20 março 2012

hortaliças









Rufem os tambores, senhoras e senhores. A cena é a mesma de anteontem. Ele sai do banheiro equilibrando o peso de seu objeto identificado causador de belos males. Homem pelado é um traste. Olha quanto pêlo. Olha a simetria descombinada. Elvira pensa enquanto o homem caminha em sua direção. Lingerie apropriado para ocasiões, abajur meia luz, palpita o coração e lá está Elvira deitada esperando seu pepino. Mulher templo divino. E começa a jornada. Um-contra-um-igual-a-poucos. Ele deita sobre a mulher que sorri envaidecida. Obrigada, meu deus. Este homem é meu. Elvira se movimenta que é uma beleza. De lado, de cabeça pra baixo, escoando pelo ladrão. Olhe para mim, Elvira. Isso, Elvira, você acertou. Aplausos para Elvira que, após tanto treinamento, finalmente conseguiu engolir a melancia. Um sobe e desce, entra e sai e nada de música porque música vicia, Elvira. Gire os quadris, Elvira. Isso. Elvira se arrebenta de raiva quando ouve pronome demonstrativo empregado em tão simples contexto. É demonstrativo ou interjeição a comando de voz? Vamos, amor. Amor? Elvira conspira contra palavra. Desde quando sou amor? Elvira cogita razões e pensa em sua irmã Marília que está com problemas hormonais. Preciso ajudar Marília. Hormônios podem destruir alguém. Marília tem 50 anos e se diz feliz. Marília tem bigode. Eu já aconselhei Marília a fazer depilação a laser. Marília não ouve ninguém. Marília cansativa que adora anunciar seus aumentativos insuportáveis: lindérrima, gostosérrima, chiquérrimo e belíssimo. Eu odeio Marília. Irmã desgraçada. É sempre o mesmo abacaxi. 45 minutos e segue o torneio. Ele acerta a caçapa, mede o peso do taco e se apavora. Ele não pode chegar antes de mim. Respira forte no ouvido de Elvira que já nem sente mais seu corpo. Tanto fogo para pouca palha. De quatro agora, meu bem. Vamos. Rema remador. Elvira lembra de ter esquecido de comprar panos para suas mangas. E agora o homem é bailarino. O que é isso que ele está fazendo? O homem agita o corpo de forma que Elvira não sabe se chora ou se tenta ajudar o marinheiro a retirar a âncora presa ao chão. Uma posição eclética. Homem sábio é aquele que fomenta algo e responde com decisão. Um golpe de esquerda, um de direita, chave de braço, depressa, Elvira, estou quase lá. Lá aonde? Irá o homem descobrir o segredo do universo? Elvira conseguirá abrir as pernas sem rasgar-se feito papel? O homem realmente foi à lua ou terá sido montagem para enganar a população? Elvira está rubra de tão descascada. Uma flor. Esfolada, mal passada e, feminina, consegue arrancar gemidos de seu apicultor. Elvira, tente outra posição. Vamos, Elvira. Não quero ainda, Elvira Amor. Ele está romântico. É uma benção. 57 minutos de vai e vem, esconde e mostra, morde e assopra e Elvira está contente porque, de tão cansada de quebrar a lei da gravidade, decide usar a manobra final. Ela sabe que ele não se manterá firme. Planejada a vencer, ela sabe os caminhos para o precipício. Elvira beija o homem apaixonada, diz tudo falando nada, e cede o corpo acelerado e úmido em sua última tentativa de vitória. E o juiz apita o final da partida, senhoras e senhores. O homem ejaculou feito louco, rosnou feito cachorro e tombou seu corpo ao lado de Elvira. E, dias depois, o mesmo homem arruma as malas e vai embora dizendo que precisa de mais espaço, de mais vida, de alguém que o ajude, de alguém que se mostre mais companheira. Elvira sofre seus lamentos. Chora por alguns dias, ajuda sua irmã com seus problemas hormonais, conhece outro homem na fila do caixa eletrônico, namora fruta vaidosa, se afoba romântica e segue sua rotina cega de chorar pitangas e ninharias em meio às imensas plantações de hortaliças.







