07 março 2012

pássaros em telhados











When Doves Cry by Prince on Grooveshark








O som está muito alto. Poderia diminuir um pouco o volume? O garçom diz que não. Que não pode diminuir o volume porque os clientes gostam do som naquela altura. Eu olho ao redor e vejo casais conversando. Como conseguem conversar neste barulho? A música: remix de uma canção da Adele. E os casais conversam. Na verdade, acredito que não estejam conversando. Talvez estejam se evitando. O som alto faz com que se evitem. É bem melhor mentir a dizer a verdade. Eu trouxe meu diário e é com ele que irei conversar. Que a música se exploda. Não sei bem o que escrever. Há muitas ideias e muitos dias a relatar. Eu conto tudo que faço. Conto e aumento (o engraçado é voltar ao diário dias depois de tê-lo escrito e perceber que menti). Eu não consigo acreditar em mim. Eu nunca soube mentir de verdade. Alguém ao telefone: onde está? Estou aqui. Vou te encontrar. Fique onde está. Não quer me ver? Não, não é isso. O que é então? Eu não quero dizer. Você não tem créditos para completar esta ligação. Melhor assim.

O que vou escrever?
Ah. Lembrei.

Caneta certeira na página em branco: voltei a ler Caio Fernando Abreu porque preciso saber de onde exatamente andam tirando aquelas citações dele. Não é possível que um escritor tenha citação até pra dor de dente. Conclui, após ler Morangos Mofados, que muitas pessoas não sabem o que dizem. Há um longo texto em que ele narra um homem e suas ondas de questões existencialistas ao olhar telhados de zinco e pombos horríveis voando de lá pra cá. Foi nesta narrativa que encontrei a citação: "Não, você não sabe, você não sabe como tentei me interessar pelo desinteressantíssimo." Algo assim. Não há entrelinhas. Ele está falando de um cara que tenta se interessar pelos pombos horríveis e pelos telhados de zinco. E tenta explicar a alguém o quanto é difícil se interessar por tais questões. E são telhados bem sujos. E o Caio Fernando Abreu era meio Batman porque ele, hora ou outra, fala em morcegos. Me parece que ele realmente tinha medo de morcegos. Talvez fosse traumatizado. Que seja. Mas o que me dói é saber que a citação nada tem a ver com a vida amorosa de ninguém. É apenas um telhado de zinco.

Mas quem sou eu para dizer o que os outros devem ou não sentir quando leem alguém? Que usem citações. Que usem citações até se sentiram enjoados. E eu não vou perder meu tempo defendendo autores. E acho até que o eu-lírico poderia ser mais exato.

Exemplo:

Lucíola sentiu-se triste por não conseguir amar Fernando e, por isto, disse:

"Não, você não sabe, você não sabe como tentei me interessar pelo desinteressantíssimo."

Seria difícil usar um trecho dessa natureza para elucidar um sentimento qualquer. Que seja de novo.

Tenho me sentido incomodada com algumas coisas que nem merecem ser mencionadas aqui. Farei como os casais que conversam ao som da música ensurdecedora. Vou evitar e fingir e pensar que certas coisas que incomodam não existem e fim.

Uma gripe me acertou. Há três dias. Percebi que não consigo escrever quando estou gripada. Talvez seja hora de usar alguma citação:

"Não, você não sabe, você não sabe como tentei me interessar pelo desinteressantíssimo."

Coitado do Caio F. Viveu, morreu e agora paga o pato de nossa geração sem rumo. Eu conversei com alguém a respeito disso. Nossa geração não tem motivos. Estamos vazios. O que temos a fazer a não ser sentarmos nossas bundas na frente de um computador e mostrar que somos muito felizes, ou surtados, ou malucos? Que há além da rede social? Não posso responder. Ainda não estou pronta. Mas posso dizer que estamos feito cãezinhos correndo em busca de nossas caudas. Estamos defendendo causas que já estão muito bem protegidas por lei. Preciso dizer que entendo os homossexuais, os heterossexuais, e tantas outras pessoas. Entendo e respeito. Mas também preciso dizer que violência e intolerância sempre haverá. Eu sou mulher e temo a violência contra mim. Seja verbal ou física. Muitas mulheres ainda serão espancadas. Por isso criaram a Lei Maria da Penha. Ou terá sido o contrário? Terá sempre alguém contra você não importa o que você seja. Mas também haverá alguém a favor. É como estar dentro de uma tempestade. Haverá ventos opostos e ventos que poderão nos levar para lugares melhores. Já chega de explicar.

Volto à citação:

"Não, você não sabe, você não sabe como tentei me interessar pelo desinteressantíssimo."

Muitos casais foram embora. A música continua alta. Eu não estou alta. Estou lúcida porque preciso enxergar. Conheci alguém por quem não me apaixonei. Isto é bem normal quando se trata de mim: eu nunca me permito. E ainda vem a questão do medo de ter medo de ter medo. Eu não quero defender esta causa. Posso até ficar ao lado, bancar uma de torcida organizada e dizer que espero que ele seja feliz por toda a vida. Mas não consigo. Prefiro dizer que não me apaixono porque sinto preguiça. E, além do mais, sou passional. Todo passional mente. E por aí vai.

O bar está ficando deserto. Não me agrada muito ficar aqui, neste barulho infernal com aroma de cerveja e vodca. Paro agora e volto a escrever sei lá quando.

Assino meu nome.

O telefone:

― Mudou de ideia?
― Acho que sim.

E ele logo irá chegar e vou me largar a sorrir e beber. É isso. E vou deixar o diário aberto sobre a mesa. Não sei bem onde, mas li algo que dizia que quem escreve diário sempre espera ser lido. Acho que é coisa da Virginia Woolf. Que seja.

Ele chegou.

E eu repito a citação:

"Não, você não sabe, você não sabe como tentei me interessar pelo desinteressantíssimo."

De mãos dadas caminhamos pelas ruas de uma cidade que há tempos não sai do lugar. 











Image by Anton van Dort

3 comentários:

Mai disse...

Interessantíssimo! E você é dessas pessoas que jamais deveriam deixar de escrever.
Fato, não são apenas os cachorros que correm atrás do próprio rabo, né?

bj

Thais disse...

Lindo demais!

Marcelo Novaes disse...

Letícia,


Não sei não. Mas acho que vc citou "Gata em Teto de Zinco Quente" umas 41 vezes neste post.



Sim.








Um beijo, amiga.