18 maio 2012

memória de elefante










o poeta





Não é sempre que tenho a chance de encontrar um poeta. E isto me aconteceu ontem. Ao caminhar pelo centro da cidade, cansada e cheia de sacolas nas mãos, encontrei um lugar para me sentar e descansar um pouco antes de continuar minha tarefa. Eu tinha uma lista de coisas para comprar. Coisas pequenas. Tecidos, aviamentos, linhas, carretéis. E deveria também escolher botões detalhados em tons de dourado. Não costumo fazer isto com frequência. Mas é dada a obrigação e é preciso cometê-la. Enquanto eu descansava sentada naquele banco de praça, muitas pessoas passavam por mim. Todas tão ocupadas. Seus semblantes me pareciam algo como estátuas que olham apenas para uma direção. E, entre tantas pessoas, encontrei um amigo. Um poeta. Ele estava distraído assim como me parecem estar todos os que se doam ao ato de escrever. O homem olhava para os lados, olhava adiante, olhava além. Fiquei feliz ao vê-lo após tanto tempo. Da última vez que o vi tentei evitar conversa. Porque, em minha opinião pé no chão da realidade, poetas são metafóricos demais. São líricos até nas observações mais comuns. E, mesmo cansada, resolvi por em prática e provar minha teoria, ou, talvez, mudar minha meu ponto de vista. Então me adiantei a cumprimentar meu amigo poeta. E o convidei para sentar-se ao meu lado e trocar algumas palavras a respeito da vida. Falar de coisas bem comuns como família, trabalho e amores. Eu disse olá e perguntei a mais básica pergunta de todas.

― Como vai você?

E ele respondeu:

― Eu não vou. É o tempo que vai.

Sorri e soube, naquele instante, que poetas sabem da vida mais que a maioria de nós.







sólida em líquida





Não tenho muitos amigos. Admito: sou esquiva ao lidar com os outros. Mas não é por prepotência. É apenas uma casca de proteção que o tempo vai moldando em nossa pele e é difícil remover toda esta parte sólida que nos envolve ao correr da idade. Mas apenas percebi o quanto estava me tornando distante e fria quando uma amiga me disse, com toda a pureza da educação, que sentia, em algumas de minhas poucas palavras ditas nos últimos dias, que pareço arrogante e perdida. Foi então que senti a presença do escudo (que é a casca) e que é preciso ser removido aos poucos para que não percamos nossa forma humana de enfrentar os dias. E eu, que estava me tornando sólida, me deixo ser água novamente. E transbordar meus sentimentos a pena que me escreve. E eu tenho amigos que são poucos. Mas valem muito em minha memória. Eu sequer encontrei palavras para agradecer minha amiga pela grande ajuda. Porque não é sempre que alguém consegue nos tirar a venda dos olhos.










6 comentários:

A Escafandrista disse...

Saudades deste espaço de fazer boas leituras. Estou sempre retornando. Bjs.

Isaac Marinho disse...

É sempre bom te ler! =)

Tenha um ótimo fim de semana!

Marcelo R. Rezende disse...

Os poetas entendem da vida como ninguém, mas perceba, são poucos os que conseguem vivê-la com a sobriedade das próprias linhas. A maioria se perde dentro das observações e, incoerentes, morrem perdidos em frente de seus poemas.

Retire a casca, mas com parcimônia.
Amizade é importante, conhecer gente, demais, mas manter-se inteira é responsabilidade nossa, que ninguém nos auxilia.

Beijo, Lê.

Marcantonio disse...

Isso está muito bonito e suave, com rítmo de andante.

Creio que não sou poeta, ao menos não poeta em tempo integral para os outros. Tenho uma espécie de desconversor oracular para mudança de faixas, de aeronauta à pedestre em segundos. Às vezes é como um esbarrão no braço das antigas agulhas para discos de vinil, um ligeiro sobressalto e já estou tocando outra música. Embora tenha passado por situações curiosas em função de andar desapercebido. Como vou? Bem, e você?

Líquidos são miscíveis se têm a mesma natureza. Água se mistura bem com quase tudo, e ainda se distingue das coisas oleosas e viscosas. Em aquarela a tinta flui que é uma beleza, ocupa amplos campos, sendo até preciso aprender a contê-la. Com pedras também se desenha, as calcárias, como um giz de cores pastéis. E são porosas para as águas. Água erode as falésias calcárias. Serão mesmo de matéria calcária as falésias?

olara, um castelo de sonhos disse...

Poetas são sabedores.Vestidos de cascas não sobrevivem e tratam logo do despir. Beijos no coração!

Marcelo Novaes disse...

Letícia,




Um poeta me disse: "As pessoas se afastam dos poetas, porque nós vivemos coisas com outras intensidades". Este poeta era daqueles que, decorridas várias horas de uma pergunta prosaica, parava em meio à rua, mimetizando a postura dos galhos da árvore à sua frente, e me dizia: "Eis a resposta à sua pergunta". Era um poeta dublê de mestre Zen, mas com efeito retardado, sem a prontidão deste último em dar o gesto-resposta no ato mesmo da pergunta. É claro que dele eu me afastei!




Quanto aos amigos, considero amigo aquele para o qual se possa dizer, em qualquer situação limite: "Não posso dormir em minha casa hoje. Posso ficar na sua?". Nunca serão tantos assim, sejamos líquidos, sólidos ou pastosos. E vínculo não se confunde com visgo ["entre em minha casa, desde que prometa dela não mais sair"].



Guarde os amigos onde eles couberem. Inclusive, nesta prodigiosa memória afetiva.





Um beijo, amiga.