Image by TierraL

18 março 2012

às cegas















Big Bird In A Small Cage by Patrick Watson on Grooveshark










Eu me lembro da primeira vez que te vi. Você não me viu. Engraçado, não? Você apenas sorria e era sempre com o violão e a voz e sempre com tantos planos. E eu te ouvi. Você falava muito. E nunca houve nada. Eu apenas te olhava. Aí coisas aconteceram. Você casou, fez família, ficou triste, distante, morreu. Não de morte mesmo. Você se encolheu e sumiu no mundo. E eu fiz a mesma coisa. Que mais uma pessoa pode fazer a não ser perpetuar-se em espécie? É um vício. Depois de um tempo nos vimos. Foi um dia (à noite) em uma calçada. Em uma praia. Você estava sozinho. Lembro de te ouvir dizer que a coisa havia desandado. Pensei: Normal. Tudo tem seu fim. E passou mais tempo e não nos vimos mais. A gente se esconde em tudo. Já reparou? Trabalho, botão e rasgo, beijo na boca que compromete tudo. Depois ouvi falar de você. Havia encontrado outra pessoa e estava pronto para perpetuar-se louco. E você amava que mal olhava ao redor. Pensei: Amor é mesmo um belo esquife. Então você fez novo capítulo e assumiu missa e promessa: o ateu que por deus celebra. E eu continuei vivendo minha vida equilibrada de mulher que não larga o osso. A boa fêmea que respeita a prole. E tudo mais caminhou: trabalho, distância e a velha crença de que amizade é sempre perto (mesmo não dando cara às vistas). Não te visitei em parto, em aniversário, em festa de pouco barato. Eu havia esquecido de te ver. E admito: era chato. E eu vivia também. Tanto que nem sei. E veio de novo um encontro que nem era encontro. A vida vai jogando com a gente. O tempo todo. E você estava sofrendo. Parecia recém-saído de um precipício, enlutado em martírio, um filme na clausura da mesmice. Eu não senti compaixão. Porque, a gente sabe, é tudo feito de começo e fim. Foi apenas mais uma promessa que acabou com os burros n'água: casa mobiliada, prestação paga e cama vazia. Entendo bem. E tudo isso passa. Ouvi dizer que agora você vive seus recreios. E você amadureceu. Ou talvez não. É pai de filhos, vinil em drama antigo e amigo da família. Sempre que nos falamos você sorri e diz que está bem buscando alguma paz. A mentira já perdeu as pernas de tão curta que ficou. E nada vai mudar o enredo porque meti a língua em falso beijo. Na verdade, eu lamento não ter tido a chance de dizer que eu sempre vi você. Antes. Lá no começo. Mas aí eu penso: Vai ver não era para ser dito. Nem vivido. Vai ver era só o meu gosto de princípios. E agora eu conto a história toda porque a vida é sempre nova trajetória. E eu encho a boca com o que tenho. Eu nunca tive receio. Porque eu sempre te vi como te vejo.












Image by MisOtrasCosas

17 março 2012

apache







Sou apache
Cara à tinta guache
Amo alarde
Amor arde?
Amor é tarde?
Acordo para tocar
Com os pés
O chão





