29 novembro 2012

da vaidade dos gêneros










aos gatos
que, embora amanheçam,
permanecem pardos







quadrilátero colorido



Além da linha d'água. Metade voz de um homem – metade peça de teatro. Estarei plagiando ou apenas recriando fatos? Tantas questões anulam dúvidas, querida. Aprenda. Mas o que me incomoda é o estereótipo. O formato escolhido. O quadrilátero colorido das opiniões alheias. Estas que nos aprisionam (castrados, silenciados, oprimidos). E não se engane. Em nossas veias corre isto: Fita métrica e a boca cheia de espinhos.




o gato e a língua



Oswaldo sentia-se só. Decidiu, então, comprar um cachorro, um novo estofado, um par de sapatos e um belo gato. Após ter sua vida preenchida de algo, Oswaldo sentiu-se sufocado, vendeu tudo o que tinha e agora vive de observar os pássaros.




estereótipo



Sou estereótipo. Nasci da boca de alguns e cresci das conversas de tantos. Fui criado para servir de exemplo. Sempre me deformo. Sou ajustado quando calendários mudam e se transforma o mundo. Não tenho língua ou pátria. Falo tudo que por mim transpassa. Herdeiro de muito e nada, aceito o que me é injusto. Calço sapatos quaisquer quando vozes me ordenam pés. Minhas roupas são cerzidas a contento da vaidade dos gêneros. Meus olhos enxergam somente o objeto proposto. Não por mim. Mas pelo outro. Minha boca é de formato único para servir de modelo ao que dizem a meu respeito. Meu corpo inteiro é de momento e, ao passar dos anos, serei sempre outro e este que sou ao mesmo tempo. Aceito o fardo: eu nunca serei eu-verdadeiro.




aos loucos



Todos os loucos deliram. Alguns até falam sozinhos. Há loucos que dirigem seus automóveis (bêbados ou sóbrios). Outros escrevem e mentem e enganam. E há também loucos que deliram lúcidos (estes são os mais perigosos). Comem pães fatiados, trabalham dia e noite, vivem do vinho ao luxo e pagam seus impostos acreditando que estão verdadeiramente sendo justos.




infante maturada



Quando criança eu tinha pavor da máquina de lavar. Aquele imenso buraco parecia me engolir a cada giro no vácuo de seus escuros mecanismos de lavagem. Rio de mim ao pensar que eu sentia medo de um mero eletrodoméstico do qual sempre faço uso. As idades transformam coisas ao passo que avançam. Hoje estou mais contida, menos exuberante e não faço dramas. Sinto apenas medo de tudo e de todos e de alguns rastros de lembrança.












10 novembro 2012

insone esfomeada









Abro o livro e calo meu verbo. Ele se vira na cama. Cobre o corpo como se fosse inverno enquanto o calendário anuncia primavera. Olhe! Uma borboleta pousou em meu braço. Ele diz com a voz embargada que não barganha: Durma! E apague a luminária. Não obedeço. Continuo lendo e sigo com os olhos que precisam ver o voo da pequena borboleta que ainda é criança. Sinto a ânsia de me atrever. Inclino a cabeça para observar seu corpo. Ele dorme. Ergo as cobertas porque preciso descobrir o que elas escondem. Estou cautelosa e rítmica e percebo que o corpo adormecido reconhece minha presença. Insone esfomeada. Eu me altero. Preciso sentir em minha boca o arpão que atravessa peixes. Eu o coloco entre as mãos. O homem suspira em um sono que é leve (seu corpo está desperto). Estou despida e não me distraio. Ouço tiros a duas quadras. Mas a cena está fechada entre nós dois que desejamos iguais. Ele está em meus lábios. Pulsa e se ergue. Engulo o cerne em cheio. Sento ao seu lado e abre os olhos o anjo que é perverso sorrindo e dizendo que conhece meus ataques. Sentimos a mesma fome ou será diferente em cada um? Não quero interrogar. Ouvimos mais tiros. Em um segundo ou dois a madrugada se torna o silêncio de nossa respiração e logo ele está dentro de mim: afoito, translúcido, único. E já não há mais sono. Ele me coloca sobre seu corpo e agora me desfaço em movimentos que não são lentos e que são tão velozes. O arpão está lançado aos peixes. Eu me abro feito livro, asas, janelas de casas. Sou a mulher descansada e trêmula e não nos importamos com mais nada. Sou abraçada, permaneço calada e a luminária que não está apagada nos faz pensar que talvez estejamos em Paris.