17 setembro 2012

sabotagem












É costume entre as pessoas colocarem coisas na calçada. Coisas sem uso, velhas, quebradas. Sempre haverá alguém que as queira ou que talvez precise delas. Acordei cedo e levei meu cachorro para passear. Não muito longe. Passeio curto de um lado ao outro da rua. Percebi que havia uma mulher cuja profissão é catar coisas no lixo (Desde garrafas a roupas velhas, latas e papel). E lá estava a mulher no meio do entulho. Ela e seu carrinho de carregar restos. Evitei olhar porque nunca estou pronta para sentir algo que me faça ainda mais humana. Fingi não perceber que a mulher estava vasculhando tudo, remexendo aqueles sacos de lixo cheios de comida passada e coisas muito sujas. É de ferir a consciência de qualquer um. De repente alguém perguntou à mulher: "A senhora quer levar essa cômoda velha?" Eu parei. Era realmente uma cômoda velha. Cinco gavetas e, segundo foi dito à senhora que catava lixo, estava cheia de cupins. Era uma cena de novela da vida real. Sem intervalos. A senhora disse que levaria a cômoda. Percebi o quanto ela ficou feliz ao saber que a cômoda seria dela. Inspecionou o objeto como se estivesse em uma loja a ponto de escolher seu bem mais precioso. Ao menos aquela mulher teria um dia melhor, pensei. E, quando eu caminhava de volta ao portão de casa, percebi que a mulher estava enchendo as gavetas com tudo o que ela havia achado no lixo. Roupas, garrafas e muitas latas. E também montes de papel. Mas não poderia esta mulher se contentar com a cômoda e deixar o resto para trás? Não. Ela precisava levar também o que havia de excesso. Parei para observar tudo. Me senti extremamente indiscreta. Mas eu precisava ver o fim da história. A senhora, após entulhar as gavetas da velha cômoda com muito lixo, pediu ajuda a um homem que passava e os dois ergueram a cômoda para colocar no carrinho. E, naquele esforço todo, a cômoda se partiu. Virou ruína. "Eu disse à senhora que a cômoda estava cheia de cupins e que não aguentaria peso", alguém falou. A senhora suspirou e disse algo que não entendi. Catou as garrafas e todo o lixo que caiu ao romper do móvel, colocou tudo em seu carrinho de sobras e saiu resmungando. Eu fiquei atônita. E perplexa. Me senti extremamente triste. Mas por que a mulher não levou somente a cômoda? Por que ela quis tudo? Por que estamos sempre querendo mais do que podemos carregar? Dei de ombros. A resposta me veio cerrada quando entrei em casa e me senti nauseada ao enfrentar a sala repleta de coisas desnecessárias.








2 comentários:

Marcelo R. Rezende disse...

INCRÍVEL. E é bem isso mesmo, a gente sempre medindo o rabo dos outros e esquecendo que o nosso pode estar enorme, sem a poda necessária.

Parabéns, Lê.

Zélia disse...

Pois é... Tenho problemas com esse "mais". Acho que nunca quis o mais. Só quero o que me cabe. Há quem duvide. Mas, talvez, eu seja de outro planeta mesmo! No caso do mais da senhora catadora de lixo, fico a me perguntar se esse "mais" que ela colocou nas gavetas da cômoda não era, também, o que lhe faltava. Enquanto isso, a calçada do vizinho, em frente a minha casa, tem um fogão, uma tv e restos de um guarda roupas. Mais tarde, será a minha vez de colocar caixas (que não me pertencem) na calçada. Tomara que cada um pegue somente o que lhe couber. Assim, sobrará mais para mais. ;)