20 agosto 2012

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Para escrever a respeito do mundo é preciso estar distante do mundo. Não há como vivenciar tudo e ainda tentar explicar. Adoro observar senhoras mendigas encaixotando seus restos no fim da tarde para saírem em busca de um lugar mais acolhedor para dormir. Decerto, se fosse eu uma das senhoras ou se com elas tivesse a chance de conviver, eu não me daria ao trabalho de escrever a respeito delas. Ou de mim. Porque estaria completo o meu desgaste e minha palavra não valeria mais do que os restos encaixotados. É preciso que haja espaço entre isto que chamo arte e aquilo que chamam vida. Eu só falo de amor porque não o tenho. Se acaso eu o tivesse e dele vivesse as vinte e quatro horas de um dia, eu estaria tão saciada da mordomia de um beijo que me calaria. É preciso um vagão que alongue o trem em cada precipício entre os trilhos. Tenho minha mãe ainda viva. Gosto de conversar com minha mãe. No entanto, nunca tive a vontade verdadeiramente honesta de escrever a respeito de sua vida. Haverá o dia em que eu talvez escreva a respeito de minha mãe partida. E não me prendo a explicar o que pretendo com estas palavras. Eu sou o corvo. A negra criatura que busca a carne dos sacrifícios. E apenas sou este corvo porque dele nada sei além da matéria que minha laia observante permite. Porque vivo distante, embora me aninhe entre vigas de pessoas e convivências. Eu nunca estou por completo nos cantos em que estou. Há partes ausentes. Elas me escapam mesmo que eu tente ferozmente prendê-las entre minhas unhas femininas. Não sou poeta de nada. Tampouco serei honrada por escrever enredos felizes. Estou em busca de um parto que me traga um ser vivo e inocente. Escrevo somente o que não posso viver dada minha limitada existência. Por isto leio livros que me contam fatos inéditos. E por isto mais me inquieto ao criar novas histórias. Nunca me satisfaço com o que realmente quero ou espero do que irei dizer. E muito embora minha alma possua a decadência próspera que me faz andar ao lado dos rejuntes sujos e empoeirados e das vísceras que poemas me contam, tenho em mim a leveza pura de uma virgem ornada e faminta a espera de seu único homem.









Um comentário:

Marcelo R. Rezende disse...

Incrível. Eu tenho essa mesma impressão, nós sempre escrevemos bem daquilo que não vivenciamos. Por isso a tristeza é tão bom enredo para os poemas de amor e os maiores críticos sociais são brancos de classe média, muito bem instalados em seus apartamentos. A gente que vivencia o amor, pouco sabe dele, porque tá submerso. E dentro da água, a gente não ouve e pouco se mexe. Assim como a pobreza e a fome dão um ar triste para os protestos, que acabam sendo violentos e um pouco irracionais.

Parabéns, você nos faz pensar, Lê!