29 julho 2012

pragas e revoltas








Tenho a impressão de que o domingo é feito para adiantar ou atrasar de vez as coisas. É um divisor de águas. Um marco de um tempo que nos reduz.


(Flora Conduta)









Eu tenho revoltas cerzidas nas costas porque me é mais perceptível o que tento esconder. E ando em bandos a impura convalescente de amor ferido, de orgulho e ainda sofro da ressaca de ontem, de tempos, séculos adiante. Eu não sei me podar. Sou planta carnívora que devora a própria semente, a flor, o espinho e perfuro em cadências minha estirpe e meu rancor. Tudo em mim me consome a libido e a pavor. E nada muito me sacia. Nem a língua nem a saliva. Quero o ódio inteiro dentro de meu corpo católico que ora por minha própria combustão. Lírica ao orgasmo eu recito nomes de homens que andam de mãos dadas com suas mãezinhas coitadinhas e solitárias que se tornam virgens. Sagrado seja o nome daquele que me faz rastejar por sexo. É por ele que acordo e durmo e nunca me deixo vista porque sou esta criatura apenas quando estou sozinha deflorando a florzinha criada em escola para mocinhas. Meu passado ainda me flagela entorpecida de memórias. E, acaso você faça parte de minha história, aleluia e glórias. Rogo em pragas que esta fome que me devora violenta se perpetue religiosa a devorar você.








23 julho 2012

relâmpago contraído







ao homem




Procuro deus em cada vão de mim. A desgovernada égua andante segue sem bandos e sem pecados e, acaso os tenha, perdoa-me antecipado. Minha forma de vida é inequívoca e insensata é a fome do querer. Arrependidas mendigam as meninas que me habitam e oram por compaixão. Serei a puta acavalada que sustenta homens ou apenas a simplória que contribui com impostos e aposto que deus virá porque ele existe e está digno de aplausos em cada página de jornal. Há paz onde há deus onde há fé onde nada mais há. Feliz em média estatura caminho entre homens e busco significado entre beijos. Deus está por vir. À porta, tapete e boas vindas. À mesa, vinho e regalias. Ao espírito, vaidade e sangria que estilhaça todas as faces que observo no espelho em que há deus, em que deus me falo, em que deus me cria. E insiste mais a vontade em crer do que a própria crença que simula meu respeito, meu afeto, meu condensado temor. E, ao encontrá-lo, na sala de estar, sujando o piso de casa com seus pés de andar, eu o reverencio pecaminosa em minha casta identidade feminina, nunca corrompida, e deus me serve de alívio ao postular que não tenho culpa da sede que sinto e tudo se deve ao fato de ser de hormônio meu suplício e que a vida me engula por completo e que tudo me venha em excesso porque há fé em meu ato de honrar palavras secretas que ressalvam noites solitárias de ir ao vasto mundo à caça. E algo me ensina que tudo mais que existe, por ordem matemática, não se curva à necessidade de uma prova física. Não é palpável o paladar da palavra, do andor e da desgraça. E ocorre em mim o mesmo que ocorre em ti. A densa vontade, a fome escarlate, a febre que arde. E, ao bruto ressurgir do que nunca é nascido, assombrado de amor em silenciada alma, rubro de tudo, saudoso de nada, enlaçado em revoltas desperta vingativo o deus que há em mim.








