28 agosto 2012

esteja sóbrio quando me ligar












ou bêbado. Não me importo. Eu posso ouvir um bêbado alucinar-se por sua vida perdida. Porém será mais propício que esteja sóbrio. Porque não irei duvidar da voz que me cala a língua. Não pensarei ser loucura sua palavra dita em meu ouvido. Embora eu seja íntima da loucura e de seus propósitos, não me traga a falta de lucidez que em mim já é imensa. Esteja sóbrio ou ébrio (mas com alguma sensatez). Fale mal de seus vizinhos, de sua rua, de seu emprego. Fale mal da política. Reclame dos sapatos baratos que comprou ou dos calos que fazem doer seus pés ou de sua família que está sempre a pedir dinheiro emprestado ou de seus amigos sacanas que bancam honestidade e tropeçam em mentiras. Fale do amor de sua vida que decidiu ir embora por falta de diálogo, por falta de companheirismo, por falta de superficialidades que não importam à mente de um homem bêbado, talvez impotente, talvez imaturo, talvez estúpido. Quero ouvir sua voz de toda maneira. Mas é sempre adequado que esteja inteira sem a rouquidão inóspita de uma bebedeira, ausente da fala que trará ressacas de arrependimento. Sei como se sente aquele que busca ser ouvido em pleno desespero ou em um momento em que o mundo acaba no fundo de um copo vazio ou de uma garrafa amarelada sem líquido algum. Conte verdades (reais ou não), fale dos impostos, do preço dos alugueis, de sua última visita a um lugar que não conheço. Conte de suas mulheres, de seus homens (acaso existam), fale de suas humilhações, mas também não me poupe da elegância de falar da alegria, das borboletas submersas em vida que sugam plantas e voam ao redor de seu corpo quando se sente livre e descalço do peso de tudo. Conte histórias que não ouço de muitas bocas porque eu o postulei único em meu altar há tempos ocupado por um deserto de adorar ninguém.






Unison by Björk on Grooveshark






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26 agosto 2012

literatura de facebook










Faz tempo, desde os idos dias de cursar Letras, que ouço em literatura disso e daquilo. De bolso, de viagem, de autoajuda, de tudo. E eu compro livro de todo tipo e tamanho. E leio todos os tipos de autores (Exceto Jorge Amado. Não me instiga a leitura de sua obra). Petulância dizer que não gosto de Jorge Amado? Petulância é dizer que o lê só por ler. Isto sim. Mas o assunto é outro. Já vivi ou ainda vivo a literatura de blog. Iniciada não se sabe quando e viva até hoje, embora trôpega e quase parando, ainda insiste esta literatura virtual ou digital (Mas virtual é tão não palpável. Não combina com literatura, embora esta também seja subjetiva). Há um ano ou mais outra literatura surgiu. A literatura de facebook. E ninguém precisa estabelecer isto como uma verdade para que ela exista. Todos os dias eu leio publicações variadas no mencionado site e digo: "Mas espera! Isto é um poema. Aquilo é prosa. Isto mais é literatura". Mas, como não há acadêmicos ao redor para julgar se é arte ou não, as publicações ficam largadas a um simples curtir que nada mais é do que "talvez eu tenha lido... eu li... que bonito!". Claro que ninguém precisa ficar comentando textos para que eles sejam literários. E há muitos escritores hoje em dia. Há pensadores. E também amadores que começam a caminhar. Leio o facebook e acredito que esta seja uma nova era de se reinventar. Críticas sempre existirão. Sejam negativas ou positivas. Ctrl-C + Ctrl-V também. Não vivemos mais os tempos dos folhetins ou reuniões de grupos literários que buscavam formar correntes de pensamento. Vivemos tempos de deuses enormes com seus umbigos salientes. Mas vivemos. E isto já é uma parte da história da literatura que está sendo redigida em javascript e muitas propriedades de página. Se isto nos será gratificante, o tempo virá e dirá de nós. Portanto, só nos resta escrever.











