09 setembro 2012

varal dos dias











Não tenho mais tempo para ser polida.

(pedra)






Marés



Você está aí? Estou. Que alívio! Pensei que eu estivesse sozinho. Bateu solidão? Não. É drama. Que é diferente de solidão. Entendi. Vamos conversar? Vamos. Você começa. Mas eu não sei como começar. Não sabe? E como veio parar aqui? É a maré. Eu fui trazido pela maré. Sabe quando a gente se deixa levar? É isso. Eu me deixei levar. Se levar pelo quê? Pela maré. Eu já disse. Mas há vários tipos de marés. Qual delas trouxe você? Eu não sabia que havia tantas marés. Mas, já que preciso dizer uma, acho que foi a maré das dúvidas. Por nunca saber, fui levado. E como se sente? Ainda não sei ao certo. Mas isto já é quase saber, não? Não saber ao certo é saber alguma coisa. De onde você tirou isso? Da maré das conclusões. Você foi trazido por ela? Tenho quase certeza que não.





Off Line



Vivemos tempos tão modernos que logo irão mudar as inscrições em lápides e cemitérios. Ao invés de Aqui Jaz ou coisa semelhante, teremos Aqui Off Line Fulano. Partiu pra outra e deixou muita dívida no banco.





Esmalte



No domingo ela morreu. Na segunda cuidamos do funeral. Na terça fui à manicure remover o vermelho das unhas. Na quarta liguei para o hotel que havíamos reservado para nossa viagem à Cabo Frio. Na quinta cancelei as passagens. Na sexta cai num choro descompensado. No sábado evitei o mundo. E muitos dias se passaram e o luto me fez esquecer de alimentar o gato. Não paguei as contas. Não revidei afrontas. Somente no dia em que recebi pelo correio um cartão enviado por ela (um pouco antes de sua morte), percebi que não seria justo me deixar partir também. E, se eu continuasse a renunciar minha vida, sofrendo de forma tão vasta, eu a deixaria morrer duas vezes ou mais. Decidi viver novamente e não me senti como se a estivesse esquecendo. Eu estava apenas continuando do ponto de onde havíamos parado. E até hoje mantenho suas fotos afetuosamente trancafiadas em uma caixa de sapatos.













4 comentários:

Marcelo R. Rezende disse...

Nós normalmente não temos a noção do espaço que ocupamos, tampouco do tempo que temos. Eu perco muito tempo pensando nas coisas e não fazendo nada. Perco tempo e já me disseram que é pior que perder dinheiro. Mas posso nada fazer se é de meu feitio. Né? Mentira, mas o que eu mais faço da vida é pedir que ela me erre.

Beijo, Lê!

Alicia disse...

Letícia, li em voz alta, porque então faz mais sentido.
E porque faz menos sentido, quando em voz alta, mas parece mais apaziguante a falta de sentido do afeto, do literário, da vida, da morte, da palavra e da não-palavra.

Tania regina Contreiras disse...

Uma vida vai (e volta) num fôlego. E te li assim...
Beijos,

Patrícia Coelho disse...

Gostei muito.