10 novembro 2012

insone esfomeada









Abro o livro e calo meu verbo. Ele se vira na cama. Cobre o corpo como se fosse inverno enquanto o calendário anuncia primavera. Olhe! Uma borboleta pousou em meu braço. Ele diz com a voz embargada que não barganha: Durma! E apague a luminária. Não obedeço. Continuo lendo e sigo com os olhos que precisam ver o voo da pequena borboleta que ainda é criança. Sinto a ânsia de me atrever. Inclino a cabeça para observar seu corpo. Ele dorme. Ergo as cobertas porque preciso descobrir o que elas escondem. Estou cautelosa e rítmica e percebo que o corpo adormecido reconhece minha presença. Insone esfomeada. Eu me altero. Preciso sentir em minha boca o arpão que atravessa peixes. Eu o coloco entre as mãos. O homem suspira em um sono que é leve (seu corpo está desperto). Estou despida e não me distraio. Ouço tiros a duas quadras. Mas a cena está fechada entre nós dois que desejamos iguais. Ele está em meus lábios. Pulsa e se ergue. Engulo o cerne em cheio. Sento ao seu lado e abre os olhos o anjo que é perverso sorrindo e dizendo que conhece meus ataques. Sentimos a mesma fome ou será diferente em cada um? Não quero interrogar. Ouvimos mais tiros. Em um segundo ou dois a madrugada se torna o silêncio de nossa respiração e logo ele está dentro de mim: afoito, translúcido, único. E já não há mais sono. Ele me coloca sobre seu corpo e agora me desfaço em movimentos que não são lentos e que são tão velozes. O arpão está lançado aos peixes. Eu me abro feito livro, asas, janelas de casas. Sou a mulher descansada e trêmula e não nos importamos com mais nada. Sou abraçada, permaneço calada e a luminária que não está apagada nos faz pensar que talvez estejamos em Paris.










7 comentários:

A Escafandrista disse...

Gosto da descrição de cada pequena coisa, das figuras de linguagem e da sonoridade no texto. Bjs.

Bruno Oliveira disse...

Os tiros ao longe parecem indicar o gatilho que desencadeia a ação carnal, é o estalo da(s) mente(s) maliciosa(s). Mas, talvez, seja outra coisa, talvez seja o eco da consciência persistente, que, mesmo ignorada pela fome instintiva, tenta alertar os amantes do risco eminente; o perigo não está a duas quadras do quarto, o perigo está na inconsequência do desejo. Gostei.

Thales Nascimento disse...

Gostei. Ficou pornográfico. Massa!

Camilla Tebet disse...

As fomes são diferentes. Mas as borboletas continuam, anunciadas.

Zélia disse...

Como disse eu mesma: O sopro a poeira tira. 8)

E com certeza. Paris, Veneza, Madagascar ou Bali. E quem disse que sexo dá sono, mentiu.

Tamires disse...

Nossaaaaaaaaaaaaaa!!!!!! Ameeeeeei!!!! Muito boooooom!!

Ianê Mello disse...

Belo conto! Sensual sem cair na vulgaridade.
Voltarei mais vezes por aqui.
Abraço.