15 agosto 2012

três











prematura



Há pessoas que morrem vivas. Não falo da morte física. Digo da morte absurda quando alguém se ausenta aos poucos, às vezes de forma abrupta, de nossos dias. Hora dessas lembrei-me de uma pessoa que me era tão importante e essencial quanto a palavra que escrevo. Era a criatura sem a qual nada mais me valia. Mas perdeu-se de mim. E não posso ser exata ao dizer o momento que percebi este desaparecimento. Esta morte prematura. Sei dizer apenas que nada mais há desta pessoa dentro de mim além da saudade fria de quem observa lápides.




nem gigantes nem formigas



Cultivo rosas porque nada mais tenho a cultivar. O tempo havia, mas passou. A rua desfilava gente, mas agora é atalho. Aviões cortavam nuvens pelo meio. Montes de nuvens espalhadas pelo céu de nossas casas. Havia tudo no mundo. Desde formigas a gigantes trajando ternos. Hoje, nada. Portanto eu cultivo rosas. E meu cultivo é o que existe e para sempre existirá. 




calendário mórbido



Alegra é o nome dela. Éramos íntimos. Hoje, distintos. Tão bela me parece ainda. Mas tão indiferente está Alegra que sutilmente cruza as pernas e sequer me olha. A esperança que carrego é a hora de minha vingança e por ela espero ao dobrar de esquinas. Alegra um dia terá o que merece. E eu poderei enfim sorrir. Esta é a alegria de quem sofre. A espera. O dia após o outro dia. O cálculo de um calendário mórbido que, ao invés de colher a soma desperta, se embriaga em contar as dívidas.










6 comentários:

Bruno Oliveira disse...

Eh, talvez a ausência abrupta seja um tipo de morte, uma morte prematura como você bem diz. Mas eu acho que o ato de lembrar acaba revivendo esse falecido, né não? Pra mim, o esquecimento é o pior tipo de morte que existe. Não lembrar de alguém é atordoante.

Quanto ao cultivar, soou meio apocalíptico, mas ainda assim, esperançoso... Bacana.

Marcelo R. Rezende disse...

Morro todos os dias com as mortes alheias, essas que desaparecem da gente. Por vezes eu agradeço, mas tenho me entristecido. Apesar dos pesares, gosto de gente e o contato me faz bem.


Beijo, Lê!

Tania regina Contreiras disse...

Não sei, penso que esse tipo de morte traz uma anunciação. Algo dentro de nós começa a ter vida. Como se o desaparecido se fundisse com a gente.

Beijos,

Bruno Oliveira disse...

Então, Tânia, é um renascimento? É isso mesmo?? Explique mais sobre esse processo de fundição. Fiquei intrigado.

Flá Costa * disse...

lendo aqui pela primeira vez só consigo pensar: como não cruzei com você antes. palavras fortes, dedicadas e especiais, escolhidas dedo a dedo. adoro e é raro. prematura me ganhou de cara - e me lembrou tanta gente!

beijoca

Thales disse...

Acho que esse trem de vingança, quando vem pra responder a alguma afronta ou rejeição ou coisas afins, é uma grande prova de que a pessoa é fraca e vil, e reforça os motivos do abandono ou seja lá o que for. E é um sentimento tão presente no ser humano, né. Ô bicho besta, esse. E o Nietzsche acertou em cheio ao chamá-lo de "homem do ressentimento". Belos textos...