23 junho 2012

as mãos de bernardo












Olga, me dê sua mão. Eu ajudo você. Eu não tenho mais idade para isso, Bernardo. Faz muito tempo. Estou cansada. E já viemos de tão longe. Largue de se enxergar velha, Olga. Você está bem. Eu olho para você e vejo a mulher que sempre foi. Forte, decidida, minha fúria para enfrentar os dias. Pare com isso, Bernardo. Eu não sou mais aquela mulher. Eu mudei. Porque o tempo muda as coisas. Eu conheço o que vejo quando me olho no espelho. E vejo uma Olga diferente. Você sabe o quanto mudei. Não suporto mais as brisas fortes, os ventos, a força, a continuidade das coisas. Eu mal me suporto, Bernardo. Você está errada quando diz estar envelhecida, Olga. É apenas uma forma de se ver. Olhe bem suas mãos. Repare em suas unhas. Veja como estão belas assim como sempre estiveram belas suas vértebras, seus belos lábios, sua paz atormentada, Olga. Por que insiste em me levar a fazer coisas que não consigo, Bernardo? Eu não agüento mais o peso de tudo. E não quero que segure minhas mãos porque me sentirei ainda mais velha e desarraigada de minha juventude. Qualquer movimento, Bernardo, me cansa. E minhas pernas não suportam. Minha coluna não enverga mais ao ponto de me fazer mover meus músculos em tantas formas. Eu estou inadequada para isto, Bernardo. Inadequada, Olga? Você jamais estará assim. Ontem você conseguiu alcançar alturas que você dizia não poder mais. E isto não será tanto esforço para nós. Faremos os dois. Unidos. Como sempre estivemos. Quantos anos faz, Bernardo? Para que saber do tempo, Olga? Apenas olhe para mim, segure minhas mãos e eu levo você. Como se fosse uma dança. Um casal em danças. Olga, não chore. Você é tão forte. Vejo explodir dentro de você todas as forças necessárias para continuar vivendo. Pare de chorar esse lamento sem motivos, Olga. Olhe para mim. Isto. Dentro de meus olhos. Você está sorrindo, Olga. Você sorri porque sabe que estou certo. Vamos. Eu estou ao seu lado. Dê-me suas mãos.

E os dois octogenários atravessaram juntos a avenida em contramão.








3 comentários:

Zélia disse...

Dois octogenários atravessando a rua em contramão. Vi um caso assim, aqui mesmo em nossa cidade, há não muito tempo. Qualquer história de amor é linda.

Quanto à mim, hoje, também me sinto "inadequada" para algumas coisas. Assim como algumas coisas são/estão inadequadas para mim... ;)

Cyelle Carmem disse...

Perfeito para declarações de amor!

Eder Asa disse...

Essa já é a quinta tentativa de dizer algo (as outras quatro foram descartadas por serem rasas demais). E alguém já alcançou toda essa profundidade, Letícia?
Você construí personagens como ninguém e provoca sensações que a gente nunca experimenta. É um pecado.

Você é foda. Foda, linda e perfeita. I love you.