21 setembro 2012

cria mácula











Eu realmente gostaria de escrever um poema de amor. Talvez eu pudesse suprir minha necessidade de palavras amáveis, gentis, da mais bela forma versadas. Mas me ocorre a consciência. E esta criatura não me permite sonhar. Que dirá o delírio! É ela, a veracidade envenenada em conserva, alimentada por passados tempos falidos, pelas militâncias, pelas madrugadas ébrias, pelo sexo mal dito, pela maconha salivar na boca de tantos, pelos muros dos bairros antigos, pelas alcovas de estranhos, pelas mãos maternas e braços paternos, pela falta de educação e excesso de credos, pelo padre e a batina, a culpa e a cretinice aguda das gerações das quais teci meu rastro, é somente por causa desta cria mácula de meus infernos que padeço mais do que o homem que morre de fome em comércios. Pois não é somente o mal físico que nos mata. A consciência é o genocídio de todos os ideais mais tolos. Por isso não escrevo poema de amor para inflar meu peito de vaidades. Nada mais me arde a não ser o peso de enxergar tudo sob a ótica maior deste demônio destruidor de ingenuidades.










17 setembro 2012

sabotagem












É costume entre as pessoas colocarem coisas na calçada. Coisas sem uso, velhas, quebradas. Sempre haverá alguém que as queira ou que talvez precise delas. Acordei cedo e levei meu cachorro para passear. Não muito longe. Passeio curto de um lado ao outro da rua. Percebi que havia uma mulher cuja profissão é catar coisas no lixo (Desde garrafas a roupas velhas, latas e papel). E lá estava a mulher no meio do entulho. Ela e seu carrinho de carregar restos. Evitei olhar porque nunca estou pronta para sentir algo que me faça ainda mais humana. Fingi não perceber que a mulher estava vasculhando tudo, remexendo aqueles sacos de lixo cheios de comida passada e coisas muito sujas. É de ferir a consciência de qualquer um. De repente alguém perguntou à mulher: "A senhora quer levar essa cômoda velha?" Eu parei. Era realmente uma cômoda velha. Cinco gavetas e, segundo foi dito à senhora que catava lixo, estava cheia de cupins. Era uma cena de novela da vida real. Sem intervalos. A senhora disse que levaria a cômoda. Percebi o quanto ela ficou feliz ao saber que a cômoda seria dela. Inspecionou o objeto como se estivesse em uma loja a ponto de escolher seu bem mais precioso. Ao menos aquela mulher teria um dia melhor, pensei. E, quando eu caminhava de volta ao portão de casa, percebi que a mulher estava enchendo as gavetas com tudo o que ela havia achado no lixo. Roupas, garrafas e muitas latas. E também montes de papel. Mas não poderia esta mulher se contentar com a cômoda e deixar o resto para trás? Não. Ela precisava levar também o que havia de excesso. Parei para observar tudo. Me senti extremamente indiscreta. Mas eu precisava ver o fim da história. A senhora, após entulhar as gavetas da velha cômoda com muito lixo, pediu ajuda a um homem que passava e os dois ergueram a cômoda para colocar no carrinho. E, naquele esforço todo, a cômoda se partiu. Virou ruína. "Eu disse à senhora que a cômoda estava cheia de cupins e que não aguentaria peso", alguém falou. A senhora suspirou e disse algo que não entendi. Catou as garrafas e todo o lixo que caiu ao romper do móvel, colocou tudo em seu carrinho de sobras e saiu resmungando. Eu fiquei atônita. E perplexa. Me senti extremamente triste. Mas por que a mulher não levou somente a cômoda? Por que ela quis tudo? Por que estamos sempre querendo mais do que podemos carregar? Dei de ombros. A resposta me veio cerrada quando entrei em casa e me senti nauseada ao enfrentar a sala repleta de coisas desnecessárias.








09 setembro 2012

varal dos dias











Não tenho mais tempo para ser polida.

(pedra)






Marés



Você está aí? Estou. Que alívio! Pensei que eu estivesse sozinho. Bateu solidão? Não. É drama. Que é diferente de solidão. Entendi. Vamos conversar? Vamos. Você começa. Mas eu não sei como começar. Não sabe? E como veio parar aqui? É a maré. Eu fui trazido pela maré. Sabe quando a gente se deixa levar? É isso. Eu me deixei levar. Se levar pelo quê? Pela maré. Eu já disse. Mas há vários tipos de marés. Qual delas trouxe você? Eu não sabia que havia tantas marés. Mas, já que preciso dizer uma, acho que foi a maré das dúvidas. Por nunca saber, fui levado. E como se sente? Ainda não sei ao certo. Mas isto já é quase saber, não? Não saber ao certo é saber alguma coisa. De onde você tirou isso? Da maré das conclusões. Você foi trazido por ela? Tenho quase certeza que não.





Off Line



Vivemos tempos tão modernos que logo irão mudar as inscrições em lápides e cemitérios. Ao invés de Aqui Jaz ou coisa semelhante, teremos Aqui Off Line Fulano. Partiu pra outra e deixou muita dívida no banco.





