30 janeiro 2012

um dia para fernando










Hoje encontrarei Fernando. Preciso estar bem. Preciso demonstrar que estou bem. Afinal de contas, já não nos vemos há 12 anos. Tanto tempo... Fiquei tão eufórico quando soube que Fernando está na cidade. Recebi do porteiro o bilhete de Fernando. Dizia: Olá. Estou em São Paulo. Gostaria de vê-lo. Encontre-me no lugar onde costumávamos ir. Tenho certeza de que irá se lembrar. Carinhosamente, Fernando. Tentei não sorrir quando li o bilhete. O porteiro me olhava enquanto eu já estava sorrindo. Trêmula, minha boca soltou um pequeno som de alegria e triunfo. Eu sempre soube que Fernando voltaria um dia e, mesmo que eu não queira, sinto um doce gosto de vingança ao pensar que Fernando talvez esteja ansioso por me ver. Talvez ele esteja se arrumando, se perfumando, decorando frases tolas para me dizer. São muitos anos de distância. Eu nunca o procurei. Aliás, não o procurei mais desde que ele me pareceu bem enfático ao dizer: "minha vida agora é outra. Não preciso mais de você". Sofri muito quando Fernando me deixou. Passei dias sem comer, sem querer receber visitas e faltei tanto no trabalho que perdi o emprego. Eu não culpo Fernando. Eu fui irresponsável comigo mesmo. Fiquei desempregado, minha família se afastou de mim após minha tentativa de suicídio, e meus amigos não suportaram minhas freqüentes conversas a respeito de Fernando. Todos fugiram de mim. Fiquei sozinho. Talvez eu deva agradecê-lo por tudo, porque, de certa forma, ele me ensinou a viver e a aceitar minha solidão durante todos estes anos. Irei agradecer. Fernando irá tentar me persuadir com suas palavras doces que tanto me encantavam. E irá me olhar com seus olhos de arrependimento. Ele ainda deve estar bonito. Um pouco mais velho, mas ainda bonito. Farei a barba. E vestirei um terno. Terno é muito formal. Vestirei minha camisa listrada e assim parecerei mais magro. E calças pretas. Jeans é muito vulgar. E irei de sapatos. Usarei minhas melhores meias. Onde estão minhas meias? Faz tanto tempo que já não lembro como Fernando preferia o meu corpo. Mas lembro que ele adorava quando eu vestia jeans e camiseta branca. E ele adorava me ver de tênis. Está decidido. Jeans, camiseta branca, tênis e meias brancas. Fernando me fez sofrer e, por isso, é preciso que ele me veja bem. Estou bem, direi a Fernando. Vou sorrir e mostrar meus dentes amarelados de tantos cigarros fumados. Preciso me policiar e não sorrir escancarado. Sorrirei fechado. Da forma como ele gostava. Roupa de baixo? Mas o que deu em mim? Não posso esquecer que Fernando sempre preferiu me ver em tons mais claros. Cueca branca. Estarei como Fernando sempre me quis. Vestido para ele. Ah, como estou cheio de saudade. Como deverá estar Fernando? Embora tenhamos ficado distantes por tanto tempo, sempre arrumei formas de ficar sabendo de sua vida. Sei que ele teve um longo relacionamento com um médico. E sei que morou em Veneza. Sei também que conseguiu o emprego que tanto buscava. Fernando é jornalista. Ele sempre foi bom com as palavras, com suas falas, com suas mentiras. Ficamos juntos por dois anos e aprendi a lidar com as mentiras de Fernando. Eu simplesmente fingia que elas não me feriam. Eu o amava demais para julgar. Eu precisava tanto de Fernando que nada mais me importava. Era somente Fernando que comandava minha vida. E, depois de nossa separação, nunca mais consegui me envolver. Tive dois ou três relacionamentos. Todos forçados por minha necessidade de não me sentir só. Mas de nada serviram. Eu sempre enxergava tantos defeitos em todos que não suportava mais de 15 dias na companhia de quem quer que fosse. Passei a encontrar pessoas apenas por uma noite. Nunca telefonei de volta. Nunca quis me envolver. Fernando ainda era o único com quem eu passaria todos os dias de minha vida. Mesmo tendo sofrido, eu o aceitarei de volta. Embora o bilhete deixado na portaria tenha me parecido um tanto frio, sei o que Fernando espera de mim. Ele já deve ter decorado suas desculpas. Dirá que sentiu minha falta por todos estes anos. E dirá que estou lindo com meus cabelos grisalhos. E vai adorar me ver vestido da forma como ele sempre exigia. Ah, Fernando, não é preciso que diga muito. Basta um sorriso seu, um pedido de perdão, e eu darei tudo que tenho por você. Todo o meu sentimento. Mas o que estou dizendo? Como posso me entregar tão facilmente a um homem que me fez de tolo, que me fez sentir usado, que tanto esnobou de minha dor? Fernando, não pense que será tão fácil reconstruir tudo assim, num piscar de olhos. Não pense que me entregarei sem antes dizer tudo pelo que passei em sua ausência. Eu direi.

