05 maio 2012

leite morno













Meu homem prendado bonitinho foi ao barbeiro. Tão novela. Tão leite com biscoito. Tão merda. Tão se achando gostoso. Mas deixa que eu diga uma coisa, homem. Odiei seu corte de cabelo. E você chegou em casa se achando o máximo surpreendente. Fez até foto: olha, meu bem, este sou eu cortando o cabelo. Fiz até a barba. Ri ininterruptamente. Sabe o que eu estava fazendo enquanto você cortava cabelo e batia retrato? Eu comi o pão que o diabo amassou. Recebemos visita. Veio o agente da vigilância sanitária e me disse para mandar limpar a caixa d’água porque pode haver epidemia de dengue por nossa causa. Por causa da gente, macho indecente. Esquece. Tenho algo mais importante a dizer: Advirto que estou um tanto louca. Estourei o limite do cartão de crédito. Comprei montes de coisas. E amo você. Esqueci de dizer? Isto não deveria ser mais relevante do que seu corte de cabelo, Seu Falo, meu medo? E teremos um filho. Sorria. Você está sendo filmado, convocado, comprovado o macho reprodutor. Você será papai. E eu serei a mãe que foge. Kramer versus Kramer. Lembra? Eu nunca soube cuidar de criança. E não é agora que vou aprender. Mas eu amo você. APREENDA. E amo nosso filho ou filha. Só não americanize a criança. Não escolha nomes como Pamela ou Stefany. Será uma tragédia. Todos irão tratar a criança como se fosse metida. E ninguém vai pronunciar direito o nome da menina. E, caso seja menino, não use nomes como Cláudio Adalberto, Márcio Narciso. Não faça isto. Não derrame sua raiva na criança. Desconte sua raiva em mim que deixarei com você nossa cria e estarei a quilômetros de distância vivendo de qualquer forma e buscando ser feliz. E um dia eu volto com cara de Meryl Streep arrependida. Mas, ao contrário do filme, não vou pedir a guarda da criança. Pedirei abrigo e muito perdão por ter fugido. No entanto, como este dia ainda não chegou e nem filho eu espero, digo apenas que te amo. E me causa riso ver você muito surpreso de tanto assombro e me enerva a pele de vontade ao ver sua cara de quem muito me comeu e ainda não se cansou do espanto.










Image by pesare

8 comentários:

Marina Ribacki disse...

Essa sinceridade (loucura, ou imaginação) do texto é a que falta muitas vezes na nossa vida. Gostei (:

Monie disse...

Nossa, fiquei sem fôlego! É muita franqueza a sua. (Impactante! - eu achei. rs) Gostei daqui! Estou seguindo, viu? :)

Verônica Hiller. disse...

genial.

Malu Machado disse...

Olá Letícia, Muito bom o texto. Provocativo no tom certo. Adorei ler.

Marcelo R. Rezende disse...

Eu leio e vejo que é tão Letícia esse texto. A gente que te lê há algum tempo, começa a perceber os teus traços. Elegante.

A minha teoria é que a gente quer ser moderno e tenta tanta coisa e esquece que bom mesmo, é comer olhando nos olhos.

Beijo, Lê.

Zélia disse...

Um, dois, três:

Eu adoro essa fotinho, detesto leite morno e adoro rir de nomes espalhafatosos. Outro dia, ouvi alguém chamar por "Melissa Virgínia". Tive um aluno com nome de menina: Stefany. Assim mesmo, mas, ele dizia que o nome dele não era "Stefany" e sim "Estêfany" (era assim que ele pronunciava o nome) - whatever! "Facebookson" continua batendo o recorde de bom gosto :P Mas, se um dia eu deixasse de ser só filha e tivesse um menino, acho que ficaria com a sugestão de Homer Simpson: "Mauro Lauro" :D

Camilla Tebet disse...

Fritou a tampa da cebça. P$%%^&*()

Marcelo Novaes disse...

Letícia,



A capacidade da voz narrativa de amar o macho indecente é quase inesgotável.


Impressionante!




Um beijo, querida.