29 abril 2012

relicária exposta











Let Go by Frou Frou on Grooveshark









Eu era uma menina tempos atrás. Mas não me deram horas para escolher meus passos e de repente eu já estava cantando para criança dormir. E eu mal havia acordado. O tempo está passando e meus olhos contornam horizontes flácidos em folhas de jornal. O sol se põe e nasce e eu ainda insisto em dizer que não há fenômeno mais intrigante. O mesmo astro fazendo seu trabalho por séculos. Quando foi mesmo que o mundo fora criado? Eu não conseguiria ser tão alinhada em meu comportamento, em meu trabalho, em minhas obrigações. Admito que tenho comparecido mais aos compromissos. Compareço, faço graça e desapareço. E finalmente consegui cerzir o rasgo feito no papel de minha memória. E já não esqueço nada. Lembro-me de tudo. Mas é sempre um cinema mudo desgraçado olhar passados contemplados por minhas idades. Eu sequer tinha ideia de meus seios e os doei às mãos alheias. Como era mesmo o nome da criatura? E que diferença faz um nome? Vamos sempre adiante ignorando identidades. Minha sexualidade serviu de estandarte a um homem que adorava se olhar no espelho sempre que alcançava o riso. Eu olhava nos olhos de um homem que mal era um homem formado. Era apenas um coagulo de um humano que hoje já não sei se sente fome ou arrota transbordado. Memória cega de não enxergar o hoje é a minha. De ressaca e cheia de pudores. E todas as cenas mais escandalosas permanecem escondidas. Mas eu sou curiosa demais e abro meus relicários. Já está exposta a larga ferida e não doerá mais este veloz olhar para trás. O telefone está tocando de novo. Eu não atendo porque não sei o que dizer a uma pessoa que não conheço. Perdoe-me a indiferença, desconhecido. Entenda apenas que estou em processo de saber de mim antes que eu me esqueça. Ficou bonita a frase? Beleza de estética imperfeita. Sigo linha por linha o trajeto de minhas idas. Casada e moradora de si própria. Não aprendi a conversar. Não aprendi a ter modos e, por este motivo, aos tantos anos completos, me tornei adúltera. Eu precisava me conhecer. E isto só poderia acontecer através do olhar do outro. Eu pensei em fugir de casa. De tão imbecil a besta agiu de forte acúmulo de vontade e não entendeu que a casa abandonada pertencia a ela apenas. Era minha a vida deixada para trás por algo que não me valeria o esforço de uma equação física. Até hoje não sei bem por que agi de forma tão viril e estúpida. Vai ver sou mesmo burra. Ou arquetipicamente humana. E não me julguem vocês, torcedores da arquibancada principal. Mas é mesmo um inferno ser mulher neste mundo desvairado de tentações. Hoje reafirmo que não mudei. Sou a mesma. A menina mãe de filho. E olho no espelho a ruga primária de toda minha experiência e não me arrisco a descobrir a verdadeira idade que tenho. E saiba que não tenho culpa dos erros que cometo. A culpa é sempre do outro, do receio e do relógio biológico que berra aos ouvidos me implorando para respeitar o tempo.












Image by mattresses

6 comentários:

Marcelo R. Rezende disse...

Contando os instantes, cada segundo, capturando os minutos pra bordar, né? Tempo e tempo e mais tempo e a gente esquece de molhar o pé na beirada da praia. Eu gosto da tua mulher, gosto de você; famintas.

Beijo, Lê.

Bruna Rafaella disse...

Lindo!
parabéns!!!!!

bruniuhhh disse...

a culpa é sempre de toda humanice. às vezes eu acho

Antonio Siqueira disse...

Belíssmo e aos olhos de um mundo que late do inferno.
Vigiai... e se proteja de gente ruim.
Grande beijo

Shuzy disse...

Vim avisar que estão copiando vc, sem dar os créditos...
http://lafleurdelapeau.blogspot.com.br/2012/05/relicaria-exposta.html

A mesma garota fez isso comigo também. Denunciei e meu conteúdo foi removido do blog dela... O seu ainda está lá...

Marcelo Novaes disse...

Letícia,


A memória de elefante continua a pleno vapor, mesmo com as tarjas nos olhos e nomes, nos casos previstos pela lei.




Um beijo, querida.