Após perfumado e barbeado o homem sai de casa, pega um táxi e se dirige ao local marcado. Como eu poderia esquecer nosso lugar favorito em São Paulo? Desce do táxi, sequer pega o troco, caminha disfarçando sua excitação por saber que, em alguns minutos, estaria diante de Fernando.

Não queria fazer planos. Mas já estava tudo perfeitamente idealizado: palavras, perdão e um beijo de reconciliação. Ao entrar no café, fora recebido por uma elegante garçonete que o encaminhou para uma parte mais isolada do ambiente. Sim, eu lembro. Era aqui que costumávamos ficar. Estava feliz. Estava fora de si. Estava a ponto de amar Fernando cada vez mais. Entrou no segundo ambiente do café e sentou-se. Pediu um expresso. Passou a ler e reler o bilhete deixado com o porteiro. Carinhosamente, Fernando. Fora servido seu expresso, estava submerso em lembranças, sorveu o café decorando o que diria a Fernando. E falava em voz alta. Foi então que percebeu outras vozes ao seu redor. Todas as mesas estavam ocupadas. Estranhou. Eram homens e todos seguravam um bilhete azul entre as mãos. Bilhete da mesma cor que também havia recebido. E estavam todos vestidos da mesma forma. Jeans, camiseta branca e calçavam tênis. Alguns grisalhos e outros ainda muito jovens. E estavam todos com o mesmo sorriso débil de esperança. Aproximou-se de um rapaz jovem que olhava o bilhete extasiado e disse: ― Desculpe interrompê-lo, mas você se incomoda que eu lhe pergunte o que há no bilhete? O rapaz sorriu e entregou o bilhete nas mãos do homem que, aterrorizado, sentiu-se enganado, sentiu-se terrivelmente idiota, usado mais uma vez. Sentiu-se cômico, derrotado, um objeto sem valor algum ao ler uma cópia do bilhete que tanto o fez sonhar desde a hora em que o porteiro lhe havia entregado. Quase chorou. Respirou fundo e saiu perambulando feito louco tomando das mãos de todos aqueles homens seus bilhetes azulados e isto causou tamanha confusão no lugar que fora preciso que seguranças o retirassem dali. O homem estava desequilibrado. Dois homens grandes o tomaram pelos braços e o levaram para fora enquanto ele apenas dizia que não era justo e que ele não merecia ser tratado daquela forma. Chorava. E, ao ser levado à calçada, deu de cara com Fernando. Magro, em cadeira de rodas, e levado por uma enfermeira. Fernando estava sem cabelos, olhos fundos, pálido, e respirava por um tubo de oxigênio. O homem parou atônito. Perguntou à enfermeira o que havia com ele e ela respondeu friamente: "câncer. Não há mais o que se fazer". O homem olhou Fernando nos olhos, pensou em dizer algo, mas um sorriso abriu sua cara e deixou a mostra seus dentes amarelados. O homem sorria. Acendeu um cigarro e sentiu-se completo porque, finalmente, encontrara Fernando e agiu como age qualquer amante abandonado, rindo da desgraça e desejando ver o outro à beira da morte, incapaz e triste.

Rasgou o bilhete ainda na calçada do café e, pela primeira vez em 12 anos, sentiu-se imensamente livre.








Image by Anastasia

25 janeiro 2012

à flor de celofane











Escrevendo à língua dos poetas

Tão old fashioned. Me fez chorar

Vestida feito senhora

Lendo José de Alencar

Por que não dizer amo você

E caminhar pelo parque?

