30 junho 2012

o baú











Sentou-se em frente ao velho baú. Soprou a poeira que havia sobre o tampo de madeira envernizado. Tocou o móvel como se afagasse alguém que muito amava. E então o abriu. Sorriu ao ver o que continha o baú. Um abajur quebrado, duas máquinas fotográficas antigas, algumas agendas de anos passados ainda não escritas, papéis de todo tipo, cartas, um envelope contendo um exame de raio-x, uma boneca de porcelana, um porta-retratos sem foto e uma porção de outras coisinhas. Pesquisou a importância de cada uma delas. Tocando-as. Sentindo-as. Sorriu novamente porque percebeu que nada tinha grande importância. Eram apenas coisas que preenchiam um baú que precisava ser preenchido. Nada que tocava fazia diferença para seus dias de agora. Examinou as agendas, os papéis, as máquinas fotográficas... nada mais era importante. Questionou a necessidade de continuar guardando coisas e amontoando-as como se fossem relíquias. Como se fosse o tesouro de um baú pirata. Era preciso se desfazer de tudo e limpar o baú. Retirou cada item colocando-os no chão. Passou a limpar o antigo móvel. Usava uma flanela. Usava as próprias mãos para retirar teias de aranha. Sentiu-se limpa e coerente ao estar fazendo algo que realmente fazia diferença. Limpar o baú representava deixar para trás o passado de coisas que agora pareciam inúteis. Deixaria o baú vazio e limpo para que pudesse reiniciar o processo de armazenamento de memórias. Começaria de novo. Ao terminar sua tarefa pegou uma enorme caixa de papelão e começou a jogar cada item dentro da caixa. Não queria mais a boneca, o abajur, as agendas. Porque nada ali tinha importância. Estava cansada de guardar coisas sem importância. E, no vai e vem de sua arrumação, algo lhe caiu em mãos. Um cartão. Envelope lacrado. Datado de. Era bem antigo. Como pude ter me esquecido de abrir este cartão? Por que não o vi? Sentiu-se curiosa porque, enfim, havia encontrado algo inédito dentro do baú. Era enfim o tesouro que buscara. Rasgou o envelope com a mesma velocidade que uma criança se desfaz da embalagem de um presente. Sorriu novamente. O cartão era azul e havia nele alguns desenhos em relevo de nuvens e um sol muito dourado. Abriu o cartão. Havia palavras ali. Muitas palavras que nunca haviam sido lidas. Apenas a pessoa que escreveu este cartão leu estas palavras, ela pensou. Estou tocando um tesouro que apenas uma pessoa tocou. Estourou em riso sua boca e seus olhos liam cada palavra escrita no papel colorido. Ao terminar de ler o conteúdo do cartão, devolveu-o ao envelope e o depositou no fundo do baú vazio. Ela havia encontrado finalmente o início de uma vida que recomeçaria ali, ao libertar das memórias e ao construir de uma nova fronteira de linhas que costuram a vida. Quanto à caixa de coisas retiradas do baú, deixou-a na calçada. Alguém poderia ver alguma importância naquele passado que, para ela, chegara ao fim.