Às vezes é preciso largar o vício que se tem de tentar amar todo mundo. Ou ajudar. Ou atender telefonemas. Às vezes é preciso deixar o telefone tocar. E ficar em silêncio. Às vezes é preciso ser um pouco mais honesto consigo mesmo e admitir: eu não consigo. Talvez venha em doses uma sensação de fracasso. Mas é bem melhor o fracasso a pensar que se está sendo falso. Estou me tornando muito honesta comigo mesma. E me dói. Muito. Sempre que me nego a fazer algo que, tempos atrás, eu faria sem a menor garantia de proteção, é como se algo estivesse se partindo. É como se eu tivesse vivido por muito tempo vestida em falsa indumentária. E de repente você se vê de uma forma nunca vista antes e se pergunta: Será que sou mesmo assim? Será que sou esta pessoa que assume falhas, que assina dívidas, que se recolhe feito formiga porque sabe é preciso se recolher em dada estação? Quando ocorreu esta mudança? Quando me tornei outro? São muitas perguntas. Digo até que já me fiz tantas perguntas que minhas dúvidas se tornaram imensas. Agora estou muito racional (embora não aparente). Mas estou. E eu preciso saber que estar racional não vai tirar de mim a tez humana. Sempre achei que pessoas racionais fossem frias. E, logo, não humanas. Mas eu estive errada por tanto tempo. É a razão que me permite ser mais humana. É a pergunta que me permite acertar ou não querer errar de novo. É o questionamento que me faz entender coisas que ainda não entendo. E a razão me fez ver que não posso carregar o mundo inteiro. Até mesmo porque o mundo inteiro é muita gente e eu não posso ouvir tantas vozes assim. Olhe bem para mim: Sou pequena. Meus braços são pequenos. Eu aceito os olhos grandes. Então eu me admito pequena e hoje estou consciente: quero apenas molhar as plantas, olhar minha cria e entender que às vezes é preciso descer do pé de laranja lima.



Autoajuda?
Eu não me atreveria.










Image by radina

08 março 2012

monólogo explícito









Why is it, when I am in Rome,
I'd give an eye to be at home,
But when on native earth I be,
My soul is sick for Italy?

And why with you, my love, my lord,
Am I spectacularly bored,
Yet do you up and leave me - then
I scream to have you back again?


(Dorothy Parker)






