14 outubro 2012

posta-restante










Certa vez me perguntaram:

Mas você escreve aquelas coisas tristes feito a Clarice Lispector?

Nunca calei a boca com tanta força de vontade. 
Na maioria das vezes falo e me defendo e faço guerra. 
Mas, neste dia, sorri e sai e fim de papo.








Futuros amantes by Chico Buarque on Grooveshark








Esperar é um verbo impaciente. Transitivo ambivalente. Fora de minhas gestações. Acordei de sobressalto. Eram quase cinco da manhã. Esquentei leite e preparei café. Ainda era muito cedo para ouvir música. Eu não queria ouvir som algum além dos leves passos de meus chinelos azuis. Acendi um cigarro para pensar. Esta é a desculpa. Nunca digo fumar por vício. Eu fumo para pensar. E pensar me custará muito caro. Com os anos irei saber. Abri a porta e tudo estava em silêncio nas ruas. Ouvi apenas o tilintar da corrente da bicicleta do guarda noturno. Pensei em molhar as plantas e talvez me sentir mais competente por acordar cedo e fazer algo em benefício do outro. Que fosse pela planta, pelo meio ambiente, mas nada que fosse apenas por mim. Pude sentir o egoísmo de minhas palavras da noite passada. O egoísmo de fugir da realidade cogitando culpa no outro quando não há culpado algum. O vaso trincou, o amor acabou e ele me olhou nos olhos (bem abertos) e disse que iria embora. Eu jamais pensei que ele chegaria a fazer algo tão corajoso. Me largar representava um ato de bravura, porque, com esta minha cabeça de achar que sou a única, não reparo que há melhores atrativos no mundo. Sou única em nada. E este gosto de se saber não única pode levar alguém à loucura. Por isso acordei tão cedo. Sozinha na cama de casal coberta com lençol bordado. Para quê tanto teatro nesta vida se tudo é apenas isto: dia, tarde, noite e muitas rupturas? Lembrei-me da conversa que tive com uma amiga. Ela está triste. Está sozinha há tanto tempo que não sabe mais se consegue dividir um cômodo nem que seja com um amigo. Ela me disse sentir falta de amor. E também falamos a respeito da ausência de homens que queiram se relacionar. Não há homens, ela me disse. Estamos perdidas em meio a tantos gays em nossos ciclos sociais. Se ao menos as proporções fossem iguais. Mas há tantas mulheres em busca de alguém. Sorrimos exagerando a respeito dos gays e não há como não parecer homofóbica ao dizer que todo mundo resolveu sair do armário. Ainda não entendo este termo: sair do armário. Mas entendo a sensação de estar em um mundo em que tudo é satisfação sexual e mais nada. Será que é só isto mesmo? Aperto o cigarro entre os dedos e me lembro da imagem dele saindo pelo portão. Eu não me despedi. Não era fim de novela. Era vida séria e de verdade. Vida que dá calos nos pés. Ele foi embora, irá entrar em contato apenas por questões financeiras e papéis a preencher e eu agora tenho que lidar com a realidade: Não sou única. É um gosto amargo este. O cigarro está acabando e penso no fim de linha. O dia está mais claro e sinto a angústia de quem não possui mais do que aquele instante de vida. O ar de meus pulmões está sufocado por este tempo de partida. Eu não o amava mais. Há tempos. Mas faço drama porque preciso de um motivo, uma paixão, algum indício de que ainda existo. Decidi molhar as plantas. Nada mais poderia ser feito. Piso forte com meus chinelos azuis e dou água às plantas. Se depender de mim, o meio ambiente sairá ileso nesta caça de todos contra todos, pouco amor e todo sexo, e tantos armários escancaradamente abertos.

Um comentário:

Erica Gaião disse...

Só pra dizer que amei...

Abraços,