18 outubro 2012

pornográfico gentil











Extraordinary Machine by Fiona Apple on Grooveshark






Hoje fiz sexo. Gozei três vezes. Não. Duas. Aliás, gozei uma vez. Ou terá sido metade de uma gozada? Minhas pernas tremeram, revirei olhos, gemi muito, senti frio na barriga e um tipo de cócega lá embaixo. Tudo sintoma de orgasmo. Então, só posso ter gozado. Tudo bem. Não gozei. Mas pelo menos senti alguma coisa. Já posso dizer às minhas amigas que faço sexo e gozo. Meu Deus, que tipo de mulher me tornei? Vazia feito balão de festa e, ao mesmo tempo, preenchida para homem ver. Uma coisinha bem nutrida. Não era assim que me queriam? Pois bem, estou pronta! Depilei as pernas e o canto. Aliás, cantão. Depilei tudo. Arranque cada pelo deste corpo que nunca me pertenceu. Ordenei à moça da clínica estética que arrancasse tudo. Estou careca (de saber que depilação de nada vale se a armadura não estiver tilintando de tão nova). Por isso eu malho todos os dias da semana: bunda, peito, perna, tudo. E sinto dor nas costas (sempre). Eu não consigo mais me abaixar tanto para posar em tantas direções. Prática estranha é o sexo. Tanto nado para chegar ao nada. Não nego amar dar minhas trepadas. Posso dizer trepada ou será melhor foda? Trepada é tão feio. Pejorativo pornográfico. Mas, desde que resolveram transformar camisinha de vênus em preservativo, fazer amor saiu de moda. Eu digo que trepo. E muito bem. Rebolo, reflexiono, vulgarizo tudo, falo sacanagem, cato o homem da próxima e acabo com o meu. Marquei jantar com cliente. Adoro bancário (advogado, contador, desesperado, de todo jeito e cor). Eles fazem cálculo de tudo (falo dos bancários). Adoram calcular a vida. Arrumam cada palavrinha imbecil como se estivessem empilhando moedinhas. E calculam o gasto em contas e, no primeiro encontro, sempre pagam o jantar. Eu fico feito relógio que dá corda: falo tudo decoradinho. Eu agrado muito. Eu sei elogiar homens. Aprendi tudo na Cláudia. Sempre pensei que tais revistas mentissem naqueles testes. Mas não. É tudo verdade. Eu sempre considerei um monte de bobagens aqueles joguinhos de marcar x. Mas funciona. Vai ver os homens se tornaram fáceis de enganar. Ou talvez eles tenham aprendido a se deixarem enganar. Vai ver eu esteja me enganando. Talvez eu não saiba elogiar tão bem assim. Talvez eu precise malhar mais os glúteos. Talvez eu precise de um terapeuta. Eu não aguento mais fingir. Gozei nada. Talvez eu não seja toda esta amostra grátis de sexo libertino e pernas abertas que exibo em minha foto de perfil.

10 comentários:

Marcelo R. Rezende disse...

Que texto delicioso. Me diverti do começo ao fim. Como estamos caricatos, rs.

Beijo, Lê!

Antonio Siqueira disse...

Existe pornografia gentil?
Existe 'meia gozada'?
O sexo existe? O.o

Leandro Neres disse...

Bancários? rs
bjs, Let!

Bruno Oliveira disse...

Ah, e mais uma vez o Nada consegue transformar uma mulher... Aprecio essas mutações diante de algo inusitado, de algo que marca definitivamente uma personagem. Até um não-gozo é gatilho pra uma auto-reflexão. Um bocadinho de prosa é sempre muito bom! Gostei.

Tania regina Contreiras disse...

Muito bom, Letícia! :-) Humor e ironia, numa mistura gostosa.
Beijos,

Daniela Delias disse...

Demais!

bj, bj

RB Côvo disse...

Muito legal.

Anônimo disse...

E quem disse que isto é pornografia???? Questão de olhar a olhar.

Parabéns Letícia!!!

Tamires disse...

Muito bom! Parabéns!

Bruna Rafaella disse...

Ohh tão prazeriso ler!
Parabéns!
Uma delícia!