30 outubro 2012

o peso da inexistência










Tão bela borboleta. Suas asas coloridas, seu voo leve ao redor das flores. Talvez seja melhor não vê-la para não sentir na língua esse amargor de inveja. Com apenas um toque de minha mão esquerda e está morta a criatura. No chão. Finjo não ter culpa alguma. Era apenas uma borboleta. Há milhares delas. Não estão extintas. Mas, e se eu continuar desejando aniquilar a beleza que estes seres representam, serei forte o bastante para suportar o peso da inexistência?


(e não renunciaras à cobiça)








Formigas tentam assaltar o pote de açúcar. Com um leve sopro elas debandam. Elas fogem. Covardes. Desobedientes são as formigas. E eu também sou. Desobedeci à regra crucial: distanciamento. Passei a cercar seu campo, sabendo horários, nomes de pessoas, eu sabia até a roupa que você vestia. Insanidade constante em dias de domingo que são os mais longos da semana. E essa saudade? Como faço para alterar seu ritmo e desacelerar seu passo? Alterada está minha veia dramática. Como isso foi me acontecer? Eu, que sempre me defendi tão bem dos ataques aéreos, terrestres, submarinos, hoje sou isto: Catedrática na arte de fazer ameaça em guerra sem bandos. Uma formiga retorna ao pote de açúcar e me observa. Mas como posso saber se a formiga realmente me olha? Enlouqueci. Não continuarei com as perseguições. Optei pela arte da gravura. Cobrirei de fotos um cômodo da casa (imagens suas, jardins, lugares e nossas viagens). Estou tentando esquecer. Mas, para isto, preciso antes enfrentar-me. Saquear-me. Maltratar-me. Tomar um duplo de abuso com pedras de repetição. Todos os dias eu me lembro de nós. Frente ao espelho eu recordo seus atos. Você me olhava fixo para que eu não me desviasse. Mas como eu poderia se estava tão presa ao que se movia dentro de mim? Cheguei a me sentir vulgar ao venerar suas vontades. Detalhes surgem como se eu ainda os estivesse vivendo. Talvez eu conseguisse exibir o que sinto em um território clássico de cama, beijo e puro teatro. E se eu o visitasse? Um café, por favor? Eu poderia fingir não sentir nada. Juro. Prometo. Decreto que não tenho medo de cair de joelhos e implorar por uma reprise de outros tempos. Eu queria apenas encher minha boca de você. Engolir milímetros de tudo que já fomos. Quando nos interrompemos? Por quê? E quem foi o primeiro a abortar o plano? Eu ainda não havia terminado. Para mim era como se tudo continuasse. Pare a cena no início do bombardeio gentil de conversa fiada. Eu nunca acreditei mesmo nas coisas que você falava. Eram mentiras francas, adestradas, camufladas e tão bem decoradas. E eu as adorava. Você mentia e eu pulsava à vontade de tudo: rasgar roupa rente à pele e arrepiar de vertigem as vértebras de minhas necessidades. Era como morrer e voltar mil vezes girando em torno de seu corpo tão absoluto, bruto, quase puro sangue o cavalo marinho de tantos mares em aberto. Uma mecha de cabelos em torno de meu dedo indicador. A pequena formiga saltou no açucareiro. Tento resgatar o inseto. Vasculho o pote de açúcar e não a encontro. Tudo é branco. Tão branco que chega a ser vazio. Outras formigas surgem. Estão marchando velozes em torno do açúcar que deixei cair em minha tentativa de resgate. O que você deixou para trás? O que eu ainda não vivi? Eu penso em tudo que ainda está por vir e provavelmente não irei viver porque a vida causou pane no romance. Que histeria a minha por tão absurda ninharia. Seu amor era regrado, dosado, e o meu era todo, inteiro, possessivo e sem disfarce. Só agora percebo: O meu amor era o ataque.