Eu quero que você vá embora. A frase surgiu do nada. Saltou da língua. Quando percebi eu já havia dito. Dei um bom trago no cigarro e depois o larguei no cinzeiro. Cinzeiro bonito feito de mosaico. Pequenas pedrinhas de vidro. Bonito este cinzeiro. E eu quero que você vá embora. Não, não importa a hora. Eu sei que são duas da manhã. Mas eu quero que você vá embora. Só isso. Pegue aquela mala. A mala verde. Aquela que usamos em nossa viagem à Petrópolis. Sim, aquela mala. Coloque suas roupas dentro. Coloque suas coisas dentro da mala. Eu quero que você vá embora. Não, isso não tem nada a ver. Não há nenhuma problemática a mais. Não, também não tô partindo pra loucura. Eu só quero que você vá embora. Claro que eu sei que é muito tarde. Mas há táxis. As ruas estão cheias de táxis. Ou então você pode ir andando. Ah, não me importo pra onde você vai nem como vai, entendeu? Eu só quero que você vá embora. Estou me repetindo? Não, eu não vou gritar, nem estou fazendo alarde. Eu só estou dizendo claramente que eu quero que você vá embora. Ah, porque com você aqui dentro, de cá pra lá, pra cima pra baixo, andando aqui, existindo, eu não aguento mais. Eu não suporto. Tudo é muito pra mim. Não, eu não tô falando em falta de amor. Amor e paixão não tem nada a ver com isso. Ainda existe amor, existe paixão, existe tudo. Mas eu quero que você vá embora. Eu quero ter a chance de sentir outra coisa além de amor e paixão. O quê? O que eu poderia sentir além de amor e paixão? Você realmente acha que é só isso que deve haver entre duas pessoas? Coloque suas coisas dentro da mala verde. Ah, eu vou deixar a mala aberta em cima da cama. Você vai até o quarto, abre o guarda-roupa, abre suas gavetas e vai jogando tudo dentro da mala. Se quiser pode levar alguns cds, alguns livros seus, essas coisas, coisas pequenas. Mas, como sei que não vai caber tudo na mala, então você pode pegar a mala maior. Pode usar as malas todas. Eu não vou mesmo usar as malas. Você pode usar todas. Eu vou colocar todas elas em cima da cama e você vai lá, coloca suas roupas, tá? Começa pelas camisas, tudo em degrade. Coloca assim tudo organizadinho pra você não ficar perdido quando chegar a algum outro lugar. Coloque tudo em degrade, coloque as meias, seja organizado. Não, não esqueça nada. Leve tudo. Por que estou com pressa? Não, não é pressa. Eu já venho pensando nisso desde ontem, desde anteontem. Aliás, eu já tô pensando nisso desde o dia em que você veio morar aqui. Desde a primeira noite em que a gente dividiu essa cama. Eu sempre pensei em dizer pra você ir embora. E agora estou dizendo que eu quero que você vá embora. E eu vou ficar repetindo isso a noite toda. Se você quiser levar a sério ou não, o problema é seu. Mas a minha vontade ainda vai existir. Amanhã, se você ainda estiver aqui, e acordar e olhar pra minha cara, você vai saber que eu quero que você vá embora. Claro que você pode levar a toalha. Ela tá molhada, mas pode colocar dentro da mala. Ela não vai mofar suas roupas. Você nem vai pra um lugar tão longe assim. Vá pra um hotel qualquer, ligue pra um amigo e fique na casa de alguém. Não precisa fazer drama. É só ir embora. E nem precisa olhar pra trás. Mas é claro que te amo, sinto paixão, tudo, até explodir. Morro de paixão por você. Uma maluquice enorme. Mas não é só isso. O que mais deve haver? Não, não existe nenhuma fórmula, não existe nada específico. Eu só quero que você vá embora. Coloque todas as suas coisas dentro da mala verde e depois você usa aquela mala verde maior, coloca um cadeado pra não perder suas coisas por aí e não precisa viajar pra longe. Mas, se você quiser ir pra longe, tudo bem. Você pode ir. Você tem dinheiro. Saque o dinheiro no caixa eletrônico. Sim, há caixa eletrônico funcionando a esta hora. Principalmente em aeroporto. Você acha que não tem? Tá, então fica até de manhã esperando em algum lugar e depois saque o dinheiro e vá embora. Eu não tô falando em amor. Eu não tô falando em paixão. Você me satisfaz muito. Você me satisfaz em tudo. Você caminha pela casa, eu fico olhando seu corpo, sempre admirei você, tenho o maior orgulho de você. Olha, você é imenso e perfeito e gigantesco. Você é o motivo, sabe? O motivo que eu tenho pra respirar dia após dia. Eu trabalho pensando em você, eu bebo pensando em você, eu faço muitas coisas pensando em você. Eu tô o tempo todo pensando em você. E, pra completar, eu tô o tempo todo com você. E é isso que está me incomodando. Eu estou o tempo todo com você. Eu amo você o tempo todo, eu sinto paixão o tempo todo, a gente sente esse amor o tempo todo, e deita na cama e se beija e faz tudo. Mas eu só quero dizer uma coisa. Eu quero que você me entenda. Eu quero que você vá embora porque eu quero outra coisa. Eu quero ter a chance de sentir falta de você. Eu não sinto falta de você. Eu não sinto saudade, sabe? É esta a palavra que tô buscando: saudade. Eu não sinto saudade. Eu quero sentir saudade. Eu quero olhar as coisas que você tocou aqui em casa, eu quero saber que você tocou naquele porta-retrato, naquele livro, eu quero saber que você fumou e jogou as cinzas do seu cigarro naquele cinzeiro, eu quero olhar o banheiro e saber que você sentou naquela privada e fez suas coisas ali. Então eu quero sentir saudade de você. Eu tô cansada de sentir só amor. Eu tô estufada. Eu quero sentir saudade. Por isso quero que você vá embora. Porque se você não for embora eu não vou sentir saudade. A sua pergunta é essa? Se eu quero que você vá embora para que eu sinta saudade? Então a resposta é sim, eu quero que você vá embora para que eu possa sentir saudade. Talvez amanhã eu não sinta. Nem depois. Mas eu tenho certeza que em algum dia eu vou sentir saudade. Eu vou ficar olhando as coisas e choramingando e ouvindo música, caindo em pranto e me sentindo triste. Eu quero ter a chance de sentir tudo. Eu preciso. Eu não posso ficar prisioneira de amor e companheirismo e paixão. Eu quero sentir saudade. Então você vai embora, faça suas malas agora e vá, pegue um táxi, faça alguma coisa. Você escolhe. Eu só quero que você saia por aquela porta e me deixe sentir saudade. Eu só quero sentir saudade de você. Porque se você passar o tempo todo comigo eu não vou conseguir sentir saudade e isso tá me deixando mal. Então eu te peço, por todo amor que a gente sente um pelo outro, por toda paixão que nos envolve, eu te peço pra ir embora porque eu quero realmente sentir saudade. Eu quero que você vá embora. De verdade. Eu quero sentir saudade. Eu preciso. Um dia talvez você me entenda. Ou não. Talvez nem seja preciso.









