22 outubro 2012

monotemático









Se a gente não ama, se a gente não fode, que porra a gente veio fazer nesse mundo? Você tá vivendo uma fase tão boca suja. Não é boca suja. É consequência. Digamos que eu esteja inconsequente das coisas que me acontecem. Ele não tinha o direito de sair assim, depois de tudo que eu fiz. Mas o que você esperava? Uma despedida com banda marcial tocando, uma festa, o quê? Eu não esperava nada específico. Mas queria algo. Só não sei dizer o quê. Então não coloque a culpa no cara. Deixe o tempo cuidar de tudo. Tempo? Que tempo? Essa coisa que faz ponteiro de relógio criar rugas na pele. Conhece? Conheço sim o tempo. Não parece. Você fala como se fosse uma menina estúpida que só enxerga o tempo passado. Olhe mais o futuro. Já faz mais de um mês esse seu drama, Lu. Vem cá. Você anda lendo o quê? Por que pergunta isso? Porque você está parecendo um livro de autoajuda berrando no meu ouvido. Será que você pode ficar do meu lado ao menos dessa vez? Mas eu estou do seu lado. Tudo que digo é pra ajudar. Faz tempo que te vejo vivendo essa merda de relacionamento que não te alimenta. Como assim não me alimenta? Você tá chorando? Sim, estou. Eu choro às vezes. Cara, como você pode ficar chorando por coisas tão sem valor? Você só vive disso? Será que sua vida é só essa merda de querer sentir tudo e não olhar em volta? Sabe há quanto tempo eu tô chorando por causa dele? Não sei. E sinceramente não me importo. Eu não aguento mais. O que sei, de verdade, é que você vive atirando pra todo lado e dizendo que se sente carente. Você sempre trai, Lu. Não é traição. Já te expliquei. Só fiz certas coisas pra manter o clima. Você sabe que não gosto de monotonia, tédio... Eu já disse que não aguento uma boca só. Eu tenho essa porcaria de necessidade de ter sempre alguém mais. Tá vendo? Você é maluca. Se não aguenta uma boca só, deixe o cara ir. Deixe que ele viva essa merda de vida também. Você não tem o direito de pedir coisas que você não pode dar. Você não tem maturidade pra isso, Lu. Você entende? Eu entendo. Mas você não pode falar com tanta autoridade a respeito de algo que não conhece. Porque você nunca tem ninguém. Se não posso falar, por que me ligou? Por que vive me enchendo com essas suas histórias? Eu não ESTOU com ninguém porque quero estar só. É minha escolha. Tá bom. Pode parar com o papo autoajuda porque já tô melhor. Tomei uma porcaria de calmante. Tomou o quê? Já disse. Tomei calmante. Vou apagar e, por deus, não acordo mais. Engraçado isso, sabe? O que é engraçado? Nem em deus você acredita, e agora me vem com esse papo de suicídio. Não falei em suicídio. Não? Se entupindo toda de calmante? Coitadinha. E tem mais. Você queria que ele desse o fora. Você só não tinha coragem de dizer. Você não passa de uma menininha que tem medo de perder. Você é uma criança. Quer saber? Eu não vou ficar sozinha aqui. E não quero mais te ouvir com esse sermão. Eu vou sair. Eu quero alguém essa noite e vou sair por aí e andar até dar de cara. Pra onde você vai? Espera. Não desliga. Não sei. Mas vou. Desculpa te encher. Juro que não faço mais isso. Te amo. Fica bem. Espera. Lu. Não desliga. 

─ Ela vai sair e fazer merda. Eu conheço.

(Confuso, arfante, ele pega as chaves, a carteira e sai).

Que roupa? Que porcaria de roupa? Sou uma menina estúpida? Então farei muitas coisas estúpidas. Ela veste jeans. Fica andando de um lado a outro, zonza, sem saber o que fazer. Eu exagero em tudo. Eu erro em tudo. É tanto chute e murro em porta e parede que se cansa e se deixa cair, ali, no meio da sala. Luana adormece e só acorda com alguém batendo na porta: Abre, Lu. Abre a porta. Sei que você tá em casa. Ainda tonta e exausta de chorar por tudo e por nada, levanta, olho mágico, desnorteada, você? Chorando (mais que antes) ela diz "Me abraça porque tô mal". Porra, que medo de te ver fazendo merda com a tua vida. Eu preciso sair. Eu preciso de alguém. Você sabe. Porra, eu só queria que alguém entendesse. A voz, antes tão rouca ao telefone, agora ali, falando de perto, de forma terna, diz:

─ Eu sei que você precisa de alguém. E eu tô aqui.

Se olham (por alguns segundos) e mergulham em um beijo que os faz sentirem confusos, estranhos, iguais, simétricos em tantos sentidos. Imersos um no outro, sem drama, sem fala, se apressam à cena seguinte. A solidão desaparece dando lugar ao que sempre estivera nítido desde o princípio.





9 comentários:

Francisco. disse...

Lindo. Simplesmente fascinante. Parabéns pelo blog e por todos os textos. E por favor, nunca pare de escrever.

Erica de Paula disse...

"Se a gente não ama, se a gente não fode, que porra a gente veio fazer nesse mundo?"

É bem assim que penso!!
Texto maravilhoso, Flor!

NDORETTO disse...

É.....!!!!!!!!

Gostei da dramaticidade!!!!!

beijos
Neusita

Tania regina Contreiras disse...


No fundo, no fundo, as palavras seriam tão desnecessárias...se a gente apenas escutasse a respiração um do outro, não é? :-)

Senti-me ouvindo o papo na extensão...Bacana.

Beijos,

Marcelo R. Rezende disse...

O texto foi crescendo, crescendo e eu só consegui gritar no final, tamanho o estouro. Essas sensações que só você nos causa, Lê!

Beijo!

Bruno Oliveira disse...

Drama, drama... Me pergunto por que Letícia anda tão dramática ultimamente. Será excesso ou falta de algo?? Deixe de besteiras. Você nem conhece a pequena! Vai ver é xodó ou dor de alguma coisa... Que nada! Nem tudo é uma telenovela esfregada na tua cara. Você é um boboca mesmo.

(...)

Karla disse...

Lembrei de um amigo, com o qual vivo desabafando minhas mágoas por causa de um cara.. Quando ele me pergunta "Oq vc gosta nele?" eu falo falo falo.. Aí ele diz "eu sou igual.."

Eu sei que esse texto vai acontecer com a gente um dia.

Adorei =)

Anônimo disse...

Que ritmo.. o texto prende-nos e parece que o lemos em uma única respiração.

Belos escritos. Parabéns Letícia!!!

Thales Nascimento disse...

Texto massa pra caralho! E muito doido também - no bom sentido de doido; e eu sei que há esse sentido, pelo menos pra mim. Gosto desses conflitos humanos. Mostram que somos tão simples que parecemos complicados... "não gosto de monotonia, tédio... Eu já disse que não aguento uma boca só". Monotonia não combina com monogamia. E o que combina? O amor combina,uai. Mas isto é assunto pra mais conversa... Enfim, texto foda. Parabéns. Ah, não sei por que, mas me lembrei de um poema do Drummond chamado Elegia 1938.