20 maio 2012

criatura viva











Ligo a tevê despreocupadamente. Um apresentador de programa de auditório grita e vibra aos aplausos da audiência. O homem celebra aquele instante e eu paro e penso: Espere. Esta é a matéria condensada de eventos, pessoas, sentidos, obrigações, ilusões, família, amor, rancores e partidas? Esta é a vida? O ponto de início e fim de qualquer existência está dentro da vida? Desligo a tevê e me deito ao sol do fim de tarde, em casa, ruído algum. Apenas o passar das horas no relógio antigo. Não há quem possa enxergar o que virá depois deste tempo, do dia, da cotidiana necessidade de existir. Então eu fecho meus olhos e vejo vida. Na árvore do jardim, no olhar das pessoas com quem convivo, nas ruas e nas janelas das casas e em luzes de edifícios. É tudo vivo. No asfalto, na mobília, no retrato, na voz robótica que me fala ao ouvido "bom dia, a dona da casa se encontra?" Eu me deixo sorrir ao perceber vida nos objetos que ostento, na medalha que enfeita o pescoço de alguém que não conheço, mas que passa por mim e eu o percebo. É veloz o ponteiro deste mecanismo incalculável que nos leva pelos dedos, mãos, o corpo inteiro. E eu percebo que estou viva e tenho sempre outra idade que não se mostra em meus olhos ou nas rugas que circulam a pele. Há tanta vida e ela acontece. Mesmo que queiramos permanecer estáticos diante de tudo, a vida se prolonga e se deita sobre nossos dias. A questão é apenas uma e insiste: O que você tem feito da vida? O que você tem feito de si mesmo enquanto o sol acorda e faz dormir cada criatura viva? Pois nunca será o bastante o ato em efeito e saiba, de agora em diante, que a vida é bicho que devora a carne de tudo que a consome.






18 maio 2012

memória de elefante










o poeta





Não é sempre que tenho a chance de encontrar um poeta. E isto me aconteceu ontem. Ao caminhar pelo centro da cidade, cansada e cheia de sacolas nas mãos, encontrei um lugar para me sentar e descansar um pouco antes de continuar minha tarefa. Eu tinha uma lista de coisas para comprar. Coisas pequenas. Tecidos, aviamentos, linhas, carretéis. E deveria também escolher botões detalhados em tons de dourado. Não costumo fazer isto com frequência. Mas é dada a obrigação e é preciso cometê-la. Enquanto eu descansava sentada naquele banco de praça, muitas pessoas passavam por mim. Todas tão ocupadas. Seus semblantes me pareciam algo como estátuas que olham apenas para uma direção. E, entre tantas pessoas, encontrei um amigo. Um poeta. Ele estava distraído assim como me parecem estar todos os que se doam ao ato de escrever. O homem olhava para os lados, olhava adiante, olhava além. Fiquei feliz ao vê-lo após tanto tempo. Da última vez que o vi tentei evitar conversa. Porque, em minha opinião pé no chão da realidade, poetas são metafóricos demais. São líricos até nas observações mais comuns. E, mesmo cansada, resolvi por em prática e provar minha teoria, ou, talvez, mudar minha meu ponto de vista. Então me adiantei a cumprimentar meu amigo poeta. E o convidei para sentar-se ao meu lado e trocar algumas palavras a respeito da vida. Falar de coisas bem comuns como família, trabalho e amores. Eu disse olá e perguntei a mais básica pergunta de todas.

― Como vai você?

E ele respondeu:

― Eu não vou. É o tempo que vai.

Sorri e soube, naquele instante, que poetas sabem da vida mais que a maioria de nós.







sólida em líquida





Não tenho muitos amigos. Admito: sou esquiva ao lidar com os outros. Mas não é por prepotência. É apenas uma casca de proteção que o tempo vai moldando em nossa pele e é difícil remover toda esta parte sólida que nos envolve ao correr da idade. Mas apenas percebi o quanto estava me tornando distante e fria quando uma amiga me disse, com toda a pureza da educação, que sentia, em algumas de minhas poucas palavras ditas nos últimos dias, que pareço arrogante e perdida. Foi então que senti a presença do escudo (que é a casca) e que é preciso ser removido aos poucos para que não percamos nossa forma humana de enfrentar os dias. E eu, que estava me tornando sólida, me deixo ser água novamente. E transbordar meus sentimentos a pena que me escreve. E eu tenho amigos que são poucos. Mas valem muito em minha memória. Eu sequer encontrei palavras para agradecer minha amiga pela grande ajuda. Porque não é sempre que alguém consegue nos tirar a venda dos olhos.










05 maio 2012

leite morno













Meu homem prendado bonitinho foi ao barbeiro. Tão novela. Tão leite com biscoito. Tão merda. Tão se achando gostoso. Mas deixa que eu diga uma coisa, homem. Odiei seu corte de cabelo. E você chegou em casa se achando o máximo surpreendente. Fez até foto: olha, meu bem, este sou eu cortando o cabelo. Fiz até a barba. Ri ininterruptamente. Sabe o que eu estava fazendo enquanto você cortava cabelo e batia retrato? Eu comi o pão que o diabo amassou. Recebemos visita. Veio o agente da vigilância sanitária e me disse para mandar limpar a caixa d’água porque pode haver epidemia de dengue por nossa causa. Por causa da gente, macho indecente. Esquece. Tenho algo mais importante a dizer: Advirto que estou um tanto louca. Estourei o limite do cartão de crédito. Comprei montes de coisas. E amo você. Esqueci de dizer? Isto não deveria ser mais relevante do que seu corte de cabelo, Seu Falo, meu medo? E teremos um filho. Sorria. Você está sendo filmado, convocado, comprovado o macho reprodutor. Você será papai. E eu serei a mãe que foge. Kramer versus Kramer. Lembra? Eu nunca soube cuidar de criança. E não é agora que vou aprender. Mas eu amo você. APREENDA. E amo nosso filho ou filha. Só não americanize a criança. Não escolha nomes como Pamela ou Stefany. Será uma tragédia. Todos irão tratar a criança como se fosse metida. E ninguém vai pronunciar direito o nome da menina. E, caso seja menino, não use nomes como Cláudio Adalberto, Márcio Narciso. Não faça isto. Não derrame sua raiva na criança. Desconte sua raiva em mim que deixarei com você nossa cria e estarei a quilômetros de distância vivendo de qualquer forma e buscando ser feliz. E um dia eu volto com cara de Meryl Streep arrependida. Mas, ao contrário do filme, não vou pedir a guarda da criança. Pedirei abrigo e muito perdão por ter fugido. No entanto, como este dia ainda não chegou e nem filho eu espero, digo apenas que te amo. E me causa riso ver você muito surpreso de tanto assombro e me enerva a pele de vontade ao ver sua cara de quem muito me comeu e ainda não se cansou do espanto.










Image by pesare