14 julho 2012

penélope









Há muito tempo tento lhe escrever. Aqui, sentado à janela, busco acumular palavras rabiscadas em papel e escrever-lhe uma carta. É difícil colocar meus pensamentos e vontades da forma que os desejo lhe dizer. Tudo me vem embaralhado como se minha vida acontecesse toda de uma só vez como um rio que carrega o mundo na cheia. Sei que irá me ler e pensar que continuo inexato e nada prático com as coisas. Talvez eu não tenha mudado mesmo. Mas há novidades, Penélope. Não moro mais no velho apartamento. Agora estou duas ruas acima do antigo prédio azul cobalto. Moro em um prédio mais moderno. Embora sejam apenas quatro cômodos, há espaço. Um banheiro antigo cheio de azulejos que não são mais fabricados. Você adoraria ver. Há também a cozinha que se une à sala e o quarto onde durmo religiosamente solitário. Decorei o lugar da forma como você decoraria se estivesse aqui. Finalmente arranjei uma mesa para minha máquina de escrever e uma estante para os livros. Está tudo organizado. Lembro-me de quando reclamava de minhas bagunças. Sim, eu realmente era muito desorganizado. Agora não sou mais. Há gavetas nas quais organizo papeladas, cartas, documentos, contas pagas. Há também um armário para guardar minhas roupas. É embutido. Veio junto com o apartamento. Não é muito grande, mas ainda há quatro gavetas e prateleiras vazias. Você sabe que não me preocupo muito com estas coisas pequenas de roupas e bobagens. Tenho apenas algumas camisas, um terno e três pares de sapatos que me servem muito bem. Nada tenho a reclamar de minha vida. Trabalho em um escritório de advocacia. Um amigo me ajudou a conseguir este emprego. Redijo documentos e até recebo bem por isto. Posso, com o dinheiro, passear por lugares que antes eu não ousaria. Lembra-se de quando fomos àquele restaurante da Avenida Sul? Você me olhava espantada ao perceber que do cardápio poderíamos apenas escolher entre um cesto de torradas e dois cafés. Passamos fome, Penélope. Eu sei o quanto você sofreu tendo vindo para cá viver com um escritor que acreditava que iria ganhar com a publicação de livros. Isto nunca aconteceu. Você trabalhava em casa de família enquanto eu escrevia ininterruptamente para jornais e revistas que nunca me aceitaram o trabalho. Eu sempre dizia que, um dia, tudo iria melhorar. Você acreditava em mim. Tão bela ao cair da noite, cansada das conduções e do trabalho, ainda fritava ovos para que comêssemos juntos nossas refeições dignas de nosso amor pobrinho. Não era assim? Hoje lembro de tudo e sinto-me culpado por não ter conseguido ir além de meus sonhos tolos. Me dói lembrar de minhas noites na boemia e de seu sofrimento ao me ver chegar em casa amarrotado de mulheres. Eu me arrependo tanto, Penélope. A idade me trouxe uma verdade imensa aos olhos: eu a perdi porque sempre pensei mais em mim ,e, talvez, meu amor fosse imaturo para seguir naquele tempo. Mas os dias ensinam, minha querida. Os dias ensinam. Não me envolvo mais em badernas comunistas, como você costumava chamar. Eu cansei da causa por entender que apenas interesses maliciosos a sustentavam. Hoje sou apolítico. E sou digno. Ninguém mais vira o rosto para mim nas ruas. As pessoas me cumprimentam. Sou um trabalhador e tenho um ofício. Ainda escrevo livros e os publico sem a grande ambição da vaidosa juventude. De saúde, estou bem. Embora tenha adquirido certos problemas respiratórios (o ópio, Penélope, ele me pegou). Mas me cuido. Tomo medicamentos e estou sob controle. Tanto que aqui está a prova. Em suas mãos. Só deus sabe quantas vezes ensaiei esta carta. E por tantos anos. Quantos? Cinco? Doze anos? Apenas dois? Tenho na memória a fotografia do dia em que você partiu. Sequer olhou-me nos olhos e aquilo me feriu porque me senti indigno de seu amor. Você chorava e eu estava atormentado de culpa. E assim tenho vivido durante sua ausência. Ainda há tempo, Penélope? Escrevo para saber se ainda temos tempo para mais uma visita àquele restaurante. Quero que olhe o cardápio e escolha o que quiser. Não precisamos mais nos poupar de viver. Não tenho mais a febre das ruas. Não tenho damas de companhia. Não traio sequer sua imagem de Nossa Senhora da Conceição. Eu fiz um altar para sua imagem. E eu oro todos os dias. Entrei em contato com sua irmã que mora na ilha e assim consegui seu endereço. Sua irmã não quis me falar de você. Eu respeitei a vontade dela. E hoje acordei com esta fome aglutinada de escrever para você e dizer que a quero novamente para que possamos viver o que a juventude de 10 anos atrás me cegou. Eu a quero comigo, Penélope. Eu quero você ao meu lado. Venha viver comigo, Penélope. Não se preocupe com trabalho. Eu tenho meus rendimentos agora. Porém, se acaso tiver seguido com a vida e tenha filhos e marido, desconsidere meu pedido. Pois, se estiver bem e feliz, é o maior sinal de que não a mereço. Mas, acaso esteja livre e ainda tenha por mim o mesmo sentimento, estou pronto, Penélope. Pronto como nunca estive. Sedento e sereno por você. Eu quero você ao meu lado para que as pessoas possam nos cumprimentar juntos, de mãos dadas e em paz com o nosso amor. Estarei esperando. Escreva-me ou simplesmente venha. Eu estou aqui.


Com amor,

Seu.


Semanas depois o remetente fora morto por bala perdida, seu apartamento entregue à família (mãe e dois irmãos) e, à chegada de Penélope à rodoviária, ninguém a esperava. Penélope decidiu ir ao apartamento, uma vizinha a comunicou do ocorrido e Penélope, toda chorosa, retornou a seus quatro filhos e a seu marido bêbado, desempregado e sifilítico.






08 julho 2012

papo clarice









Por que está tão calada? Silêncio. Só o motor do carro faz ruir o tempo. Não quer falar ou não quer responder? A boca se abre e diz:

─ Não seria a mesma coisa? Falar não é a mesma coisa que responder?

─ Nem sempre. Estou falando e nem por isso estou respondendo.

─ Está sim. Você está respondendo ao meu silêncio.

