12 agosto 2012

receituário azul









Nunca tive pretensões de ser alguém.
Sempre me contentei comigo mesmo.

(Marcelo Rezende)





Sábado. Noite. Conversa comigo porque estou me sentindo um tanto só (com acento agudo na partitura inferior da pélvis). Só penso bobagens. E, para não mudar o rumo de minhas preocupações minúsculas, estou inadequadamente envolvida com alguém que poderia ser o tal, o escarlate, a letra agregada ao pescoço. A igreja católica só me tem feito favores. Desde o início. E a bíblia me ajuda a me entender. Eu faço exatamente aquilo que é considerado impróprio. Você também? Então somos iguais. Conte-me a respeito de sua vida. Café para dois. Iremos nos beijar agora ou depois? Mas por que nos beijaríamos? Sequer nos desejamos. Sequer nos sabemos. Eu sou viciada nisto de querer o que não quero. Você também? Está ficando cada vez mais difícil a vida quando percebo que não sou diferente de ninguém. Eu me sinto tão pijama e chinelo, tão feijão com arroz, tão domingo e macarronada. E olha que já mudei bastante. Mas vamos ao resumo da semana: cama, mesa, banho e mais banho que cama. Estou doméstica. Dona de casa bondosa com mendigos. Assisto a jornais e varro a sujeira da calçada para a casa do vizinho. Estou (novamente) tentando escrever um livro. Personagem feminina que sofre de nada e trabalha e compra roupas e sente inveja e raiva. Uma trama mal calculada fornicada em chic lit. Talvez eu acerte alguém em cheio. Mas também não sei se é este o meu objetivo. Eu não quero mais acertar. Nem errar. Eu só quero entender como algumas pessoas conseguem se sentir tão serenas. Pessoas serenas e calmas e de paz com o mundo. Enquanto a merda nos engole, eu observo o comportamento de toda esta gente. Se um dia eu me tornar serena e calma, saiba: receituário azul. Pois estarei completamente insana. Ou demente. Tentando controlar o corpo ao completo desequilíbrio da mente.








Every Single Night by Fiona Apple on Grooveshark

4 comentários:

Thales disse...

Sabe do que me lembrei ao ler este texto? Da Ana personagem do conto Amor da Clarisse Lispector e do Roquetin da Nausea do Sartre.
"Está ficando cada vez mais difícil a vida quando percebo que não sou diferente de ninguém. Eu me sinto tão pijama e chinelo, tão feijão com arroz, tão domingo e macarronada". Isso é de doer;tá tudo tão massificado, né, tudo tão igual, meio sem sentido, vazio e doido... Eta. Coisas a se pensar... Do caralho esse texto!

Marcelo R. Rezende disse...

Eu tenho precisado do caos pra me sentir bem. Qualquer trama mal resolvida e eu já quero participar, dar pitaco, fazer greve e incendiar alguns carros. Minha vida tem sido tão chata que eu procuro problema. A verdade é que meu ritmo é tão mais acelerado que todo mundo, que eu preciso mexê-los pra ter com o que me distrair.

Sei lá, esse texto me pegou de jeito.

Tania regina Contreiras disse...

Caramba, é verdade, é verdade! E eu ainda creio no céu azul, em tantos céus azuis...antes do receituário.

Beijos,

Luka disse...

Certeiro num ponto que eu não enxergava