21 setembro 2012

cria mácula











Eu realmente gostaria de escrever um poema de amor. Talvez eu pudesse suprir minha necessidade de palavras amáveis, gentis, da mais bela forma versadas. Mas me ocorre a consciência. E esta criatura não me permite sonhar. Que dirá o delírio! É ela, a veracidade envenenada em conserva, alimentada por passados tempos falidos, pelas militâncias, pelas madrugadas ébrias, pelo sexo mal dito, pela maconha salivar na boca de tantos, pelos muros dos bairros antigos, pelas alcovas de estranhos, pelas mãos maternas e braços paternos, pela falta de educação e excesso de credos, pelo padre e a batina, a culpa e a cretinice aguda das gerações das quais teci meu rastro, é somente por causa desta cria mácula de meus infernos que padeço mais do que o homem que morre de fome em comércios. Pois não é somente o mal físico que nos mata. A consciência é o genocídio de todos os ideais mais tolos. Por isso não escrevo poema de amor para inflar meu peito de vaidades. Nada mais me arde a não ser o peso de enxergar tudo sob a ótica maior deste demônio destruidor de ingenuidades.










8 comentários:

Sonhadora disse...

maestral, coolmadre!

Marcelo R. Rezende disse...

Lindo, Lê.
Acho que agora entendi o porquê escrevo - tento - tantos poemas de amor: suprir as palavras que não me disseram. Incrível, rs.

Beijo!

Wellen Nery disse...

Uau.

Thales Nascimento disse...

Foda pra caralho! "Mas me ocorre a consciência. E esta criatura não me permite sonhar. Que dirá o delírio! É ela, a veracidade envenenada em conserva..." Consciência, o demônio socrático, esse outro nosso eu, que atormenta, que como dizia Shakespeare, "deixa um homem repleto de embaraços"... e "todo homem que almeja viver bem esforça-se por... viver sem ela..." Mas tem uma coisa: é fácil viver sem ela, basta deixar de pensar... E isso acontece até com os mais inteligentes... Entretanto, creio eu, que, é realmente melhor "ser um Sócrates insatisfeito que um porco satisfeito". É melhor não conseguir "escrever poema de amor"... e " enxergar tudo sob a ótica maior deste demônio destruidor de ingenuidades"... Perfeito!

A Escafandrista disse...

Oi, Lê. Texto forte, hein?

Bruno Oliveira disse...

Interessante esse esporo... O que dizer? Apenas umas coisinhas tolas: o amor deixou de ser ingênuo faz é tempo e o demônio, bem, ele anda domesticado ultimamente. Acho que toda produção estética parte mais duma necessidade intrínseca do que duma simples satisfação aparente. Vaidade é coisa para outrem, coisa que visa exposição e reconhecimento, enquanto a necessidade ou o gosto pela Criação é mais pessoal mesmo, mais voltada pro alívio que a alma inquieta reclama.

Luis Eustáquio Soares disse...

o mal físico, o mal metafísico, o mal
de não poder voar até ti, podendo,
com as asas avulsas destas letras que pulsam no tempo de ontem, no agora da ágora de te rever.
b
l

Cyelle disse...

Presa a uma promessa antiga.
O arrependimento é aceitável.