24 novembro 2013

vias de fato

















Ontem, enquanto a manicure me fazia as unhas (coisa típica de mulherzinha), percebi uma mulher que estava no salão de beleza. Uma mulher aparentemente jovem. Uma mulher bonita. No entanto, algo em sua beleza estava corrompido. Era seu olhar que estava muito triste. Olheiras cercavam seus olhos. Sua boca estava curvada como se uma tristeza lhe tirasse o prazer de todo instante. E a mulher ostentava um enorme aparelho celular. Gigantesco. Uma tela imensa. Colorida. Em minha ignorância, eu acredito que se tratava de um iPhone. O aparelho emitia sons semelhantes ao tilintar de sinos. A cada aviso sonoro, a mulher se mantinha cada vez mais presa ao aparelho. Ora sorria, ora encrespava o corpo, como se estivesse chateada com algo. A mulher estava vivendo sua vida através daquele objeto de alta tecnologia. O meu celular, que não chega a ser um iPhone, estava em minha bolsa. Eu havia decidido não me distrair. Que o mundo fosse apenas aquele momento: a manicure e o fazer de unhas. Porém, aquela mulher ao meu lado me chamou muita atenção porque, de certa forma, eu me enxerguei em sua atitude e na maneira como ela se detinha àqueles sons e avisos de seu celular. Meu Deus, como ela estava viva dentro daquele aparelho. E, por fora, a mulher estava morta. Sem vida. Para ela o mundo era apenas aquilo: o celular. Percebi que estava usando o WhatsApp (mas o que é isto?). Sim. Eu também uso este aplicativo e muito me custa responder todas as mensagens. Muitas vezes eu procuro não ler para não ter a obrigação de responder. Porque, às vezes, eu não estou pronta para responder. Mas a mulher estava pronta. Assim como tantas outras pessoas estão prontas. Mas para quê? Nunca estivemos tão solitários, eu penso. Nunca, em séculos, estivemos tão unidos por redes de comunicação e, ao mesmo tempo, tão apartados. E nunca tivemos tamanha liberdade de nos exibir (tanto em aparência, como em sentimentos). Isto é perceptível em certa rede social. Que é vício, admito. Até para aqueles que mal publicam palavras, ela está lá. Nós a construímos e fazemos de tudo para que o outro nos veja. O outro é aquele a quem queremos dizer algo ou mostrar que nossas vidas são maravilhosas (ou não). Eu leio o que as pessoas escrevem e tento ser cuidadosa com o que escrevo. No entanto, a armadilha é muito mais esperta que a presa. Quando percebo, eu já publiquei, eu já me mostrei, eu já estou nua diante de quem quiser ler. Nua e solitária, derramando queixas, falando mal do tempo e chamando atenção. Mas por quê? Faço perguntas tolas e conheço as respostas. Nós estamos condicionados a esta solidão quadrada como se fossemos imagens em um porta-retratos. Vejo pessoas escreverem algo que jamais teriam coragem de fazer em vias de fato. Leio ofensas, indiretas, má-criações elegantes, declarações de amor, correntes de ajuda para os famintos, poemas e vejo tantas fotos. Para quem estamos nos expondo? Teremos nos tornado cães engaiolados à espera de alguém que nos compre? Com quem estamos falando? Quem é o interlocutor de toda esta loucura? Quem estará velando nossa solidão? Muitos dizem que isto é liberdade — escrever o que se quer ou publicar o que se tem vontade. Outros dizem que é preciso que isto seja feito. É preciso que se viva cada momento de catarse. A única opinião que tenho é a de que estamos mais solitários que nunca. Em nossas casas, em nossas festas, em meio a nossos amigos, nós estamos isolados e muito ocupados em exibir fotos e cauterizar o tempo com nossos risos falsos. Penso que esta é a minha catarse. Não mandei ninguém às favas, não falei mal do vizinho. No entanto, estou me expondo apenas para dizer que de nada vale o voo de um pássaro cuja liberdade fora engolida por um simples tocar de dedos em uma tela que exibe a vida de forma que nunca será. E todo este novelo me veio à boca quando, ao término de seu tratamento de unhas, a bela mulher (aquela do olhar triste e iPhone em mãos), pediu à manicure que a fotografasse, de esmalte e batom, para publicação no Instagram. A mulher finalmente sorriu. Suas mãos seriam vistas por dezenas de pessoas que também querem ser vistas e curtidas e comentadas por outras dezenas de pessoas. E eu nada posso dizer contra isto. Pois, eu também faço parte do bando de pássaros cuja liberdade é escrava da memória ilustrada em filtros coloridos. Nunca nossa vida fora tão exposta. Nunca fomos tão vistos. E nunca estivemos tão solitários. É isto. 