Um dia dormindo, outro existindo

E colhendo roupas do varal

Esperar filme começar

E xeque-mate do destino:

Dois de nós consumidos

Por dicionários, passados

E livros










Brando e pardo vértice do querer. Clássica fobia de meus dias. Teimo em animar-te. Teimo em queimar-te. Teimo em cercar-te, ser lácteo e dissoluto. Sofro anônimo e sofro em busca de ti, flavo almo que me faz flabelar cânticos. És vênus celeste dos assírios e árabes. És bernadices de minhas oradas. Lacrimejar e fazer artesanato do que me resta é o que me resta. Vivo de minha plangência. Desbartar tuas fonas, tuas ancas, caminho de minhas auras. Abstenho horas. Vivo de inarmonia e clades de tanto sonhar-te império frêmito, doce vorá. Almo amor que não me faz remir. Balsâmica dor em formas, és premoção dos mais altos anjos e me transforma em élates de toda a força. Não comparto consistórios. Sem vestes de meu tom eclesiástico. Não colho sedução entre vultos. Sou tua fauce em voz maior. Amo absolvido. Amo em tinir em ti, ápiro ser das colinas submersas. Amor antino. Amor veraz. Amor dos algarismos que surgem, desarrazoadamente em mim, escolástico em messe. Revés de mim e meu sorriso comovido de meus visos. Altero discrepâncias para fazer de ti cruvianas do meu elaborar. Vorá, verás que venho do absinto e conjuro em meus átomos. Sou de ti, Vorá de mim.











Image by Rovi-Jesher

22 janeiro 2012

decora o roteiro














Luz dos Olhos by Cássia Eller on Grooveshark









Acontece que aconteceu. E agora Inês é morta. E nós estamos vivos. E eu me encolho toda ao lembrar que não passaria de mais um dia comum se você não tivesse se metido a vir, com sua cara de perdido, amigo, soldado ferido, me visitar. Foi engraçado aquele dia. Conversamos muito até vir a noite e bater vontade de catar o mundo. Você me convidou para sair e disse que a noite seria só de nós dois. Saímos com vontade de beber. Beber e conversar. E veio riso, conversa, vinho que tirava roupa da alma e fomos para outro bar. Você, sempre com seu ar de produto fora de alcance, prateleira mais alta da estante, me olhava surpreso. Ria muito. E eu também. Lembro que nos sentamos de cara, um pro outro. Mesa perto da saída de emergência. Você disse que achava lindo algo em mim. Não retribui elogio. Escapei. Havia placas no lugar. Plaquinhas do tipo conselho avant-garde. Decidi anotar cada frase. Compartilhamos cigarro pelo estreito vão entre as vigas de madeira que cercavam o lugar. Sempre achei que aquele ato, fumar do mesmo trago, foi o início do estrago causado. Era como beijar. E veio mais riso e gente chamando para sentar à mesa e puxar conversar cheia de folga. Eu estava alta de azul e tequila. Você era homem mais que imaginava. Vamos para outro lugar que não quero cara passando a mão em você. E partimos sem companhia. Só nós dois: rindo de medo, frio na barriga, curiosidade em saber o que havia do outro lado do muro que era você, que era eu. Vai me beijar? Minha bravata caiu como luva. E veio beijo longo, completo, boca a boca para nos salvar da solidão. Minha fome era de alguém. A sua era a mesma. Mas já estávamos salvos. Beija outra vez. Agora em público. Duvido que você faça. Fez. Outro beijo. Meio inglês, tímido e educado ao demonstrar afeto. Ri ao ver você com medo de mim. Sou tão indefesa. Mais bebida porque a noite já seguia nos engolindo e a fome aumentava a cada minuto. No carro, o velho amasso desesperado de quem não come há dias. Você me escala, eu engulo você, tira o cinto com pressa, tiro tudo, a luz é forte, vamos para outro lugar. Você dirigia enquanto eu fazia o que não se diz a tantos. Chegamos. Tontos de loucura nós caímos na cama. Corpo meu no corpo seu, algumas ordens para coordenar movimentos, o clima, a fome, à beira do abismo. Mãos na cintura, eu obedeço, mãos no cabelo, eu faço por merecer o que recebo (de você). Mais e sempre a força dentro de mim. Medo e força e olhos fechados para não me ver porque era realmente uma mulher que você comia, que você invadia, que você amava. E chegamos juntos ao extremo. Tombamos na cama. Lembro do cigarro, do trago, da conversa, do silêncio no quarto, da música, um poema dito, mais beijo, tudo caindo no mesmo ritmo, tudo saindo do trilho. E veio dor de cabeça, um adeus esquisito, chá de sumiço e não se fala mais nisso. Sou boa em me calar. A história nem precisava mesmo continuar. Mas eu vou de cara, sem medo, largo na rua meu receio e digo que o seu azar começou faz tempo. Lembra de quando nos conhecemos?