Esmalte



No domingo ela morreu. Na segunda cuidamos do funeral. Na terça fui à manicure remover o vermelho das unhas. Na quarta liguei para o hotel que havíamos reservado para nossa viagem à Cabo Frio. Na quinta cancelei as passagens. Na sexta cai num choro descompensado. No sábado evitei o mundo. E muitos dias se passaram e o luto me fez esquecer de alimentar o gato. Não paguei as contas. Não revidei afrontas. Somente no dia em que recebi pelo correio um cartão enviado por ela (um pouco antes de sua morte), percebi que não seria justo me deixar partir também. E, se eu continuasse a renunciar minha vida, sofrendo de forma tão vasta, eu a deixaria morrer duas vezes ou mais. Decidi viver novamente e não me senti como se a estivesse esquecendo. Eu estava apenas continuando do ponto de onde havíamos parado. E até hoje mantenho suas fotos afetuosamente trancafiadas em uma caixa de sapatos.













04 setembro 2012

hemisfério distante








Holocene by Bon Iver on Grooveshark







Há dias em que a melhor decisão é adiar. Tudo. Não se decide nada, não se faz nada, nem uma planta do lugar pode se mover. Ficar suspenso na certeza inerte de que tudo poderá se resolver amanhã. E certamente irá. O tempo não perdoa o que nasce propenso a acontecer. Então é preciso adiar a decisão que poderá mudar o rumo de coisas que podem esperar. É apenas um dia. Um momento. Um instante fotográfico que em algum tempo terá a sua vez na retina de nossos eventos. São apenas 24 horas de espera. Nada pode ser tão urgente que não possa esperar que se esteja pronto para o passo adiante. Há exceções. Sim. Há todas as exceções. Mas também há tempo para que se dissipem a dúvida, a angústia, a pressa de alcançar o outro lado da rua que, por questão geográfica de evidente escolha, encontra-se submersa em um hemisfério distante.

02 setembro 2012

maria-vai-com-as-outras











Don't Rain On My Parade by Bobby Darin on Grooveshark






Difícil é tentar algo diferente quando as pessoas já estão acostumadas a ver você sempre no mesmo caminho. Corto ou não o cabelo? Cancelo ou não o encontro das quartas para fazer aquele curso que tanto quero? Agrado a mim ou aos outros? Digo logo o que sinto ou vivo entupido com medo de me ser? Afirmo minha verdade ou sigo a do vizinho? Estamos sempre entre escolhas e, certamente, por convivermos com tantos amigos e familiares e pessoas quaisquer, tememos o confronto de nos ser dito na cara que aquilo que estamos tentando fazer não combina conosco. Isto nada tem a ver com você! Esta talvez seja a voz de alguém quando você disser que finalmente decidiu fazer algo que nunca fez. É muito comum entre as pessoas ficarem interrompendo umas às outras (principalmente se estivermos falando de amigos). Amigos são importantes. Eles nos fazem sentir mais felizes, mais alegres, eles nos entendem (quase sempre) e nos dizem a verdade quando acham que é necessário. Mas qual será a verdade? Aquela que os agrada ou aquela que nos paralisa? Vejo pessoas viverem suas vidas em prol do outro. E não falo de causas humanitárias. Tais pessoas não mudam de caminho porque serão criticadas. Não vestem roupas diferentes do costume porque causarão susto e amigos não suportam mudanças bruscas. É como se vivêssemos esperando do outro um sinal de alerta ou de permissão antes de um movimento diferente. Sou seu amigo, mas, por favor, se for mudar algo em você, me avise. Não quero imprevistos. E estou falando de amigos que, geralmente, são as pessoas nas quais mais confiamos. Imagine as outras. Aquelas com as quais lidamos, mas que não são tão íntimas a ponto de termos que justificar nossas decisões. Estas empacam todas as mulas do mundo se você permitir não se permitir. Vou me usar como cobaia para esclarecer tudo. Digamos que eu comece a escrever outro gênero. Meus amigos dirão que estou indo bem, mas que eu poderia voltar a escrever como antes. Porque era melhor, entende? Os não-amigos farão críticas construtivas em tom de desastre e dirão a verdade que os ouvidos não se acostumam a ouvir. Isto é ruim de ser lido. E logo estarei me repetindo na forma que sempre agradei. Nunca irei me renovar. Serei a árvore ressecada que se esqueceu de respeitar as estações e não mudou folhas e frutos e nada. Parece bobagem tudo isto. Mas não é. Quantos vivemos na forma exata que esperam de nós e não na forma que nos faça mais felizes? Somos muitos vivendo assim. Enganando nossas verdades mais íntimas para que possamos agradar o grupo do qual fazemos parte. Ninguém quer ficar sozinho e ainda ser criticado. Preferimos não mudar para termos fieis como se fôssemos uma igreja que não se permite outro dogma além do antigo que ainda coleciona seguidores. É uma forma de vaidade contrária. Não fazer para não perder. Não ser para não deixar de ser. Então vivemos congelados, rindo falso e sendo exatamente aquilo que esperam de nós. Permanecemos estáticos morrendo de medo e sendo sempre os mesmos. Até quando iremos nos negar a chance de mudança? Eu não tento responder porque também vivo em bando e os pássaros com os quais convivo também me cortam as asas e eu, por ser igual a eles, também os mutilo. É preciso um pouco mais de liberdade nas relações de todos os tipos para que haja mais espaço para o novo, e que talvez chegue a ser belo e digno de ser vivido. Porque a Maria que vai com as outras raramente vai consigo.