04 novembro 2013

diário bordô








— Outro livro, Letícia?

— Não é outro livro.

— Então o que é isto?

— É continuidade, pensamento, palavra acumulada.

— Ou seja: é outro livro.

— Sim. Se esta resposta basta, então, é.

— O quê?

— Isto.



Não sei me propagar. Então deixo as palavras nas mãos do Eder Asa, amigo e cúmplice de crimes bárbaros e literários. Deixo que ele diga o que eu não me atrevo. Para saber mais a respeito, clique na imagem da capa.


Diário Bordô e outras pequenas vastidões é o terceiro livro que me arrisco a escrever. É um livro feito disto e daquilo e não o classifico. Prefiro deixar que ele seja lido.

Aos leitores do afeto literário, digo:

Obrigada por tudo.

Logo disponibilizarei formas de compra deste produto (sim, livro é produto). E escrever é uma das mais belas formas de vida na qual eu acredito.



Lançamento previsto para 29 de novembro de 2013.
João Pessoa.
Brasil.







Livro publicado pela Editora Multifoco.
Novembro de 2013.




02 novembro 2013

escambau











Sábado. Ou será domingo? 
Ainda não se sabe,
porque, acima de tudo que é dito,
a sempre algo a ser definido.

 (questão)




Não há mais estórias e histórias. Tudo é com H. Que seja verdadeiro ou falso, não importa mais a letra do alfabeto, tudo é o que é e não há mais jogo de esconde-esconde. Estou tentando colocar isto na cabeça há mais de (quantos anos?). Um dia você está pulando de alegria e, no outro, sem ver nem por que, você está se lastimando. Será que nos tornamos bipolares (algo que, inclusive, me leva ao fato de que todo mundo que age estranho hoje em dia se diz bipolar)? Vamos parar com esta coisa de dar nomes aos bois que nos rodeiam. Não aguento essa de bipolaridade. Ou é sol ou é chuva. Não há meio termo ou metade do caminho. Bipolaridade é coisa séria e se soubéssemos o que sente alguém que realmente sofre deste mal, calaríamos nossas bocas. E por falar em bocas, muitas falam. No entanto, é tanta promessa inválida que ainda me indago: será que alguém ainda cai nessa conversa? Eu caio. Tu cais. E ele, provavelmente, cairá. É tudo questão de verbo a conjugar. Assisto jornal, tento até me ater às novelas, porém a vida real ainda é a história mais ilusória que encontro para bordar meus enganos e construir um castelo de areia enorme no meio do oceano. Rimou? Pois é. Tudo rima, até que se prove o contrário. Estou falando de tudo e de nada porque a vida que me rodeia vem veloz e diz, em tom altivo, que cair na armadilha do inimigo é mil vezes mais belo do que se tornar alvo de mão amiga que lhe empurra para o abismo. Mas o que isto tem a ver com novela? Nada. Ou tudo. Estou na época das dúvidas explícitas que escorrem de minha língua. Eu falo sozinha e me interrompo em meio a minhas indagações. É tanto ‘por quê’ e ‘para quê’ que sequer tenho espaço para meus interrogatórios internos. Pensei que um dia eu iria largar desta mania de me fazer tantas perguntas. Eu estava enganada. A cada dia eu me torno mais e mais interrogativa. E sempre me coloco no lugar do outro para entender os motivos. E não é que entendo? É sempre mais fácil ser sacana do que ser verdadeiro. Assim como é mais fácil viver da mentira e ainda acreditar nela. Tudo isto tem a ver com novela. Ou não. Ainda confusa (odeio esta palavra) encerro esta ladainha que intitulo de escambau. Porque realmente não sei a que veio. Mas veio. E não me atrevo a não falar quando o nó aperta. Não estou ferida. Você também não está. Mas é preciso estar alerta e, no fim de tudo, sorrir de olhos abertos a esperar, morrendo de medo, que a sacanagem plantada por você retorne a quem veio.