Image by Steve

07 março 2012

pássaros em telhados











When Doves Cry by Prince on Grooveshark








O som está muito alto. Poderia diminuir um pouco o volume? O garçom diz que não. Que não pode diminuir o volume porque os clientes gostam do som naquela altura. Eu olho ao redor e vejo casais conversando. Como conseguem conversar neste barulho? A música: remix de uma canção da Adele. E os casais conversam. Na verdade, acredito que não estejam conversando. Talvez estejam se evitando. O som alto faz com que se evitem. É bem melhor mentir a dizer a verdade. Eu trouxe meu diário e é com ele que irei conversar. Que a música se exploda. Não sei bem o que escrever. Há muitas ideias e muitos dias a relatar. Eu conto tudo que faço. Conto e aumento (o engraçado é voltar ao diário dias depois de tê-lo escrito e perceber que menti). Eu não consigo acreditar em mim. Eu nunca soube mentir de verdade. Alguém ao telefone: onde está? Estou aqui. Vou te encontrar. Fique onde está. Não quer me ver? Não, não é isso. O que é então? Eu não quero dizer. Você não tem créditos para completar esta ligação. Melhor assim.

O que vou escrever?
Ah. Lembrei.

Caneta certeira na página em branco: voltei a ler Caio Fernando Abreu porque preciso saber de onde exatamente andam tirando aquelas citações dele. Não é possível que um escritor tenha citação até pra dor de dente. Conclui, após ler Morangos Mofados, que muitas pessoas não sabem o que dizem. Há um longo texto em que ele narra um homem e suas ondas de questões existencialistas ao olhar telhados de zinco e pombos horríveis voando de lá pra cá. Foi nesta narrativa que encontrei a citação: "Não, você não sabe, você não sabe como tentei me interessar pelo desinteressantíssimo." Algo assim. Não há entrelinhas. Ele está falando de um cara que tenta se interessar pelos pombos horríveis e pelos telhados de zinco. E tenta explicar a alguém o quanto é difícil se interessar por tais questões. E são telhados bem sujos. E o Caio Fernando Abreu era meio Batman porque ele, hora ou outra, fala em morcegos. Me parece que ele realmente tinha medo de morcegos. Talvez fosse traumatizado. Que seja. Mas o que me dói é saber que a citação nada tem a ver com a vida amorosa de ninguém. É apenas um telhado de zinco.

Mas quem sou eu para dizer o que os outros devem ou não sentir quando leem alguém? Que usem citações. Que usem citações até se sentiram enjoados. E eu não vou perder meu tempo defendendo autores. E acho até que o eu-lírico poderia ser mais exato.

Exemplo:

Lucíola sentiu-se triste por não conseguir amar Fernando e, por isto, disse:

"Não, você não sabe, você não sabe como tentei me interessar pelo desinteressantíssimo."

Seria difícil usar um trecho dessa natureza para elucidar um sentimento qualquer. Que seja de novo.

Tenho me sentido incomodada com algumas coisas que nem merecem ser mencionadas aqui. Farei como os casais que conversam ao som da música ensurdecedora. Vou evitar e fingir e pensar que certas coisas que incomodam não existem e fim.

Uma gripe me acertou. Há três dias. Percebi que não consigo escrever quando estou gripada. Talvez seja hora de usar alguma citação:

"Não, você não sabe, você não sabe como tentei me interessar pelo desinteressantíssimo."