20 agosto 2012

página prévia











Para escrever a respeito do mundo é preciso estar distante do mundo. Não há como vivenciar tudo e ainda tentar explicar. Adoro observar senhoras mendigas encaixotando seus restos no fim da tarde para saírem em busca de um lugar mais acolhedor para dormir. Decerto, se fosse eu uma das senhoras ou se com elas tivesse a chance de conviver, eu não me daria ao trabalho de escrever a respeito delas. Ou de mim. Porque estaria completo o meu desgaste e minha palavra não valeria mais do que os restos encaixotados. É preciso que haja espaço entre isto que chamo arte e aquilo que chamam vida. Eu só falo de amor porque não o tenho. Se acaso eu o tivesse e dele vivesse as vinte e quatro horas de um dia, eu estaria tão saciada da mordomia de um beijo que me calaria. É preciso um vagão que alongue o trem em cada precipício entre os trilhos. Tenho minha mãe ainda viva. Gosto de conversar com minha mãe. No entanto, nunca tive a vontade verdadeiramente honesta de escrever a respeito de sua vida. Haverá o dia em que eu talvez escreva a respeito de minha mãe partida. E não me prendo a explicar o que pretendo com estas palavras. Eu sou o corvo. A negra criatura que busca a carne dos sacrifícios. E apenas sou este corvo porque dele nada sei além da matéria que minha laia observante permite. Porque vivo distante, embora me aninhe entre vigas de pessoas e convivências. Eu nunca estou por completo nos cantos em que estou. Há partes ausentes. Elas me escapam mesmo que eu tente ferozmente prendê-las entre minhas unhas femininas. Não sou poeta de nada. Tampouco serei honrada por escrever enredos felizes. Estou em busca de um parto que me traga um ser vivo e inocente. Escrevo somente o que não posso viver dada minha limitada existência. Por isto leio livros que me contam fatos inéditos. E por isto mais me inquieto ao criar novas histórias. Nunca me satisfaço com o que realmente quero ou espero do que irei dizer. E muito embora minha alma possua a decadência próspera que me faz andar ao lado dos rejuntes sujos e empoeirados e das vísceras que poemas me contam, tenho em mim a leveza pura de uma virgem ornada e faminta a espera de seu único homem.









18 agosto 2012

noturna ambrosia











Daredevil by Fiona Apple on Grooveshark





eva urbana



Caminhões e seus arranques em Serras de Botucatu me roubaram a quietude de andar pelas ruas, de ser alaúde do sorriso aos pés. Homens, capitães, velhos padres em sermões. Todos eles me roubaram a inocência de estar no mundo e nada entender de nada com nada. E agora cresço violada. A criatura eva do paraíso castrada. E sofro inebriada a febre das eras passadas. E, desta vez, tenho um trato com o diabo que me carregue e, de rarefeito, nem de amor quero viver. Anuncio em voz velada: ao inferno todos vocês.





cardíaca impulsiva



Sou tímida. Ora disposta. Ora adormecida. Meu coração tem vida própria. Auto funcional a equilibrar-se em corda bamba. E torna-me cativa quando a mim registra e me faz desabar. Sou vítima de mim. Mulher legítima sem porte de defesa. Agulha fervorosa em imenso jardim. Propensa à queda. Disposta a vitória. O luto nunca me castiga. Tampouco amarga minha língua. Sou era de viver diversas rapsódias múltiplas e enfrento o rosto ao espelho e carrego apenas uma culpa:

Esta.





nota



Meus amigos todos julgam me conhecer.
Eu não sei de mim.
E quem é você?

15 agosto 2012

três











prematura



Há pessoas que morrem vivas. Não falo da morte física. Digo da morte absurda quando alguém se ausenta aos poucos, às vezes de forma abrupta, de nossos dias. Hora dessas lembrei-me de uma pessoa que me era tão importante e essencial quanto a palavra que escrevo. Era a criatura sem a qual nada mais me valia. Mas perdeu-se de mim. E não posso ser exata ao dizer o momento que percebi este desaparecimento. Esta morte prematura. Sei dizer apenas que nada mais há desta pessoa dentro de mim além da saudade fria de quem observa lápides.




nem gigantes nem formigas



Cultivo rosas porque nada mais tenho a cultivar. O tempo havia, mas passou. A rua desfilava gente, mas agora é atalho. Aviões cortavam nuvens pelo meio. Montes de nuvens espalhadas pelo céu de nossas casas. Havia tudo no mundo. Desde formigas a gigantes trajando ternos. Hoje, nada. Portanto eu cultivo rosas. E meu cultivo é o que existe e para sempre existirá. 