Escambau é tudo que escondemos sob o tapete.

(enfim)









26 outubro 2013

belas garotas em calcinhas de renda















A liberdade está de óculos escuros para não tomar susto ao perceber que tudo está despido. A laranja sem casca, o homem sem casa e o tempo entregue ao deus dará. Há dias sinto dores no peito. Penso que devo estar infartando. Morrendo para viver de novo. Mas será que alguém infarta por dias? Será que a coisa não pode acontecer veloz, assim, num piscar dos olhos que exibem a retina? Boa tarde, então. Ou boa noite. Ele diz boa noite ao telefone e sai para comer garotas rotas e burras que vestem calcinhas de renda. Bukowski que não me ouça. E não há por onde começar. Porque não há muito a se dizer. Ou haverá? O mal da gente é achar que outra gente está sempre falando da gente quando, na verdade, tudo é nada com nada. Ouço conversas direcionadas a mim e percebo que, embora algo esteja sendo dito, o interlocutor não está falando comigo. Ele sempre fala para si mesmo. O interlocutor conversa comigo, mas não conversa para mim. Eu escuto porque sou boa ouvinte. Aprendi, aos tempos de silêncio, que ficar de boca fechada é proteção maior do que andar armada. Mãos ao alto e permanecerá intacta a veste do orgulho maior. Orgulho besta de mula rastejar. Ontem, no salão de beleza, que exibe a feiura terna das mulheres burras, percebi que os aparelhos de celular mudaram. E isto já faz séculos. Mas apenas ontem percebi. No início eles eram enormes, depois se tornaram minúsculos, agora cresceram e logo tudo mais explodirá. Será que alguém pode pressionar o botão Stop? Porque esta evolução atrasada me irrita mais do que ouvir vibrato de cantor que tenta se americanizar. Evoluímos no Brasil. Mas onde? Um italiano com quem trabalho me disse perceber que o Brasil o faz lembrar algum país comunista. Ele disse perceber isto ao ver um homem vendendo gelo em uma padaria. Na Europa, há tempos, (50 anos atrás) já havia máquinas de gelo em estabelecimentos comerciais. Aqui, nas terras do pau que nos pariu, gelo em cubos é coisa para ricos que compram geladeiras imensas que passam dias vazias. Veja nossa evolução raquítica. E logo você se arruma, sai, perambula, toma uma ou duas doses de álcool e esquece que terá de voltar para o seu lar doce lar, retumbante e triunfante, o quadrúpede que vive atrasado em séculos de um tempo que nada nos traz de singular. 













Imagem 

06 outubro 2013

cena de teatro







Engraçado é notar que a gente nunca imagina aonde vai dar nossa loucura que pode ser literatura ou arte e que anda pelo mundo. Eu já participei de peças de teatro. E faz tempo. Aos 16 anos. Nunca fui boa atriz. Lembro que escrevi uma ou duas peças em parceria com Fábio Cardoso (amigo de escola). E o tempo passou e eu parei de fazer teatro e comecei a escrever algumas coisas. Aí comecei a estudar Letras e vi: sim, literatura é o meu campo. No entanto, eu nem sabia o que eu iria plantar. Mas daí eu passei a escrever mais e mais, publiquei livros (metida a besta?). E é isto. Sigo escrevendo.







Um dia, um amigo que adoro e admiro e rasgo seda, o Eder Asa, me disse que havia escrito algo para um espetáculo de teatro (ou cena de teatro) e que havia usado alguns textos meus. Fiquei pasma. Como assim? Teatro? Eder é ator e escritor (embora insista em dizer que não). Ele e uma amiga, Maria Luz, criaram o espetáculo A Vida é tão Outra Coisa. Fiquei feliz e super ‘não sei nem o que dizer’ porque a surpresa foi enorme. Hoje, 6 de outubro de 2013, Eder me escreveu (lindamente) e me enviou a sinopse do espetáculo (que participou do 6º Festival de Cenas Curtas de Uberlândia que ocorreu no mês de setembro) e ele também me enviou fotos e uma entrevista a respeito do espetáculo. Infelizmente não pude estar lá para ver o Eder e a Maria fazer vida do que escrevo. Mas li a sinopse, vi as fotos e decidi compartilhar com os leitores do afeto literário. Porque escrevo para todos e com todos. E há carinho em tudo que mostro. E fé na arte que ferve as plateias que a aplaudem.