Coitado do Caio F. Viveu, morreu e agora paga o pato de nossa geração sem rumo. Eu conversei com alguém a respeito disso. Nossa geração não tem motivos. Estamos vazios. O que temos a fazer a não ser sentarmos nossas bundas na frente de um computador e mostrar que somos muito felizes, ou surtados, ou malucos? Que há além da rede social? Não posso responder. Ainda não estou pronta. Mas posso dizer que estamos feito cãezinhos correndo em busca de nossas caudas. Estamos defendendo causas que já estão muito bem protegidas por lei. Preciso dizer que entendo os homossexuais, os heterossexuais, e tantas outras pessoas. Entendo e respeito. Mas também preciso dizer que violência e intolerância sempre haverá. Eu sou mulher e temo a violência contra mim. Seja verbal ou física. Muitas mulheres ainda serão espancadas. Por isso criaram a Lei Maria da Penha. Ou terá sido o contrário? Terá sempre alguém contra você não importa o que você seja. Mas também haverá alguém a favor. É como estar dentro de uma tempestade. Haverá ventos opostos e ventos que poderão nos levar para lugares melhores. Já chega de explicar.

Volto à citação:

"Não, você não sabe, você não sabe como tentei me interessar pelo desinteressantíssimo."

Muitos casais foram embora. A música continua alta. Eu não estou alta. Estou lúcida porque preciso enxergar. Conheci alguém por quem não me apaixonei. Isto é bem normal quando se trata de mim: eu nunca me permito. E ainda vem a questão do medo de ter medo de ter medo. Eu não quero defender esta causa. Posso até ficar ao lado, bancar uma de torcida organizada e dizer que espero que ele seja feliz por toda a vida. Mas não consigo. Prefiro dizer que não me apaixono porque sinto preguiça. E, além do mais, sou passional. Todo passional mente. E por aí vai.

O bar está ficando deserto. Não me agrada muito ficar aqui, neste barulho infernal com aroma de cerveja e vodca. Paro agora e volto a escrever sei lá quando.

Assino meu nome.

O telefone:

― Mudou de ideia?
― Acho que sim.

E ele logo irá chegar e vou me largar a sorrir e beber. É isso. E vou deixar o diário aberto sobre a mesa. Não sei bem onde, mas li algo que dizia que quem escreve diário sempre espera ser lido. Acho que é coisa da Virginia Woolf. Que seja.

Ele chegou.

E eu repito a citação:

"Não, você não sabe, você não sabe como tentei me interessar pelo desinteressantíssimo."

De mãos dadas caminhamos pelas ruas de uma cidade que há tempos não sai do lugar. 











Image by Anton van Dort

02 março 2012

overdose









(porque a vida é tão outra coisa)








― Já percebeu que todo mundo anda cometendo excessos? Falei muito alto?

― O problema não está em falar muito alto ou não. O problema está em dizer. Eu não quero ouvir essas coisas, sabe? Não quero mesmo. Olha o tamanho do sol. Tá vendo? Ele tá enorme e tá bonito.

― Mas querer ou não saber não vai fazer com que as coisas desapareçam.

― Eu sei. Eu também não quero que desapareçam. Eu só não quero saber delas. Vou te dar um exemplo bem simples. Quando não quero ver a bagunça alojada em meu guarda-roupa, eu simplesmente não abro o guarda-roupa. E, quando abro, porque eu preciso trocar de roupa, eu faço tudo muito rápido. Abro a porta, pego qualquer roupa e não dou atenção à bagunça. É mais ou menos por aí.

― Entendi. Mas seu guarda-roupa continua lá. Ele não some e a bagunça também não.

― Eu sei.

― Eu não entendo por que você evita falar em certas coisas.

― Eu não evito. Eu só estou me dando a chance de não falar a respeito.

― É mais fácil fingir, não é?