─ Lá vem você com seu papo clarice.

─ Não é papo clarice. É só minha forma de pensar.

─ É papo clarice sim. Parece que você engoliu a Lispector. Já te disse para dar um tempo nos livros dela. E no Sartre também. Vai acabar louca.

─ Acabar? Como é que pode uma pessoa acabar? É como se fosse filme? Livro? Rua sem saída?

─ Acabar é quando se chega ao fim da vida. Até o ponto que a pessoa é vista pela última vez. Um exemplo: Eu conheço um cara que estudou tanto que acabou maluco. Acabou porque, na última vez que o vi, ele estava andando pela rua cheio de pastas e papéis e falando sozinho. Então este é o fim do cara. Ele acabou assim.

─ Você não me convenceu com esta explicação. Pessoas não acabam.

─ Nem quando morrem?

─ Nem.

─ Então você acredita em vida após a morte? Não sabia que era kardecista.

─ Não sou kardecista. Não sou nada disso. Só acho que a morte não é o fim.

─ E o que vem depois da morte?

─ O velório. E depois o enterro. Funeral. Cremação.

─ Mas você está falando da matéria física. Isto nada tem a ver com alma e essência.

─ Não se acaba quando se morre.

─ Não? E o que acontece?

─ Depois do funeral e do tempo que se passa após a morte, a gente continua existindo através do que se diz ao nosso respeito.

─ Você realmente acha que depois que você morrer as pessoas vão ficar falando de você pra sempre?

─ Para sempre é outra coisa. Não faça confusão. Estou falando que ninguém acaba. Digo que a gente continua.

─ Você fumou um baseado hoje?

─ Não. Parei.

─ Desde quando?

─ Uma semana.

─ Está explicado então. É melhor voltar a fumar. Está ficando meio obtusa.

─ Obtusa? Como assim?

─ Sem explicação.

─ Mas estou cheia de explicações. Estou falando o tempo todo e explicando. Se você não me entende, é outra história.

─ Eu não entendo você?

─ Muitas vezes não.

─ Quando não?

─ Quando acordo e não quero conversar, por exemplo. Quando fico em silêncio pensando. Você sempre acha que o motivo é outro.

─ Não é bem assim. Eu só procuro conversar pra saber se você está bem. É assim que as pessoas são. Elas interagem pra saber se estão bem.

─ Só isso?

─ Só isso o quê?

─ Pessoas interagem somente para saber se estão bem? E quando estão mal?

─ Mas é isto que estou dizendo. Se pergunto a você por que está calada e tal você vai e fala e eu posso deduzir se você está bem ou mal.

─ Acha mesmo que pessoas podem ser caraterizadas por dedução?

─ Acho sim. Eu deduzo o que você sente por suas palavras.
─ Só por palavras? E meu silêncio? Não te diz nada?

─ Muitas vezes não.

─ Então quer que eu fale o tempo todo para saber como estou me sentindo? É isso? E na hora do sexo? Quer que eu fique dizendo tudo que estou sentindo?

─ Veja só como você complica tudo. Não é assim. Não é preciso falar o tempo todo. Mas eu preciso ouvir respostas. Teu silêncio nem sempre me responde.

─ O que meu silêncio te diz então?

─ Eu não sei. Você me atordoa. Entende?

Carro à esquerda. Rua afrente. Orla. Praia e sol.


─ Não entendo. Se o meu silêncio incomoda e também incomoda se eu falar sempre, não sei bem o que você quer. É você quem está causando confusão. Não vê? Se precisa sempre de uma resposta minha para saber se estou bem ou mal, então você não me conhece.

─ Conheço você sim.

─ Quanto?

─ Quanto o quê?

─ Quanto você me conhece?

─ O suficiente.

─ Suficiente para quê?

─ Para mandar você calar a boca porque já não suporto mais suas perguntas. É isso. Cale a boca. Volte ao seu limbo. Fique aí pensando enquanto eu lido com a praticidade e dirijo este carro e levo você à casa da praia.

─ Mas quem disse que quero ir à casa da praia?

─ E não quer?

─ Não.

─ Por que não me disse antes?

─ Porque você não me perguntou. Você apenas entrou no carro e dirigiu e se incomodou com meu silêncio e tomou suas decisões.

─ Você ficou maluca, sabia?

─ Maluca? Por ler Sartre ou por estar com você?

─ Não vou responder.

─ É. Acho então que eu acabei.

─ Como assim "acho que eu acabei"?

─ Fiquei maluca. Não é esta sua opinião.

─ Neste momento é.

─ Então é fim. Porque esta é a última vez que você vai me ver. Guarde bem a imagem. Em sua história, eu acabo maluca. Na minha, você continua. Pena não ter me conhecido melhor.

Desce do carro, mochila nas costas e some na estrada de paisagem amarelada em dia de sol nas encostas da praia.