Segue a sinopse.
Salve Eder. Salve Maria.
Vocês me deram vida.
Eu agradeço e aplaudo.







A Vida é tão Outra Coisa

SINOPSE

Permeados por uma densa atmosfera de tédio e conflito, um relacionamento desgastado, um casal que não se comunica e um ambiente de difícil convivência. Assim, inicia A Vida é tão Outra Coisa, que já na primeira cena traz o existencialismo de Sartre e a existência da mulher que não quer saber de livros. Silêncio. A cena trata de questões humanas e sensórias, vai de encontro ao mais cruel realismo e, em sua pouca duração de cena-espetáculo, soma-se às doses necessárias de lirismo cotidiano. Traz a estética da web-literatura, seus diálogos rápidos e sua verdade crua. Ainda há amor? Falar em amor não é exagero? Você já reparou que todo mundo anda exagerado? Qual é o teu exagero?


A partir de textos e do universo lírico de Letícia Palmeira.

(Sinopse: Eder Asa e Maria Luz)















Enfim.
A vida segue.
E, em tudo, há espetáculo.  








(Todas as imagens foram cedidas por Eder Asa)

05 setembro 2013

democrática espalhafatosa









Como você está? O espelho parece gritar: “Você está ótima, mosca morta. Pare de se lamentar”. Ponto final? Nunca! Porque a gente adora dramatizar. A gente adora um probleminha para escoar junto com o pó de café no começo do dia. Problema é preciso para dar corda a este nó que é vida. Eu busco conflitos como a criança que caça borboletas no jardim. Uma porcaria esta comparação. Prefiro esquecer que a fiz senão somo tudo e acabo louca. E eu deveria estar preocupada com tudo que é real: contas, lucros e dividendos. Eu deveria jogar mais Banco Imobiliário. Mas estou preguiçosa e acompanho somente o tempo: chuva e sol sobre terrenos que entopem vias de acesso aos carros que passam. Decidi largar o vício de observar tudo de perto. Não uso mais lupas de elefantes e neste meu estado quase cego, me sinto melhor assim. Não me arrisco a tatear por cômodos que não pretendo habitar. Por um tempo me dei folga dos labirintos que crio porque minha casa (que é alma) é ampla o bastante para que eu me perca. Eu não dou conta de mim. Papo brabo? Muito. Mas juro que estou tentando não dificultar palavras. Já era o tempo de enfeitar meus campos. Hoje sou o soldado tácito que não se camufla para qualquer luta. Eu estou praticando escolher meus caminhos. Se foi minha terapeuta quem me aconselhou a fazer isso? Não mesmo. Abandonei a terapeuta desde o dia em que ela me chamou de mulher formidável. Nada contra. Mas formidável, em minha opinião, é diploma de filho que segue rastro de família. Eu não sou formidável. E também não sou fórmica. Prefiro Frida que enfrenta o batente a Dorothy espalhafatosa que acredita em mágico decadente.  Então é muito claro: não sou formidável (isto é fardo), depressão ainda está na moda e amor é química e pura política. (Visto que) eu amo de forma democrática tudo que ladra, tudo que cora, e adoro o homem que me dilui em afetos e muita conversa jogada fora.

Parafraseando:

Fale merda
Mas fale de mim, meu amor.

E a respeito de minha terapeuta, creio que ela esteja bem, ganhando dinheiro e tratando de outras mulheres que, como eu, buscam cisco nos olhos que não têm. E ainda penso na Estátua da Liberdade. Sempre lá, parada, coitada, fincada. Estátuas não chegam a lugar algum. 












12 agosto 2013

imã de geladeira









Você precisa saber da piscina
Da margarina, da Carolina, da gasolina
Você precisa saber de mim.

