14 julho 2012

penélope









Há muito tempo tento lhe escrever. Aqui, sentado à janela, busco acumular palavras rabiscadas em papel e escrever-lhe uma carta. É difícil colocar meus pensamentos e vontades da forma que os desejo lhe dizer. Tudo me vem embaralhado como se minha vida acontecesse toda de uma só vez como um rio que carrega o mundo na cheia. Sei que irá me ler e pensar que continuo inexato e nada prático com as coisas. Talvez eu não tenha mudado mesmo. Mas há novidades, Penélope. Não moro mais no velho apartamento. Agora estou duas ruas acima do antigo prédio azul cobalto. Moro em um prédio mais moderno. Embora sejam apenas quatro cômodos, há espaço. Um banheiro antigo cheio de azulejos que não são mais fabricados. Você adoraria ver. Há também a cozinha que se une à sala e o quarto onde durmo religiosamente solitário. Decorei o lugar da forma como você decoraria se estivesse aqui. Finalmente arranjei uma mesa para minha máquina de escrever e uma estante para os livros. Está tudo organizado. Lembro-me de quando reclamava de minhas bagunças. Sim, eu realmente era muito desorganizado. Agora não sou mais. Há gavetas nas quais organizo papeladas, cartas, documentos, contas pagas. Há também um armário para guardar minhas roupas. É embutido. Veio junto com o apartamento. Não é muito grande, mas ainda há quatro gavetas e prateleiras vazias. Você sabe que não me preocupo muito com estas coisas pequenas de roupas e bobagens. Tenho apenas algumas camisas, um terno e três pares de sapatos que me servem muito bem. Nada tenho a reclamar de minha vida. Trabalho em um escritório de advocacia. Um amigo me ajudou a conseguir este emprego. Redijo documentos e até recebo bem por isto. Posso, com o dinheiro, passear por lugares que antes eu não ousaria. Lembra-se de quando fomos àquele restaurante da Avenida Sul? Você me olhava espantada ao perceber que do cardápio poderíamos apenas escolher entre um cesto de torradas e dois cafés. Passamos fome, Penélope. Eu sei o quanto você sofreu tendo vindo para cá viver com um escritor que acreditava que iria ganhar com a publicação de livros. Isto nunca aconteceu. Você trabalhava em casa de família enquanto eu escrevia ininterruptamente para jornais e revistas que nunca me aceitaram o trabalho. Eu sempre dizia que, um dia, tudo iria melhorar. Você acreditava em mim. Tão bela ao cair da noite, cansada das conduções e do trabalho, ainda fritava ovos para que comêssemos juntos nossas refeições dignas de nosso amor pobrinho. Não era assim? Hoje lembro de tudo e sinto-me culpado por não ter conseguido ir além de meus sonhos tolos. Me dói lembrar de minhas noites na boemia e de seu sofrimento ao me ver chegar em casa amarrotado de mulheres. Eu me arrependo tanto, Penélope. A idade me trouxe uma verdade imensa aos olhos: eu a perdi porque sempre pensei mais em mim ,e, talvez, meu amor fosse imaturo para seguir naquele tempo. Mas os dias ensinam, minha querida. Os dias ensinam. Não me envolvo mais em badernas comunistas, como você costumava chamar. Eu cansei da causa por entender que apenas interesses maliciosos a sustentavam. Hoje sou apolítico. E sou digno. Ninguém mais vira o rosto para mim nas ruas. As pessoas me cumprimentam. Sou um trabalhador e tenho um ofício. Ainda escrevo livros e os publico sem a grande ambição da vaidosa juventude. De saúde, estou bem. Embora tenha adquirido certos problemas respiratórios (o ópio, Penélope, ele me pegou). Mas me cuido. Tomo medicamentos e estou sob controle. Tanto que aqui está a prova. Em suas mãos. Só deus sabe quantas vezes ensaiei esta carta. E por tantos anos. Quantos? Cinco? Doze anos? Apenas dois? Tenho na memória a fotografia do dia em que você partiu. Sequer olhou-me nos olhos e aquilo me feriu porque me senti indigno de seu amor. Você chorava e eu estava atormentado de culpa. E assim tenho vivido durante sua ausência. Ainda há tempo, Penélope? Escrevo para saber se ainda temos tempo para mais uma visita àquele restaurante. Quero que olhe o cardápio e escolha o que quiser. Não precisamos mais nos poupar de viver. Não tenho mais a febre das ruas. Não tenho damas de companhia. Não traio sequer sua imagem de Nossa Senhora da Conceição. Eu fiz um altar para sua imagem. E eu oro todos os dias. Entrei em contato com sua irmã que mora na ilha e assim consegui seu endereço. Sua irmã não quis me falar de você. Eu respeitei a vontade dela. E hoje acordei com esta fome aglutinada de escrever para você e dizer que a quero novamente para que possamos viver o que a juventude de 10 anos atrás me cegou. Eu a quero comigo, Penélope. Eu quero você ao meu lado. Venha viver comigo, Penélope. Não se preocupe com trabalho. Eu tenho meus rendimentos agora. Porém, se acaso tiver seguido com a vida e tenha filhos e marido, desconsidere meu pedido. Pois, se estiver bem e feliz, é o maior sinal de que não a mereço. Mas, acaso esteja livre e ainda tenha por mim o mesmo sentimento, estou pronto, Penélope. Pronto como nunca estive. Sedento e sereno por você. Eu quero você ao meu lado para que as pessoas possam nos cumprimentar juntos, de mãos dadas e em paz com o nosso amor. Estarei esperando. Escreva-me ou simplesmente venha. Eu estou aqui.


Com amor,

Seu.


Semanas depois o remetente fora morto por bala perdida, seu apartamento entregue à família (mãe e dois irmãos) e, à chegada de Penélope à rodoviária, ninguém a esperava. Penélope decidiu ir ao apartamento, uma vizinha a comunicou do ocorrido e Penélope, toda chorosa, retornou a seus quatro filhos e a seu marido bêbado, desempregado e sifilítico.






4 comentários:

Erica de Paula disse...

adoro cartas!

bjos Flor :)

Marcelo R. Rezende disse...

Gosto de cartas pela distância que elas têm da realidade. Nós nunca colocamos em linha o que realmente acontece ou sentimos. Sempre exageramos ou cortamos aquilo que nos envergonha. Na carta, duvido que Penélope tenha ido embora só pela boemia, com esse nome, o remetente deve ter feito algo mais. Confio em Penélopes, são mulheres que, assim como o nome, tem a densidade necessária para a vida.

Mas o remetente também me parece um pouco melhor do que está agora. Temos vergonha de sermos também. Somos modestos com aquilo que não deveríamos. Trabalhar é bom, escrever também. Adoramos dizer que temos paus enormes ou que somos um arraso na cama, mas dizer que trabalhamos e compramos aquilo que necessitamos - ou mesmo o que nos é supérfluo -, nos intimida.

Amei o texto, Letícia, você consegue como ninguém nos envolver, nos domar. Sei lá, a gente se apaixona por tudo o que você escreve.

Beijo do seu fã!

Bruno Oliveira disse...

Acho que o texto flerta com o dramalhão, mas ele é bom, muito bom!

Quanto ao comentário do Marcelo acima: cara, ainda sou a favor duma escrita despudorada!!

Aline Gouveia disse...

Eu sabia que vinha um fim trágico por ai. Esperei ansiosa. :)
Texto excelente Vizinha.

Parabéns