14 abril 2012

antiquada










Mulheres De Atenas by Chico Buarque on Grooveshark








Eu sou a mulher moderna. Ou seria pós-moderna? Já nem sei. Estou em dúvida. Sei apenas que estou com defeito. Todo o pós-modernismo está com defeito. Tentei ligar para a assistência técnica e não recebi resposta. Ouvi apenas uma voz robótica: deixe sua mensagem após o bip. Não deixei nada. Nem voz, nem vestígio. A grande questão é que me taxaram de moderna. No entanto, sou mais antiquada que a minha avó. Você tem ideia do quanto me custa estar sempre pronta como se fosse uma máquina de lavar? Dessas máquinas bem arrojadas e cheias de botões sensíveis ao toque? Nem te conto. Não me atrevo. Tenho vergonha de dizer que minha barriga seca é pura fome. Nada de chocolate, nada de fritura, nada de porra nenhuma. Nada de ter. E tudo isto para manter o corpo em forma. De quê? De mulher, de moderna, de saia curta e perna aberta? E o caríssimo homo sapiens masculino me aflige ao dizer: gostosa. Sinto-me medíocre ao ouvir tais insinuações. Não sou gostosa, nem paradisíaca. Sou isto. E apenas. Eu penso e tudo que penso me assusta. Ou me faz pensar ainda mais. E pensar causa cegueira (vide poeta). Eu ando camuflada em meu trabalho, cuidando dos bugalhos e dos filhos. E o homo sapiens é exigente. E minha ginecologista também. Ela sempre me diz coisas e eu nunca sigo conselhos. A não ser que sejam da Martha Medeiros. Porque são conselhos imbecis e, como me taxaram de moderninha, então me visto de imbecil (também). Mas é necessário enxergar por trás de minhas vestes urbanas e de minhas coordenadas enfadonhas de mentir. Sou isto: a moderna, a católica vertebrada de pernas, a máquina, o estorvo, a fingida, a mentirosa e a grande calculadora de golpes. Eu sou a moderna meretriz de ponta de estoque.










Image by smartmama

10 comentários:

Marcantonio disse...

Acho que você tem uma argúcia, uma lucidez crítica tão penetrante que chega a parecer ácida, mas temperada por certo charme de quem preferiria, se pudesse, não ser lúcida.

bruniuhhh disse...

é um coisa de te sentir real e pele. a mulher.
('mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas')

Anônimo disse...

Lamento não ter vindo antes...se continuar te lendo (Te li à exaustão) corro o risco de me apaixonar por tuas letras e me viciar na espera de mais. Adorei. Obrigada por escrever assim. Menina de sorte você...só para o caso de ainda não saber ou duvidar. Abraço de cumplicidade de temas.

Germano Xavier disse...

Eu não acho nada disso.

Marcelo R. Rezende disse...

Só que a gente se vende no valor errado.

Zélia disse...

De tanto fazer um bocado de coisas dessas aí, foram-se alguns neurônios... Ia falar pouco. Ia falar em outras palavras. Mas, penso que Marcelo, aí em cima, acertou em cheio. A gente se vende. E o pior: "no valor errado". People!!! /)

Cyelle disse...

E não é que a gente se identifica?
Modernidade virou moda. É isso mesmo...

Bruno Oliveira disse...

Ah, essas mulheres comuns de hoje... Tão perturbadas, mas tão adoráveis!!

Shuzy disse...

Esse teu post foi copiado sem ter citada a fonte: http://lafleurdelapeau.blogspot.com.br/2012/05/eu-sou-mulher-moderna.html

Marcelo Novaes disse...

Letícia,


O pós-modernismo é uma desconstrução pós-ruínas, antes de qualquer reconstrução ou construção nova. É um "interregno". A moderna meretriz de ponta de estoque parece a porta-voz "lírica" dessa condição. Isso é confidência ficcional de fazer sociólogo balançar a cabeça satisfeito, em cúmplice assentimento.


Este homo sapiens faz triste figura. É uma figura do caralho, e só.




Um beijo, querida.