Image by MisOtrasCosas

18 janeiro 2012

trópico explícito (dois)











E além de vós
Não desejo nada.

(Hilda Hilst)






Minha palavra ardida de flora feminina ousa dizer que nunca meus lábios beijaram boca tão pura quando a tua que se tornou rua de minha língua passear. De nosso beijo sem epílogo, sem parcos elogios, insiste a vontade que me faz sentir a casta sensação de beijar de novo o homem que mal conheço e me aborrece o azar de querer conhecer por completo. Quero permanecer anônima aos teus discernimentos, aos teus orgulhos, aos teus meros aborrecimentos. Nada quero saber da tua rotina, do teu dia, da tua vida de trabalho e ninharias, de foto de família ou plano feito para vingar. Que nosso vocabulário se permita calar. Calados, colados, moldados pela fome, pelo signo, em nosso trópico explícito, sejamos sempre estranhos em nossos encontros, que nossa cama nunca nos formate atônitos de matrimônio, que a mesa não seja posta, que promessa alguma venha nos encalacrar devotos de um precipício de amar até o fim o que sempre será início. Nada quero saber de teus precários eventos, de teu passado à remendo, de tuas linhas futuras em palmas da mão. Quero apenas a língua que transpassa a outra língua e que se cruzam unidas trocando saliva em nosso cio imperfeito de amar.









Minha palavra fria de fauna masculina ousa dizer que nunca meus lábios beijaram boca tão suja quando a tua que se tornou pia batismal de minha língua se purificar. De nosso beijo de previsível prólogo, sem extenuadas ofensas, desiste o esquecimento que me faz sentir a puta sensação de beijar uma vez que fosse a mulher que conheço melhor que o trajeto do emprego que me sustenta e me aborrece a sorte de já saber de antemão o que jamais desejei ter ideia. Quero permanecer tão exposto quanto alheio às tuas dúvidas, aos teus medos, às tuas várias alegrias. Já sei tudo do teu cotidiano, até da noite, do trabalho e algumas fortunas, algumas fotos sozinha e do amor que não vingou, mas resultou noutro que não há de se acabar. Que nosso alfabeto ao menos se permita soar. Falados, separados, talhados pela saciedade, pelo ceticismo, em nosso típico exercício, sejamos sempre cúmplices nos desencontros, que nossas linhas descruzadas nunca nos separem satisfeitos da distância, que estejam todos os talheres à mesa, que as promessas se precipitem afoitas na agonia tão grande de fazer desnecessário o amor que será para sempre a sobra. Tudo já sei dos teus miraculosos feitos, do teu futuro brilhante, do teu passado de superação a despeito da inevitável dor marcada em calos nas palmas das mãos, ainda que invisíveis na pele, mas sensíveis à alma. Quero apenas a letra que transpassa a frase e que se cruzam unidas trocando versos em nosso poema perfeito de tanto prosear.





(Por Don Mattos)