22 outubro 2012

monotemático









Se a gente não ama, se a gente não fode, que porra a gente veio fazer nesse mundo? Você tá vivendo uma fase tão boca suja. Não é boca suja. É consequência. Digamos que eu esteja inconsequente das coisas que me acontecem. Ele não tinha o direito de sair assim, depois de tudo que eu fiz. Mas o que você esperava? Uma despedida com banda marcial tocando, uma festa, o quê? Eu não esperava nada específico. Mas queria algo. Só não sei dizer o quê. Então não coloque a culpa no cara. Deixe o tempo cuidar de tudo. Tempo? Que tempo? Essa coisa que faz ponteiro de relógio criar rugas na pele. Conhece? Conheço sim o tempo. Não parece. Você fala como se fosse uma menina estúpida que só enxerga o tempo passado. Olhe mais o futuro. Já faz mais de um mês esse seu drama, Lu. Vem cá. Você anda lendo o quê? Por que pergunta isso? Porque você está parecendo um livro de autoajuda berrando no meu ouvido. Será que você pode ficar do meu lado ao menos dessa vez? Mas eu estou do seu lado. Tudo que digo é pra ajudar. Faz tempo que te vejo vivendo essa merda de relacionamento que não te alimenta. Como assim não me alimenta? Você tá chorando? Sim, estou. Eu choro às vezes. Cara, como você pode ficar chorando por coisas tão sem valor? Você só vive disso? Será que sua vida é só essa merda de querer sentir tudo e não olhar em volta? Sabe há quanto tempo eu tô chorando por causa dele? Não sei. E sinceramente não me importo. Eu não aguento mais. O que sei, de verdade, é que você vive atirando pra todo lado e dizendo que se sente carente. Você sempre trai, Lu. Não é traição. Já te expliquei. Só fiz certas coisas pra manter o clima. Você sabe que não gosto de monotonia, tédio... Eu já disse que não aguento uma boca só. Eu tenho essa porcaria de necessidade de ter sempre alguém mais. Tá vendo? Você é maluca. Se não aguenta uma boca só, deixe o cara ir. Deixe que ele viva essa merda de vida também. Você não tem o direito de pedir coisas que você não pode dar. Você não tem maturidade pra isso, Lu. Você entende? Eu entendo. Mas você não pode falar com tanta autoridade a respeito de algo que não conhece. Porque você nunca tem ninguém. Se não posso falar, por que me ligou? Por que vive me enchendo com essas suas histórias? Eu não ESTOU com ninguém porque quero estar só. É minha escolha. Tá bom. Pode parar com o papo autoajuda porque já tô melhor. Tomei uma porcaria de calmante. Tomou o quê? Já disse. Tomei calmante. Vou apagar e, por deus, não acordo mais. Engraçado isso, sabe? O que é engraçado? Nem em deus você acredita, e agora me vem com esse papo de suicídio. Não falei em suicídio. Não? Se entupindo toda de calmante? Coitadinha. E tem mais. Você queria que ele desse o fora. Você só não tinha coragem de dizer. Você não passa de uma menininha que tem medo de perder. Você é uma criança. Quer saber? Eu não vou ficar sozinha aqui. E não quero mais te ouvir com esse sermão. Eu vou sair. Eu quero alguém essa noite e vou sair por aí e andar até dar de cara. Pra onde você vai? Espera. Não desliga. Não sei. Mas vou. Desculpa te encher. Juro que não faço mais isso. Te amo. Fica bem. Espera. Lu. Não desliga. 

─ Ela vai sair e fazer merda. Eu conheço.

(Confuso, arfante, ele pega as chaves, a carteira e sai).

Que roupa? Que porcaria de roupa? Sou uma menina estúpida? Então farei muitas coisas estúpidas. Ela veste jeans. Fica andando de um lado a outro, zonza, sem saber o que fazer. Eu exagero em tudo. Eu erro em tudo. É tanto chute e murro em porta e parede que se cansa e se deixa cair, ali, no meio da sala. Luana adormece e só acorda com alguém batendo na porta: Abre, Lu. Abre a porta. Sei que você tá em casa. Ainda tonta e exausta de chorar por tudo e por nada, levanta, olho mágico, desnorteada, você? Chorando (mais que antes) ela diz "Me abraça porque tô mal". Porra, que medo de te ver fazendo merda com a tua vida. Eu preciso sair. Eu preciso de alguém. Você sabe. Porra, eu só queria que alguém entendesse. A voz, antes tão rouca ao telefone, agora ali, falando de perto, de forma terna, diz:

─ Eu sei que você precisa de alguém. E eu tô aqui.

Se olham (por alguns segundos) e mergulham em um beijo que os faz sentirem confusos, estranhos, iguais, simétricos em tantos sentidos. Imersos um no outro, sem drama, sem fala, se apressam à cena seguinte. A solidão desaparece dando lugar ao que sempre estivera nítido desde o princípio.