(Caetano)







Dizem que agosto é mês de desgosto, mês do cachorro louco, mês do azar. Mas de qual azar estaremos falando especificamente? Porque, de azar, estamos cheios até o talo. Vivemos em um país chamado Brasil — mulata e funk em noticiário. Para mim, isto já é o necessário. Porém, há mais. Mensalões que deram em nada; político, de cara lavada, ganhando sempre às nossas custas, partido trabalhista que se torna elite (da noite para o dia?), e houve também manifestação que, repare não, mas é fato, deu em nada, além de algumas vidraças quebradas. O gigante enfartou. Mas isto é apenas assunto comum. O que realmente nos incomoda é a ressaca de um sábado em que a gente encheu a cara e perdeu a dignidade, servindo nosso sexo em bandeja de metal falso. Isto nos incomoda. Todo o resto é cisco. O cego prefere o óbvio a enxergar o real obstáculo. O mal verdadeiro é o marido que trai, a mulher que, de moderna, só tem a casca ou o namoro gay liberado que a gente defende, mas, ainda assim, não respeita. Nós adoramos nossos preconceitos. São nossos deuses. Eles nos sustentam. E, desta forma, vamos nos perdendo em nossa crendice de achar que azar é morrer. Eu não sei o que é azar. Sou imatura para tais assuntos. Mas sei o que é uma tendinite no braço esquerdo e uma tipoia que afirma, com muita segurança, que estou começando a chegar ao fim. A gente nasce pavio de queimar e, um dia, chama que cessa. Que triste! Que nada! Levante a face e sorria: você está sendo filmado. O tempo passa e logo será fim de ano e as lojas estarão vendendo, a preço de pele humana, roupa costurada por asiática, embalada em enormes caixas e etiquetada por grandes nomes da moda. É de rir. É de viver a vida. Deixe o azar de lado. Não nos queixemos. Esqueçamos. E hoje ouvi a voz de deus que é a voz do povo. Às seis da manhã, cheirando a aguardente, deus me dizia que anda injuriado com sua família que não o deixa beber até raiar o dia. Deus é quem sabe de tudo. A gente só imagina que sabe. A gente apenas segue o fluxo.













15 junho 2013

bukowski










Um alemão que se tornou americano e sobreviveu aos anos mais decadentes dos States e seu universo de grandes talentos hollywoodianos.


Comecei a ler Bukowski há dois anos (ou mais — eu nunca lembro a data exata). Refiro-me a ler de verdade. Antes disso, eu apenas lia alguns trechos escritos por ele e considerava que aquilo havia sido escrito por um grande ESCRITOR. Mas eu estava enganada. Bukowski, ou Hank, como costumam denominá-lo, não era somente escritor. Ele era homem. Escrevia como homem e falava como homem, civilizado e cafajeste. Sempre verdadeiro em sua prosa ou em seus poemas, o velho safado diz exatamente aquilo que está entalado. Estou falando de mim. Pois eu busco escritores de acordo com minha necessidade de entender o mundo. Ou, talvez, esquecê-lo de vez.

Em meu último aniversário ganhei de uma amiga o livro Amor é tudo que nós dissemos que não era, organizado e traduzido por Fernando Koproski. Não o li de imediato, assim como fiz com outros livros do Bukowski. Este eu deixei esperando por minha leitura. Livros também têm seu tempo, acredito.

Decidi começar a leitura semana passada (junho de 2013 — em casa — na varanda). Trata-se de um livro de poemas. Poemas? Esta interrogativa sempre me inquieta porque eu leio poemas de todos os tipos e tamanhos. Porém, em Bukowski, não é poesia. É toda a vida. Escancarada e dilatada. Nunca um poeta me cativara tanto quanto o Hank.

Em Amor é tudo que nós dissemos que não era há comparação entre pessoas e flores, mulheres e tulipas, cavalos de corrida e toda gente que anda pelas ruas. É um livro vivo (assim como tantos). O homem Bukowski me fascina a cada leitura porque não teme. Ele se diz e não espera aceitação. Ele mesmo se dignifica em sua poesia denominada marginal. Não há regras na poesia bukowskiana. Aliás, há. No poema Então você quer ser um escritor?, ele diz:

"Senão estiver explodindo em você
apesar de tudo,
não faça."

