belo texto. É como se estivesse passeando pela euforia do trânsito alucinado e de repente subisse em um árvore e só existisse o ar puro, o céu e a alegria. Muito bom te ler.

bruniuhhh disse...

cara raivinha dessa questionadora aí,.
mas tudo é lindo: a construção. me curvo a quem faz diálogos assim.

Thais disse...

você é um anjo que fala por todos nós mortais ,principalmente as donas de casas, coitadas de nós,a gente sente tudo isso, mas não sabe colocar isso em palavras ai vem vc e diz.Obrigada!

Marcelo Novaes disse...

Letícia,


Este sol está um exagero de lindo. E permitiu uma defesa semi-articulada de um meio termo pós-fastio. Coisa fantástica. A ressaca e o cansaço [de tudo e qualquer coisa] trarão o equilíbrio, ou o meio-termo. Exceto para este sol que fulge furiosamente.


Tudo bem que depois vem a luz, etc e tal.


Te aquela história de se dizer: "Se eu não escrever do romance que estou tendo com o coordenador da Oficina Literária, escrevo sob o fracasso do romance, com a supervisão dele". :)







Beijos, querida.