23 junho 2012

as mãos de bernardo












Olga, me dê sua mão. Eu ajudo você. Eu não tenho mais idade para isso, Bernardo. Faz muito tempo. Estou cansada. E já viemos de tão longe. Largue de se enxergar velha, Olga. Você está bem. Eu olho para você e vejo a mulher que sempre foi. Forte, decidida, minha fúria para enfrentar os dias. Pare com isso, Bernardo. Eu não sou mais aquela mulher. Eu mudei. Porque o tempo muda as coisas. Eu conheço o que vejo quando me olho no espelho. E vejo uma Olga diferente. Você sabe o quanto mudei. Não suporto mais as brisas fortes, os ventos, a força, a continuidade das coisas. Eu mal me suporto, Bernardo. Você está errada quando diz estar envelhecida, Olga. É apenas uma forma de se ver. Olhe bem suas mãos. Repare em suas unhas. Veja como estão belas assim como sempre estiveram belas suas vértebras, seus belos lábios, sua paz atormentada, Olga. Por que insiste em me levar a fazer coisas que não consigo, Bernardo? Eu não agüento mais o peso de tudo. E não quero que segure minhas mãos porque me sentirei ainda mais velha e desarraigada de minha juventude. Qualquer movimento, Bernardo, me cansa. E minhas pernas não suportam. Minha coluna não enverga mais ao ponto de me fazer mover meus músculos em tantas formas. Eu estou inadequada para isto, Bernardo. Inadequada, Olga? Você jamais estará assim. Ontem você conseguiu alcançar alturas que você dizia não poder mais. E isto não será tanto esforço para nós. Faremos os dois. Unidos. Como sempre estivemos. Quantos anos faz, Bernardo? Para que saber do tempo, Olga? Apenas olhe para mim, segure minhas mãos e eu levo você. Como se fosse uma dança. Um casal em danças. Olga, não chore. Você é tão forte. Vejo explodir dentro de você todas as forças necessárias para continuar vivendo. Pare de chorar esse lamento sem motivos, Olga. Olhe para mim. Isto. Dentro de meus olhos. Você está sorrindo, Olga. Você sorri porque sabe que estou certo. Vamos. Eu estou ao seu lado. Dê-me suas mãos.

E os dois octogenários atravessaram juntos a avenida em contramão.








01 junho 2012

doralice















Good People by Jack Johnson on Grooveshark










Muito lindo o carinha que peguei. E eu o levei pra minha casa, viu? Lindo de tudo. Ficou sentadinho na varanda ouvindo Jack Johnson enquanto enrolava cigarrinho pra fumar e ficar solto. Cheguei perto dele e ele foi logo me enroscando pela cintura. Arrepiei toda. E a gente fumou junto. Tão romântico fumar baseado com um carinha lindo perto da gente. Compartilhar saliva, vontade, fome... Aí rolou o clima da risada. Ele ria de mim e eu ria de tudo. Tão alegrinha. E satisfeita. Sentei no colo dele e vaguei à cavalinho. Trotando em cima do carinha que ria e cantarolava em inglês "para onde foram todas as pessoas boas?". Que frio na barriga, meu deus. Eu quase não conseguia acreditar que era eu ali, depois de tempos sozinha, em tão perfeita companhia, tão preenchida. O cara era lindo mesmo. E então veio beijo. Língua com língua e larga vertigem no céu da boca. Toda dormente eu me deixei levar. Vai, carinha, deixa eu te amar pro meu corpo ficar odara. Eu cantei, não pensei, não nada. A noite foi caindo pela madrugada e eu perdida no olhar do cara que eu havia trazido pra casa. Tiro a roupa, tira você também, tira tudo, eu não tenho pudor algum, eu não sei dizer, eu acho que conheço você de outro lugar, não? Amor pra sempre? Acredito sim. Acredito em tudo. E vai e vem e sobe e não desce mais senão ele explode. O carinha me olha no olho e outro baseado baseia o ato. Tão bom olhar você. Mais e mais dentro de mim e tão forte. De onde é o barato? Ninguém mais usa essa linguagem. Não? Agora é assim. Vocabulário novo eu aprendi. Vertigem na zona periférica. Você tem vergonha se eu disser isso? Eu não. Diz. Digo. E foi dizendo uma narrativa pornô-romântica de toda categoria. Outro baseado e um gosto estranho. Ligo pra nada. Sedenta que estou faço até biquinho. Estou gemendo muito alto? Fala. Estou? Nada. Relaxa. É só na manha. Assim. Quietinha. Silêncio e beijo. A noite inteirinha de beijo e tudo. Aliás, é desta forma que eu lembro da história. "E o resto?" pergunta o delegado da 24ª D. P. E o sangue? E o corpo? E quem disparou primeiro? Eu respondi nada. Fiquei calada. O carinha ainda zoava na minha cabeça como se fosse um sonho de gente que sonha acordada.