09 janeiro 2012

monogamia e outras quinquilharias












Como prender em uma redoma uma planta carnívora e ainda esperar que ela sobreviva? Resposta sempre negativa. Nascemos, crescemos, reproduzimos (?) e fim. Esta é a nossa história. Talvez tenha sido assim um dia. Mas hoje, em nosso tempo, nos últimos mil anos ou mais, não vivemos desta forma. Nós queremos o prato cheio e sortido. E, mesmo que provemos todas as iguarias, nada irá nos saciar. Não nos contentamos mais com a sobra de um dia de trabalho e sexo comum 1 + 1 = 2 à luz de um abajur. João conheceu Maria, casaram-se, tiveram dois filhos, João descobriu a beleza da vizinha e Maria se apaixonou pela mulher da padaria. História confusa, não? Talvez seja confusa para uma criança. Mas não para nós, adultos, cheios de fome. Nós sabemos exatamente o que estamos fazendo. Será mesmo que sabemos? Todo mundo trai ou será fator isolado? Traição é algo que só acontece na casa ao lado? O que vejo e presencio e vivencio é uma fome de quem nunca teve na barriga um alimento sequer. É fome de amor, fome de companhia, fome de novidade, fome de alguém que nos diga coisinhas boas de ouvir, novas mãos pelo corpo porque as antigas estão calejadas e já perderam o efeito (Toda tabuada decorada se torna cansativa). O novo é sempre melhor. O outro é mais especial (e maior). E comida de casa não enche barriga. Infringir a lei é nossa atitude favorita. Pensei nisso ao ler uma publicação de uma amiga no facebook. Não pensei duas vezes: curti. É isso que fazemos nos dias de hoje para provarmos que aprovamos. A gente curte. Pensei em monogamia e lembrei de minha mãe chorando ao ler as cartas das amantes de meu pai. Uma mulher de meu tempo não choraria. Ela sairia à caça, ou pediria divórcio ou tentaria, no meio de muitas ameaças e brigas, conviver com a traição. Ninguém mais aguenta ser traído porque traição enche nossa boca de raiva e é preciso revidar. Ninguém mais suporta ficar em casa esperando o amor passar. Nós preferimos ir às ruas. Nunca vi tanta gente à caça quanto tenho visto nos últimos tempos. Eu saio (quase sempre) e vejo os olhos sedentos de todo mundo querendo comer todo mundo. Ontem estive em um bar de minha cidade e, embora avoada de bebida, percebi olhares e revides e disputa. É muita gente querendo gente. No meio de toda a confusão de vozes e música, pessoas se beijavam e depois beijavam outras pessoas e beijavam mais e se engoliam e, queira deus que tenham se comido, porque não há nada pior do que desejar e acabar de mãos vazias. Mas a questão que me faz penar em busca de uma resposta é: O que queremos de verdade? Queremos amor (que nada tem a ver com o sexo)? Queremos afeto (que nada tem a ver com amor)? Ou queremos provar que é de nossa natureza viver abocanhando uns aos outros porque a nossa liberdade nos permite? Que comportamento é este o nosso? Talvez seja tudo fruto da solidão. Talvez seja culpa da igreja católica. Talvez seja questão de tempo. Ou talvez seja pelo simples fato de sermos animais racionais, absurdamente emotivos e carnais, e nos sentimos quase sempre sozinhos mesmo em camas compartilhadas. Casamentos, divórcios e amores à parte, monogamia é questão de escolha: ou você cede e aceita caminhar a dois ou então parte pro mundo e come tudo com as mãos. Entre as duas alternativas, eu escolho a terceira: esta condição que faz de mim uma mulher que beija e acredita que uma noite de orgias não vai resolver nenhum de meus problemas. Porque o tesão passa. A febre um dia se acalma. Solidão sempre haverá mesmo que a gente se doe aos ventos. Eu apenas não quero chegar ao fim de meus dias com uma coleção de fotos de tempos remotos, de beijos falsos e sexo anestesiado de mentira. Sou mulher por outros séculos iludida. Amor de mão única não acontece somente na novela das sete. E, hora ou outra, cada um tem o amor que merece. Ou a solidão que de nós se alimenta e cresce.









Image by ARoulette

07 janeiro 2012

diário de ana b.














Acordei. Cocorocó. Galo chato que não morre. Qual será a expectativa de vida de um galo? Talvez 50 anos. Talvez mais. Nada importa. O galo desperta todo mundo. Piso em falso. Ainda me sinto dormente da noite passada. Quem passou a mão em quem? Será que perdi o que já não tinha? Virgindade é mesmo um milagre. Ninguém vê. E todos dizem que existe.

Oops. Não me apresentei.

Let me introduce myself.

Sou Ana B. Requintada filha da classe média, revoltada sem motivo aparente, brasileira, branca (minha certidão diz que sou parda. O que vem a ser parda?). Quero ser apenas Ana B. Sem sobrenome, sem data, sem muito compromisso e cheia de quinquilharia na cabeça. Sou pano pra manga. E haja truque para tanto tecido.

Ontem saí. Resumo: comi mais que o permitido. Sou de mão única. Porém, quando meu trem sai do trilho, beijo até mendigo. E isto não é preconceito. É manutenção de meu mecanismo. Meus pais são crentes e leem a Bíblia. Não me revolto por causa deles. Tenho fome desde que nasci. Fome de mim a me ver em outros. Por isso como muito e sofro meus pesares de indigestão.