calendário mórbido



Alegra é o nome dela. Éramos íntimos. Hoje, distintos. Tão bela me parece ainda. Mas tão indiferente está Alegra que sutilmente cruza as pernas e sequer me olha. A esperança que carrego é a hora de minha vingança e por ela espero ao dobrar de esquinas. Alegra um dia terá o que merece. E eu poderei enfim sorrir. Esta é a alegria de quem sofre. A espera. O dia após o outro dia. O cálculo de um calendário mórbido que, ao invés de colher a soma desperta, se embriaga em contar as dívidas.










12 agosto 2012

receituário azul









Nunca tive pretensões de ser alguém.
Sempre me contentei comigo mesmo.

(Marcelo Rezende)





Sábado. Noite. Conversa comigo porque estou me sentindo um tanto só (com acento agudo na partitura inferior da pélvis). Só penso bobagens. E, para não mudar o rumo de minhas preocupações minúsculas, estou inadequadamente envolvida com alguém que poderia ser o tal, o escarlate, a letra agregada ao pescoço. A igreja católica só me tem feito favores. Desde o início. E a bíblia me ajuda a me entender. Eu faço exatamente aquilo que é considerado impróprio. Você também? Então somos iguais. Conte-me a respeito de sua vida. Café para dois. Iremos nos beijar agora ou depois? Mas por que nos beijaríamos? Sequer nos desejamos. Sequer nos sabemos. Eu sou viciada nisto de querer o que não quero. Você também? Está ficando cada vez mais difícil a vida quando percebo que não sou diferente de ninguém. Eu me sinto tão pijama e chinelo, tão feijão com arroz, tão domingo e macarronada. E olha que já mudei bastante. Mas vamos ao resumo da semana: cama, mesa, banho e mais banho que cama. Estou doméstica. Dona de casa bondosa com mendigos. Assisto a jornais e varro a sujeira da calçada para a casa do vizinho. Estou (novamente) tentando escrever um livro. Personagem feminina que sofre de nada e trabalha e compra roupas e sente inveja e raiva. Uma trama mal calculada fornicada em chic lit. Talvez eu acerte alguém em cheio. Mas também não sei se é este o meu objetivo. Eu não quero mais acertar. Nem errar. Eu só quero entender como algumas pessoas conseguem se sentir tão serenas. Pessoas serenas e calmas e de paz com o mundo. Enquanto a merda nos engole, eu observo o comportamento de toda esta gente. Se um dia eu me tornar serena e calma, saiba: receituário azul. Pois estarei completamente insana. Ou demente. Tentando controlar o corpo ao completo desequilíbrio da mente.








Every Single Night by Fiona Apple on Grooveshark

05 agosto 2012

desfragmentados











falsa lírica



Se não me faz companhia, tenha o requinte de não me fazer solidão. Estou farta de nascer sempre do mesmo lado de minha cama, de meu ventre, de meu assoalho gasto de estrela alguma. E, por alta voltagem, advirto desinibida: não me escreva em poesia. Não use metáforas, não cause alegorias, não castigue mais meus ouvidos com sua falsa lírica. Não me venha em vão.





bélica aversiva



Em francesa atitude declaro uma guerra lúcida e inevitável. Napoleão me arde os olhos de tanta ambição que me perpetua a carne, a alma, toda a razão. Entre votos de escárnio e honras de minha corrupção eu luto e marco o tempo em meu metálico e brutalizado relógio de brotar remendos e cirzo os rasgos nos trajes de meus solitários soldados violentos. Eles sorriem de mau agrado, ferem ao corte da palavra inoxidável e correm aos campos a exterminarem toda criatura cansativa e agradável (que lamenta, que chora, que cora) que se diz aos ventos para ser ouvida em multidão. E a luta percorre dias entre as perdidas plumas que vulgarizam luas e cavalgam os soldados de meus sentidos enquanto eu açoito faminta minhas unhas, meus planos, minha memória doente das vistas. E a promessa permanece intacta, pois há em mim a misericórdia mundana de desejar ainda e, sobretudo, conservar-me adequada, vulgar e humana.