Este é o conselho do senhor ébrio aos que desafiam o ato de escrever. "Se a coisa tiver de ser polida demais, não faça. Se tiver que usar dicionários, não escreva". Assim como no poema Roll the dice, Bukowski encoraja mostrando o que há a se perder e ganhar. E ainda fala a respeito de escritores que buscam a literatura por fama ou por aqueles que buscam mulheres para sua cama. Eu me deleito e sorrio ao ler Bukowski. Porque, além de ser um marco da literatura contemporânea e blablabá, ele diz tudo o que eu preciso (e gostaria de) dizer. Mas será este meu objetivo ao ler um livro? Creio que não. Eu leio livros para saber mais a respeito de mim também. Bukowski não escrevia apenas para escrachar uma sociedade cheia de escritores comedidos, engajados, que bebericavam espumante em festas elegantes. Ele falava (ou fala) do cotidiano que fere tanto ao ponto de causar cegueira. Porque muitos fogem da realidade (e não adianta dizer que existem várias realidades — só existe uma — que é esta — acordar, trabalhar, trepar, mentir e, com sorte, ter algum dinheiro para futilidades). O poeta-romancista Bukowski também fala de amor como quem fala de algo que existe. Ele não foge em lirismos excessivos. Ele não cria belas musas. Bukowski, em seus livros, ama a mulher comum, engordurada de tanto cozinhar, fétida de cigarros ou bebida, e desamparada por si própria ou pelo marido (que seja). Mas é a mulher que pisa no chão. Não há delicadezas excelentes e celestiais em sua poesia. Há sexo e saliva. Há pênis e vagina. Há tudo que se esconde em casas de família. Eu me recomendo uma dose de Bukowski todos os dias. E sem gelo (que é para aguentar a vida).




E termino com um verso do poema Uma Definição.

"amor é o que você acha que a outra
pessoa destruiu"

(Bukowski)


Ou seja: a culpa é sempre alheia.
É isto.