18 outubro 2012

pornográfico gentil











Extraordinary Machine by Fiona Apple on Grooveshark






Hoje fiz sexo. Gozei três vezes. Não. Duas. Aliás, gozei uma vez. Ou terá sido metade de uma gozada? Minhas pernas tremeram, revirei olhos, gemi muito, senti frio na barriga e um tipo de cócega lá embaixo. Tudo sintoma de orgasmo. Então, só posso ter gozado. Tudo bem. Não gozei. Mas pelo menos senti alguma coisa. Já posso dizer às minhas amigas que faço sexo e gozo. Meu Deus, que tipo de mulher me tornei? Vazia feito balão de festa e, ao mesmo tempo, preenchida para homem ver. Uma coisinha bem nutrida. Não era assim que me queriam? Pois bem, estou pronta! Depilei as pernas e o canto. Aliás, cantão. Depilei tudo. Arranque cada pelo deste corpo que nunca me pertenceu. Ordenei à moça da clínica estética que arrancasse tudo. Estou careca (de saber que depilação de nada vale se a armadura não estiver tilintando de tão nova). Por isso eu malho todos os dias da semana: bunda, peito, perna, tudo. E sinto dor nas costas (sempre). Eu não consigo mais me abaixar tanto para posar em tantas direções. Prática estranha é o sexo. Tanto nado para chegar ao nada. Não nego amar dar minhas trepadas. Posso dizer trepada ou será melhor foda? Trepada é tão feio. Pejorativo pornográfico. Mas, desde que resolveram transformar camisinha de vênus em preservativo, fazer amor saiu de moda. Eu digo que trepo. E muito bem. Rebolo, reflexiono, vulgarizo tudo, falo sacanagem, cato o homem da próxima e acabo com o meu. Marquei jantar com cliente. Adoro bancário (advogado, contador, desesperado, de todo jeito e cor). Eles fazem cálculo de tudo (falo dos bancários). Adoram calcular a vida. Arrumam cada palavrinha imbecil como se estivessem empilhando moedinhas. E calculam o gasto em contas e, no primeiro encontro, sempre pagam o jantar. Eu fico feito relógio que dá corda: falo tudo decoradinho. Eu agrado muito. Eu sei elogiar homens. Aprendi tudo na Cláudia. Sempre pensei que tais revistas mentissem naqueles testes. Mas não. É tudo verdade. Eu sempre considerei um monte de bobagens aqueles joguinhos de marcar x. Mas funciona. Vai ver os homens se tornaram fáceis de enganar. Ou talvez eles tenham aprendido a se deixarem enganar. Vai ver eu esteja me enganando. Talvez eu não saiba elogiar tão bem assim. Talvez eu precise malhar mais os glúteos. Talvez eu precise de um terapeuta. Eu não aguento mais fingir. Gozei nada. Talvez eu não seja toda esta amostra grátis de sexo libertino e pernas abertas que exibo em minha foto de perfil.

14 outubro 2012

posta-restante










Certa vez me perguntaram:

Mas você escreve aquelas coisas tristes feito a Clarice Lispector?

Nunca calei a boca com tanta força de vontade. 
Na maioria das vezes falo e me defendo e faço guerra. 
Mas, neste dia, sorri e sai e fim de papo.








Futuros amantes by Chico Buarque on Grooveshark








Esperar é um verbo impaciente. Transitivo ambivalente. Fora de minhas gestações. Acordei de sobressalto. Eram quase cinco da manhã. Esquentei leite e preparei café. Ainda era muito cedo para ouvir música. Eu não queria ouvir som algum além dos leves passos de meus chinelos azuis. Acendi um cigarro para pensar. Esta é a desculpa. Nunca digo fumar por vício. Eu fumo para pensar. E pensar me custará muito caro. Com os anos irei saber. Abri a porta e tudo estava em silêncio nas ruas. Ouvi apenas o tilintar da corrente da bicicleta do guarda noturno. Pensei em molhar as plantas e talvez me sentir mais competente por acordar cedo e fazer algo em benefício do outro. Que fosse pela planta, pelo meio ambiente, mas nada que fosse apenas por mim. Pude sentir o egoísmo de minhas palavras da noite passada. O egoísmo de fugir da realidade cogitando culpa no outro quando não há culpado algum. O vaso trincou, o amor acabou e ele me olhou nos olhos (bem abertos) e disse que iria embora. Eu jamais pensei que ele chegaria a fazer algo tão corajoso. Me largar representava um ato de bravura, porque, com esta minha cabeça de achar que sou a única, não reparo que há melhores atrativos no mundo. Sou única em nada. E este gosto de se saber não única pode levar alguém à loucura. Por isso acordei tão cedo. Sozinha na cama de casal coberta com lençol bordado. Para quê tanto teatro nesta vida se tudo é apenas isto: dia, tarde, noite e muitas rupturas? Lembrei-me da conversa que tive com uma amiga. Ela está triste. Está sozinha há tanto tempo que não sabe mais se consegue dividir um cômodo nem que seja com um amigo. Ela me disse sentir falta de amor. E também falamos a respeito da ausência de homens que queiram se relacionar. Não há homens, ela me disse. Estamos perdidas em meio a tantos gays em nossos ciclos sociais. Se ao menos as proporções fossem iguais. Mas há tantas mulheres em busca de alguém. Sorrimos exagerando a respeito dos gays e não há como não parecer homofóbica ao dizer que todo mundo resolveu sair do armário. Ainda não entendo este termo: sair do armário. Mas entendo a sensação de estar em um mundo em que tudo é satisfação sexual e mais nada. Será que é só isto mesmo? Aperto o cigarro entre os dedos e me lembro da imagem dele saindo pelo portão. Eu não me despedi. Não era fim de novela. Era vida séria e de verdade. Vida que dá calos nos pés. Ele foi embora, irá entrar em contato apenas por questões financeiras e papéis a preencher e eu agora tenho que lidar com a realidade: Não sou única. É um gosto amargo este. O cigarro está acabando e penso no fim de linha. O dia está mais claro e sinto a angústia de quem não possui mais do que aquele instante de vida. O ar de meus pulmões está sufocado por este tempo de partida. Eu não o amava mais. Há tempos. Mas faço drama porque preciso de um motivo, uma paixão, algum indício de que ainda existo. Decidi molhar as plantas. Nada mais poderia ser feito. Piso forte com meus chinelos azuis e dou água às plantas. Se depender de mim, o meio ambiente sairá ileso nesta caça de todos contra todos, pouco amor e todo sexo, e tantos armários escancaradamente abertos.