19 abril 2012

mórbido urbano











Afinal, todos sentimos algo como uma viuvez em relação à verdade.

(Marcantonio Costa)





Tenho aprendido muitas coisas com meus amigos. Uma delas é não cometer os mesmos erros que eles cometem quando pensam estar fazendo o que é melhor para seus umbigos. Meus amigos são boa gente. Felizes pra cacete. Embora reclamem de barriga cheia. Mas reclamar faz parte do ócio, do óbvio, do mórbido urbano modo de ser. Ah, meus caríssimos amigos de vidas tão cumpridas, eu os respeito. Devo dizer mais: eu os invejo. Porque nunca vi pessoas tão autodestrutivas e tão de bem com a vida. Como vocês conseguem alcançar este milagre? Mais uma dose? Claro que estamos a fim. Estamos sempre a fim de tudo: mentir, trair, contrair e subtrair. Somos matemáticos decorando tabuadas no meio da madrugada. E somos tão perversos e que deus nos abençoe na hora última. Vamos logo admitir que nunca fomos tão verdadeiros. E por que diabos mentiríamos agora? Não mudamos em nada. Aspecto algum. A não ser por nossas caras amassadas de ressacas e nossas rugas insensatas, somos os mesmos. Trabalhamos muito, colhemos dinheiro e sofremos de uma nostalgia de efeito retardado que nos faz viver como se fossemos crianças em casa, aos pés da mãe e do pai, à mesa farta e com uma leve sensação de que a vida não vai passar por nós como se fosse carro veloz cortando luz em contramão. Somos exemplares em nosso modo de agir. Veja só o meu jeito de sorrir. Não me acha moderno coordenando os caminhos de meus sorrisos? Estarei realmente linda para que todos queiram comer de mim? Nós, frente ao espelho, não pensamos assim. Somos tão fortes e tão inseguros. Um bando de aves de asas cortadas sofrendo o receio de nossas consequências. Barrigudo aos 30. Divorciada aos 32. Triste e amargurado aos 40 e tantos e o que mais virá depois? Catoliquinhos de quinta categoria, será que somos realmente assim? E o que você tem feito da vida? Eu trabalho, tenho planos e tenho um amor que não entende nada do que sinto. Ainda escondo, entre camisas, fotografias para os horários de ser ninguém. Nós temos fome que não é da seca, que não é de comida, que não é de felicidade alguma. E, se eu pudesse, por um minuto, encher meu ego burguês de algo que me fosse extremamente prazeroso, ah, eu faria tudo para ser diferente do que sou. Eu seria como todos vocês. Mas há uma preguiça latente que me faz não seguir adiante. Parece que estou sempre hesitante. Pareço mais um ventre que aborta gestações. E o que faremos no próximo capítulo? Mas a vida não é livro, alguém diz. A vida vai guiada cega por nosso eterno medo de viver a dose completa. E um dia chegaremos ao fim.










Image by glass-unikorn

7 comentários:

Marcelo R. Rezende disse...

Sem termos aprendido nada, sempre tentando ensinar algo e perdendo tempo valioso. Sei lá, a gente é mundano demais.

Marcantonio disse...

Somos viúvos da verdade porque não suportamos admitir o devir, porque não aguentamos olhar pra dentro de nós mesmos e concluir que nossas significações são flutuantes.Gostamos de dizer que a vida é um ensaio, mas nos ressentimos de uma estreia que jamais tem dia para ocorrer. Há verdades necessárias para os objetos, tão naturais que parecem banais, mas não se encontra uma verdade como razão do sujeito. Eu sei que não posso viver sem respirar, mas nada justifica o porquê de nos mantermos respirando. E quantas vezes já se disse isso? E continuo repetindo. Sabemos da ilusão dos oráculos, mas ainda sonhamos ser seus portadores.

Esse é um texto muito bom, com alguma náusea existencialista. Você foge do consenso como o diabo foge da cruz. Claro, quem suporta bem a era da platitude emocional senão os sedados? Sempre achei incrível que cansaço e desengano possam ser descritos em linguagem cheia de vitalidade. Contradições da arte...

Fred Caju disse...

Uma coisa que admiro em você: você escreve sempre na medida certa. Sabe o momento exato de parar.

Aproveitando, deixo aqui um vídeo para xs leitorxs do espaço: http://vimeo.com/40411264

Marcello disse...

Moça, que texto!!!! Quando tiver palavras pra descrevê-lo, eu volto. Beijos querida.

bruniuhhh disse...

O Marcello (com dois L's) disse um pouco disso: sempre escrevo besteiras aqui pra você, mas pq é de uma dificuldade descrever o que se sente no prazer que é te ler.

William Lial disse...

Belo texto, Letícia. Vejo a vida como costumo dizer aos amigos: "Viver é bom, mas dói, mas é bom!" rs!.

Marcelo Novaes disse...

Letícia,



Não há livro que comece pela página 142. Alguns não chegam a ela, mas todos já estão encaminhados quando o sujeito se dá conta da própria história. O que resulta disso? Assombro? Enjoo? Olheiras? Ressaca? Vertigem do tempo atravessando o plexo e subtraindo ao sujeito o chão? Não sei de cada livro escrito, só quando sobre ele me debruço, sempre a convite. No entanto, descubro ser o viés mais onipresente esse desvio calculado do olhar, aqui tomado por viuvez ou orfandade. Órfãos do real, cada qual órfão de "algum real" que o olhar de muitos soube evitar e, assim, desconceber, desconstruir, inviabilizar. Cada órfão aprende algo com o tal olhar desviado, a partir do próprio desvio. Pode repetir o feito, pode ser um hábil detector de desvios, o que significará, sempre, ser um "desviado" em seu meio de ficção consensual. A sua [a dele] parecerá uma ficção muito peculiar, idiossincrática, provavelmente. Na melhor das hipóteses.




Não conheci pessoas tão felizes, nunca. As fotos não me impressionam, sobretudo nessa área do rosto. As que assim soam, destoam aos meus ouvidos, assim como destoam ao ouvido da tua voz narrativa.



Mas quem quer beber da vida a própria vida, "num único trago", está, no fundo, flertando com a morte. Antecipam o fim que fecha teu texto. E tamanha avidez é temor mais-do-que-declarado: uma forma nada sutil de fingir tomar nas mãos aquilo que pode sobrepujar quem não alcança, em vida, o olhar de despedida construído, por si mesmo, ao longo do processo. Processo de "assim sendo, assim ido". Sem a fantasia do rebobinar da fita autobiográfica. Sem imaginar começar o livro da página 142.





Um beijo, querida.