― Não, não é mais fácil fingir. Porra, você está me confundido. E o sol tá lindo. Olha lá aquela coisa ao redor dele. É tudo nuvem. Elas se condensam e formam um tipo de anel esfumaçado. Olha o azul do céu todo esfumaçado. Isso é perfeito.

― Até quando vai fugir?

― Perdi. Minha paciência morreu. Pode falar. Fale tudo que estiver pensando. Eu posso ouvir. Eu consigo. Mas não vou discutir.

― Eu só pensei a respeito dessa autodestruição que está rolando por aí. Já reparou nisso? Não percebe que tudo anda exagerado?

― Já reparei sim.

― Olha. Presta atenção. Eu tenho amigos. Eu converso com muita gente. E sabe o que vejo? Tudo é 80.

― Sim. Tudo é 80.

― É assim. Se alguém decide usar alguma química, vai usar até enfiar o pé. Se alguém decide trabalhar, acaba trabalhando tanto que se camufla. Tem gente que se torna crente e vai seguir ordem de igrejinha até ficar tão cego que nada mais fora da igrejinha faça sentido.

― Entendo.

― Eu conheço muita gente e converso com todo mundo. E todo mundo me parece tão exagerado, sabe? Gente que fica estudando, fazendo mestrado, doutorado, os diabos, se entupindo de alguma coisa que faça com que sintam algo ou não sintam nada. Conheço gente que escreve e passa horas falando nisso e vive tanto do que escreve que a vida se torna só aquilo. A gente exagera no mesmo tema e a vida é tão outra coisa.

― Sabe o que acabei de pensar? Naquele trecho... Você já tá pra lá de Marrakesh.

― Rindo de mim?

― Claro que não. Só estou ouvindo. Então as pessoas exageram. E o que mais?

― Elas se camuflam. Tem gente sofrendo pra ser o que precisa ser ou pra ser o que sente que deve ser e não consegue porque fica se sabotando. Ou o mundo sabota a gente. Já nem sei.

― Está falando de quê?

― De muitas coisas. É mais ou menos assim: quando alguém resolve transar, vai transar até ficar viciado naquilo. Quando alguém resolve gastar grana, vai gastar até quebrar. Falir. Quando alguém resolve ser o foda em tudo, vai e se torna o foda em tudo. Minha questão é: cadê a merda do meio termo?

― Talvez não exista o meio termo que você espera.

― Como assim?

― Sei lá. Eu disse que não queria falar. Eu só escuto.

― Começou a falar, agora termina.

― Tá bom. Esse meio termo de meia tigela que você está falando ele simplesmente não existe na concepção que você espera.

― Como assim?

― Porra, olha bem. Talvez o meio termo seja algo além do exagero. Algo como a bonança após tempestade.

― Eu tô aqui falando o tempo todo e você me vem com essa de chavão que explica tudo? Que bonança? Do que você está falando?

― Do exagero. Não era disso que você queria falar? Eu tô falando do exagero. Dessa coisa de viver tudo, fazer tudo, falar tudo. Não era esse o tema?

― Era sim. Mas você saiu do tema. Você fugiu. Você se camufla.

― Eu não me camuflo. Eu só não quero ver o formato das coisas. Não agora. Eu não tô a fim de ver o formato de nada. Eu só quero viver, sabe?

― Como você consegue agir assim diante de tudo que tá acontecendo?

― Não sei. Não tem fórmula.

― Mas existe algo que te basta? Você sente satisfação? Qual é o teu exagero?

― Eu não sei. Eu só quero olhar aquele sol ali que tá lindo com aquele rastro de nuvem todo esfumaçado em azul. É a minha decisão de agora.

― Assim? Tão simples?

― Eu só busco um foco. Eu não quero me perder pensando em coisas enormes, entende?

― Tá. Mas e daí? E quando este sol lindo da puta que pariu se pôr, o que você vai fazer? Em que vai pensar?

― Na lua, ora. Ou nas estrelas.

― E se estiver nublado, sem lua e sem estrela?

― Aí eu vou observar o céu nublado. Ou a chuva. E só.












Image by Samantha Nagel