08 julho 2012

papo clarice









Por que está tão calada? Silêncio. Só o motor do carro faz ruir o tempo. Não quer falar ou não quer responder? A boca se abre e diz:

─ Não seria a mesma coisa? Falar não é a mesma coisa que responder?

─ Nem sempre. Estou falando e nem por isso estou respondendo.

─ Está sim. Você está respondendo ao meu silêncio.

─ Lá vem você com seu papo clarice.

─ Não é papo clarice. É só minha forma de pensar.

─ É papo clarice sim. Parece que você engoliu a Lispector. Já te disse para dar um tempo nos livros dela. E no Sartre também. Vai acabar louca.

─ Acabar? Como é que pode uma pessoa acabar? É como se fosse filme? Livro? Rua sem saída?

─ Acabar é quando se chega ao fim da vida. Até o ponto que a pessoa é vista pela última vez. Um exemplo: Eu conheço um cara que estudou tanto que acabou maluco. Acabou porque, na última vez que o vi, ele estava andando pela rua cheio de pastas e papéis e falando sozinho. Então este é o fim do cara. Ele acabou assim.

─ Você não me convenceu com esta explicação. Pessoas não acabam.

─ Nem quando morrem?

─ Nem.

─ Então você acredita em vida após a morte? Não sabia que era kardecista.

─ Não sou kardecista. Não sou nada disso. Só acho que a morte não é o fim.

─ E o que vem depois da morte?

─ O velório. E depois o enterro. Funeral. Cremação.

─ Mas você está falando da matéria física. Isto nada tem a ver com alma e essência.

─ Não se acaba quando se morre.

─ Não? E o que acontece?

─ Depois do funeral e do tempo que se passa após a morte, a gente continua existindo através do que se diz ao nosso respeito.

─ Você realmente acha que depois que você morrer as pessoas vão ficar falando de você pra sempre?

─ Para sempre é outra coisa. Não faça confusão. Estou falando que ninguém acaba. Digo que a gente continua.

─ Você fumou um baseado hoje?

─ Não. Parei.

─ Desde quando?

─ Uma semana.

─ Está explicado então. É melhor voltar a fumar. Está ficando meio obtusa.

─ Obtusa? Como assim?

─ Sem explicação.

─ Mas estou cheia de explicações. Estou falando o tempo todo e explicando. Se você não me entende, é outra história.

─ Eu não entendo você?

─ Muitas vezes não.

─ Quando não?

─ Quando acordo e não quero conversar, por exemplo. Quando fico em silêncio pensando. Você sempre acha que o motivo é outro.

─ Não é bem assim. Eu só procuro conversar pra saber se você está bem. É assim que as pessoas são. Elas interagem pra saber se estão bem.

─ Só isso?

─ Só isso o quê?

─ Pessoas interagem somente para saber se estão bem? E quando estão mal?

─ Mas é isto que estou dizendo. Se pergunto a você por que está calada e tal você vai e fala e eu posso deduzir se você está bem ou mal.

─ Acha mesmo que pessoas podem ser caraterizadas por dedução?

─ Acho sim. Eu deduzo o que você sente por suas palavras.
─ Só por palavras? E meu silêncio? Não te diz nada?

─ Muitas vezes não.

─ Então quer que eu fale o tempo todo para saber como estou me sentindo? É isso? E na hora do sexo? Quer que eu fique dizendo tudo que estou sentindo?

─ Veja só como você complica tudo. Não é assim. Não é preciso falar o tempo todo. Mas eu preciso ouvir respostas. Teu silêncio nem sempre me responde.

─ O que meu silêncio te diz então?

─ Eu não sei. Você me atordoa. Entende?

Carro à esquerda. Rua afrente. Orla. Praia e sol.


─ Não entendo. Se o meu silêncio incomoda e também incomoda se eu falar sempre, não sei bem o que você quer. É você quem está causando confusão. Não vê? Se precisa sempre de uma resposta minha para saber se estou bem ou mal, então você não me conhece.

─ Conheço você sim.

─ Quanto?

─ Quanto o quê?

─ Quanto você me conhece?

─ O suficiente.

─ Suficiente para quê?

─ Para mandar você calar a boca porque já não suporto mais suas perguntas. É isso. Cale a boca. Volte ao seu limbo. Fique aí pensando enquanto eu lido com a praticidade e dirijo este carro e levo você à casa da praia.

─ Mas quem disse que quero ir à casa da praia?

─ E não quer?

─ Não.

─ Por que não me disse antes?

─ Porque você não me perguntou. Você apenas entrou no carro e dirigiu e se incomodou com meu silêncio e tomou suas decisões.

─ Você ficou maluca, sabia?

─ Maluca? Por ler Sartre ou por estar com você?

─ Não vou responder.

─ É. Acho então que eu acabei.

─ Como assim "acho que eu acabei"?

─ Fiquei maluca. Não é esta sua opinião.

─ Neste momento é.

─ Então é fim. Porque esta é a última vez que você vai me ver. Guarde bem a imagem. Em sua história, eu acabo maluca. Na minha, você continua. Pena não ter me conhecido melhor.

Desce do carro, mochila nas costas e some na estrada de paisagem amarelada em dia de sol nas encostas da praia.




3 comentários:

Marcelo R. Rezende disse...

Não acho que a gente acabe também. A gente transcende. É isso é o mais lindo no ser humano. Conseguir não acabar. O triste é que a gente morre, mas ai são outras loucuras e outras viagens.

Erica de Paula disse...

" Pessoas não acabam. Nem quando morrem."

Quem não concorda com isso é que é maluco...

Não nos encerramos com a vida. É uma verdade inquestionável.

Lindo mesmo!

Herla Freitas disse...

Amei o fim poético deste relacionamento... Muito sólido e intenso...