23 julho 2012

relâmpago contraído







ao homem




Procuro deus em cada vão de mim. A desgovernada égua andante segue sem bandos e sem pecados e, acaso os tenha, perdoa-me antecipado. Minha forma de vida é inequívoca e insensata é a fome do querer. Arrependidas mendigam as meninas que me habitam e oram por compaixão. Serei a puta acavalada que sustenta homens ou apenas a simplória que contribui com impostos e aposto que deus virá porque ele existe e está digno de aplausos em cada página de jornal. Há paz onde há deus onde há fé onde nada mais há. Feliz em média estatura caminho entre homens e busco significado entre beijos. Deus está por vir. À porta, tapete e boas vindas. À mesa, vinho e regalias. Ao espírito, vaidade e sangria que estilhaça todas as faces que observo no espelho em que há deus, em que deus me falo, em que deus me cria. E insiste mais a vontade em crer do que a própria crença que simula meu respeito, meu afeto, meu condensado temor. E, ao encontrá-lo, na sala de estar, sujando o piso de casa com seus pés de andar, eu o reverencio pecaminosa em minha casta identidade feminina, nunca corrompida, e deus me serve de alívio ao postular que não tenho culpa da sede que sinto e tudo se deve ao fato de ser de hormônio meu suplício e que a vida me engula por completo e que tudo me venha em excesso porque há fé em meu ato de honrar palavras secretas que ressalvam noites solitárias de ir ao vasto mundo à caça. E algo me ensina que tudo mais que existe, por ordem matemática, não se curva à necessidade de uma prova física. Não é palpável o paladar da palavra, do andor e da desgraça. E ocorre em mim o mesmo que ocorre em ti. A densa vontade, a fome escarlate, a febre que arde. E, ao bruto ressurgir do que nunca é nascido, assombrado de amor em silenciada alma, rubro de tudo, saudoso de nada, enlaçado em revoltas desperta vingativo o deus que há em mim.








2 comentários:

Marcelo R. Rezende disse...

Que denso.
Todos nós somos deuses, não?
E somos tão fracos.
Sei lá! Esse lance de semelhança ainda me crisa.

Beijo, Lê!

Thales disse...

Passar à outrem o que não se pode entender e domar,-e há coisas que não se entende, sente-se - como sempre fazemos, acaba criando variada gama de inquietações. Ainda fico com os pagãos, nos representam melhor... E no mundo nosso tão humano verdade tem a ver com realidade, e esta é de cada um. Cada cabeça, uma sentença...