Túlio provou de mim. Aberração aquele cara desbocado se pervertendo em verbos querendo me fazer vingar. Quero não, Túlio. Bebi, mas não enlouqueci. Estou lúcida feito aeronave sobrevoando ares em oceano pacífico. Me deixe. Larguei Túlio na primeira música. Fugi. Sei lá aonde fui parar. Reconheço hematomas de cerca. Pulei cerca que sou ovelha. Porém, não sigo rebanhos. Devo ter rezado missa inteira por alguém. Mas quem?

Telefona toca.

Quem é?

Desculpa. Não gravei seu nome. Cinema. Vou.

Fomos. Estranho ver aquele cara ao meu lado. E, mais estranho, ouvir sua voz falando da noite passada. Senti vergonha de dizer: não lembro de nada. Eu ando avoada, sabe? Entende? Claro que ele não entenderia. Falei nada. Ri debochada (Atriz de novela mexicana fingindo surpresa com ponto no ouvido para não esquecer a fala).

Durante o filme senti vontade de morrer. Me senti enjoada. Da vida, da caça, da vontade de estar em destaque no meio de tanta gente. E aquele cara estranho ao meu lado? Alguém me explica por que me desobedeço tanto? Eu não queria estar aqui. Isso não é fim que eu mereça. Sou Ana B. Mereço fim em Capital Letter e bons créditos por saber viver muito. E, se não me lembro do que vivi, é como se não tivesse vivido.

Depois do cinema, conversa:

Como foi?

Bom.

Se divertiu?

Muito. (menti)

E ontem?

Gostei. (menti)

Você é perfeita, sabia?

Não. Como assim?

Ah, você sabe.

O pior é que eu não sabia. E vou continuar sem saber. Saí do cinema e voltei pra casa. Tão apática minha sinfonia de querer dançar e acabar sem par algum. Deitei em minha cama. Luz do quarto apagada. Dormi e acordei. Será que alguém pode me dizer por onde andei?

(...)


Silêncio.

Meus pais tomam café. Sou Ana B. Classe média. Brasileira parda.

Objetivo:

Que mais posso fazer além de viver?










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02 janeiro 2012

carpideira













Nude by Radiohead on Grooveshark










"ao som das carpideiras que rasgaram fotografias e vidas inteiras".


(Marcelo Novaes)











Dia 1: estaca zero.

Encontro marcado com algum mistério íntimo. Inflado, o ego apóia-se sobre um livro. Murcho, desliga o telefone. Entre o vinho e o beijo de língua, ficou nada. A equação mais desgraçada que já fiz desde os tempos da mísera matemática de escola. Eu tenho tanto a dizer que não cabe na boca tanta palavra. Por isso desertei. Não falo. Estou escondida e tripudio multidões que sorriem gastas de alegria forjada. Eu não sou feliz. Sou algo além de mim e eu não saberia definir o que sinto. Ontem percebi que é inútil fazer canoas. É preciso aprender a nadar. Percebi também que tenho forte trato para com o outro. Às 4 da manhã presenciei acidente de moto. Eu precisava ajudar o próximo. Corri e segurei a mão de um homem que nunca vi em minha vida. Caído, em poça de sangue, o homem se preocupava com tudo: minha carteira, meu celular, eu não tenho habilitação. Eu menti dizendo ser enfermeira. Eu queria deixar um pouco de tranquilidade no ar inóspito da cena. Perguntei o nome. Alguém para quem eu possa ligar? E, de repente, um sorriso. O homem estava bem. Bebida e direção. Sexo sem proteção. HIV nunca vai sair de moda, pensei. Voltei pra casa, café-da-manhã no jardim. Bêbada do mais alegre pileque, eu sorri. Acordei fuzilada por uma ressaca que encara e diz: E aí? Que há de novo? Dormi o dia inteiro. Encolhida feito um caracol, caramujo, lesma. Arrastei-me ao banheiro, tomei o banho mais completo de uma vida inteira, pensei em sexo de forma inflamada e molhei as plantas. Não li jornal, não penso em revelar fotos, não quero mais me esquecer nos braços mortos de alguém. Quero transgredir-me. Há quem pense que transgredir é viver espalhafato, viver desvairado, vestir camisa ao contrário. Tenho dó desses parcos coitados. Transgredir é aguentar-se e só.











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