05 agosto 2012

desfragmentados











falsa lírica



Se não me faz companhia, tenha o requinte de não me fazer solidão. Estou farta de nascer sempre do mesmo lado de minha cama, de meu ventre, de meu assoalho gasto de estrela alguma. E, por alta voltagem, advirto desinibida: não me escreva em poesia. Não use metáforas, não cause alegorias, não castigue mais meus ouvidos com sua falsa lírica. Não me venha em vão.





bélica aversiva



Em francesa atitude declaro uma guerra lúcida e inevitável. Napoleão me arde os olhos de tanta ambição que me perpetua a carne, a alma, toda a razão. Entre votos de escárnio e honras de minha corrupção eu luto e marco o tempo em meu metálico e brutalizado relógio de brotar remendos e cirzo os rasgos nos trajes de meus solitários soldados violentos. Eles sorriem de mau agrado, ferem ao corte da palavra inoxidável e correm aos campos a exterminarem toda criatura cansativa e agradável (que lamenta, que chora, que cora) que se diz aos ventos para ser ouvida em multidão. E a luta percorre dias entre as perdidas plumas que vulgarizam luas e cavalgam os soldados de meus sentidos enquanto eu açoito faminta minhas unhas, meus planos, minha memória doente das vistas. E a promessa permanece intacta, pois há em mim a misericórdia mundana de desejar ainda e, sobretudo, conservar-me adequada, vulgar e humana.








6 comentários:

Zélia disse...

Desfragmentada ou não, estou aqui! A falsa lírica é, para mim, perfeita nestes dias de hoje e, talvez, de sempre. Eu também canso. Já das lutas, eu estou mais para "bandeira branca". Talvez, por cansar (ainda) do mesmo, da falta, do desamor... Porém, minha maior preocupação é (e deve ser) conservar-me, sobretudo, humana.

Love is all! ;)

mariza lourenço disse...

a-m-e-i !

Erica de Paula disse...

adorei os dois, mas o " falsa lírica", me arrebatou! lindíssimo!

Bruno Oliveira disse...

A falsa lírica é o mesmo que um falo ausente?? Se não vai em vão, então preenche, né não?

A bélica aversiva mais parece uma menina apreensiva.

Aprecio este seu estilo. É um desafio semântico, às vezes crônico, na busca incessante de um sentido confortante. Muito bom!

Thales disse...

"Se não me faz companhia, tenha o requinte de não me fazer solidão [...] Não me venha em vão". Gostei demais da conta. Ainda estou pensando nesse texto, tentando entender certo. Admito que as vezes leio e me falta o entendimento. Esses textos são instigantes. Muito massa mesmo!

Marcelo R. Rezende disse...

Temos as duas. Eu você e todo mundo. Nós pegamos muito daquilo que não nos serve, vindo de cada canto torpe e inimaginável. Prestamos atenção demasiada em quem não merece nosso olhar. Eu sou lírica e bélica. E com o gênero trocado, rs.