20 maio 2012

criatura viva











Ligo a tevê despreocupadamente. Um apresentador de programa de auditório grita e vibra aos aplausos da audiência. O homem celebra aquele instante e eu paro e penso: Espere. Esta é a matéria condensada de eventos, pessoas, sentidos, obrigações, ilusões, família, amor, rancores e partidas? Esta é a vida? O ponto de início e fim de qualquer existência está dentro da vida? Desligo a tevê e me deito ao sol do fim de tarde, em casa, ruído algum. Apenas o passar das horas no relógio antigo. Não há quem possa enxergar o que virá depois deste tempo, do dia, da cotidiana necessidade de existir. Então eu fecho meus olhos e vejo vida. Na árvore do jardim, no olhar das pessoas com quem convivo, nas ruas e nas janelas das casas e em luzes de edifícios. É tudo vivo. No asfalto, na mobília, no retrato, na voz robótica que me fala ao ouvido "bom dia, a dona da casa se encontra?" Eu me deixo sorrir ao perceber vida nos objetos que ostento, na medalha que enfeita o pescoço de alguém que não conheço, mas que passa por mim e eu o percebo. É veloz o ponteiro deste mecanismo incalculável que nos leva pelos dedos, mãos, o corpo inteiro. E eu percebo que estou viva e tenho sempre outra idade que não se mostra em meus olhos ou nas rugas que circulam a pele. Há tanta vida e ela acontece. Mesmo que queiramos permanecer estáticos diante de tudo, a vida se prolonga e se deita sobre nossos dias. A questão é apenas uma e insiste: O que você tem feito da vida? O que você tem feito de si mesmo enquanto o sol acorda e faz dormir cada criatura viva? Pois nunca será o bastante o ato em efeito e saiba, de agora em diante, que a vida é bicho que devora a carne de tudo que a consome.






10 comentários:

Gislãne Gonçalves disse...

A vida é devoração!

:)

olara, um castelo de sonhos disse...

A vida há em nossas almas!És viva!
Beijos no coração!

Marcelo R. Rezende disse...

Por isso que vivemos pouco, então, porque consumindo-a, ela nos devora? Eu sempre suspeitei da injustiça da vida...

Beijo, Lê, tá ótimo ótimo esse!

Bruno Oliveira disse...

"... a vida é bicho que devora a carne de tudo que a consome.". Gosto dessa imagem. É algo vital que coroe lentamente a própria essência...

Concordo com o Marcelo aí de cima, tá ótimo esse texto!

Grande abraço.

Zélia disse...

E, quem é vivo...

Eu repito:

"E eu percebo que estou viva e tenho sempre outra idade que não se mostra em meus olhos ou nas rugas que circulam a pele. Há tanta vida e ela acontece."

Acontece sempre! Não sei se bom seria se pudéssemos prender o ponteiro do relógio e fazê-la parar. Creio que não. A vida só é viva porque morre e segue a cada e a todo instante.

;)

Camilla Tebet disse...

uau, then.

Anônimo disse...

"O que você tem feito da vida?" O que é a vida? Uma das coisas que mais tem me instigado ulitimamente, é o fato de que estamos perdendo (e alguns nunca tiveram) a capacidade e a vontade de parar pra pensar e refletir sobre a vida. Tanta informação, automatismo, macanicismo e etc., que atualmente, parece que vivemos carregados pela vida de todos... pela massa que sai do lugar sem avançar, que corre sem saber o porquê e para onde vai... Gostei do texto. É bom ver que há pessoas que ainda se permitem parar e pensar. Parece que realidade as vezes só coincide com subetividade. E quem pode afirmar ou negar isso? Podemos pensar, e isso já é grande. Pena que poucos podem,ao que parece...

Marcelo Novaes disse...

Letícia,



A voz narrativa achou interjeições-de-vida para além dos comandos dos programas de auditório. Há cartazes ou códigos que dizem à plateia: "Aplaudam agora!" E tudo é tão exclamativo que parece que, naquele espaço, se vive tropeçando de interjeição em interjeição: "Vc está maravilhoso! Assisti ao seu trabalho maravilhoso! Gracinha! Lindo(a), divino(a)!"; "Nunca me arrependo de nada do que fiz, só do que não fiz!" [sic]", e outros fantásticos slogans.



A voz narrativa substituiu a claque encomendada pela surpresa de descobrir a medalha quase-anônima no pescoço vivo de quem anda, errando e acertando. A devoração do tempo é só detalhe. O tempo passa e isso é bom!





Um beijo, amiga.

ediney disse...

Cenas cotidianas

ediney disse...

Cenas cotidianas