26 maio 2013

pó de estante











Parei de comprar livros. Por enquanto. Eu costumava comprar muitos livros e olhá-los, capa por capa, edição por edição, consumindo-os pela espessura e pela impressão das páginas. Tornou-se um vício comprar livros. Sempre que eu entrava em uma livraria, eu comprava um livro. SEMPRE. Até o dia em que percebi que, da estante de minha casa, embora muito modesta na quantidade de autores, estava se tornando um lugar de acúmulo de poeira e vozes. Porque os livros falam. Às vezes, até gritam. Os meus berravam. Estavam berrando por leitura. Eles precisavam de alguém que os conhecesse. Livros são como pessoas que não podem permanecer nas sobras do inédito. Que não podem permanecer no anonimato. Então, passei a ler em um ritmo frenético. Um livro após o outro. Eu já havia lido Lavoura Arcaica, do Raduan Nassar. Mas reli. Algumas vezes, quando sozinha em casa, li em voz alta. E, assim como perfume, que às vezes nos remete a outra época de nossas vidas, livros também o fazem. Lavoura Arcaica me levou de volta ao tempo em que visitei o Engenho Corredor, uma das moradas de José Lins do Rego. Embora a Lavoura não fale do menino do engenho, ao ler Raduan Nassar, voltei à casa em que estive por algumas horas com minha família. Em Pilar, no interior da Paraíba. Lembrei-me do cheiro da vegetação úmida da época, do interior dos quartos vazios lotados de morcegos, dos lavabos, do curral abandonado. Um livro me levou a outro lugar. Claro que todo leitor sabe disso. Livros são viagens. E é claro também que todo leitor tem seu costume, sua forma de ler e absorver o que é lido. E todo leitor faz a viagem que necessita. É assim. Ler é para quem necessita ir a outras paragens. Ou conhecer lugares criados por si mesmo. Eu crio, a cada livro que leio, uma atmosfera de minha vontade. Toda leitura é um estado livre. Darei exemplos do que falo. Ao ler Madame Bovary, é como se me vestisse de chapéu de luvas. É como se tomasse chá em grandes salões lustrosos. Ao ler Noites Brancas, de Dostoiévski, me senti como se ele estivesse ali, me observando. Um homem de bigode fino e enrolado nas pontas. Um homem apaixonado e desiludido. A náusea, um de meus livros favoritos, me fez e sempre me faz voltar a entender o que digo ao ver o mundo como está e a forma como as pessoas reagem a tudo. Com a pequena diferença de que hoje entendo mais as pessoas do que a minha náusea. Sartre me fez rir em muitas páginas de seu livro porque me entendi de alguma forma. E, ao me entender, passei a mudar. Era preciso. Eu não poderia viver a vida inteira sentindo-me mal ao lado de meus semelhantes. Coisa que Martha Medeiros talvez tenha dito: "Escute aqui: ninguém é melhor do que ninguém ─ somos apenas diferentes". Ou talvez Lacan tenha dito isto. Talvez tenha dito de forma diferente. Não sei. Mas alguém já o disse. Eu levo muitas tapas na cara ao ler Clarice Lispector. Seus personagens são exímios na arte de dar sermão sem que pareça um sermão. No conto Feliz Aniversário, a velha senhora, sentada à cabeceira da mesa,eu tenho certeza: ela fala comigo, e não somente com os personagens. Sou eu quem está ao lado dela, tratando-a como se fosse um vegetal e falando asneiras. Até o ponto em que ela abre a boca e diz que está viva. E que sabe tudo. Saber é coisa para os mais vividos. E para os que leem, acredito. Outra coisa que tenho com os livros: eu monto atmosferas para cada autor. Sei que muitos fazem isto. Apenas em olhar a capa de um livro e ler o nome do autor, me transporto para um lugar que talvez nem tenha existido. Mas que existe dentro de mim. Virginia Woolf me faz vê-la sempre à janela, cortinas esvoaçantes, em um quarto confortável e cheio de questões a revolver. Como pode isto? A própria Clarice Lispector me leva sempre a uma casa, sutilmente mobiliada, poltronas de encostos altos e assoalhos brilhantes de tão limpos. A existência de cada objeto me faz percebê-los em minhas leituras de sua obra. Drummond é um relógio. Sempre em ponto, sempre alterado. Um relógio de corda que, ora para de funcionar, ora toma fôlego e continua. Mario Quintana é o senhor que está sentado em um banco de praça, sempre a olhar os outros com muita calma, esboçando um sorriso sábio nos lábios. Lygia Fagundes Telles é pontiaguda como as obras de Picasso. Ela cria os cortes em suas cenas, para depois explicá-los e, por vezes, nunca se curam as feridas das leituras de suas obras. Como em As Horas Nuas. A mulher alcoólatra ainda sofre seus males, sentada em sua poltrona. São tantos autores. Gullar. Eu o li. Poema sujo. É pura umidade de desejo, poesia de tom urbano e tão acelerado em traduzir-se. É um dicionário de pulso firme. Graciliano (não o li tanto), mas é família inteira, em quadro dependurado em sala de estar. Há outros. Há sempre mais. Caio Fernando Abreu é música e a danação cosmopolita das ruas de São Paulo. Um homem fumando cigarros. Ana Cristina Cesar é jazz. Eu leio e ouço a voz do jazz. Do partido. Do coração inflamado que visita a Europa com os pés. Sylvia Plath caminha com Ana Cristina Cesar, muito embora não façam parte da mesma escola. E não por terem dado fim a suas vidas. Mas por amarem seus poemas em arritmia cardíaca. Eu ouço o coração descompassar ao ler os poemas dessas duas mulheres. E bebo gim. E há Edgar Allan Poe que é uma porta fechada em todo segredo. Uma porta enorme, de madeira muito antiga, pesada. E, quando aberta, há teias de aranha e outro homem de olhos arregalados, espreitando quem o lê. Goethe e o seu Werther são sempre luz de vela e amor. Jane Austen me remete a uma mulher de finos modos, voz mansa e, por baixo do longo vestido, um segredo feminino que hoje em dia está em muitos livros. Jane Austen me faz amar em silêncio. Quem mais? Quem tanto? Cortázar é a cena do abstrato e bancos para que se sente a plateia curiosa. Dos livros de Cortázar, entre os que eu li, não por ele ter escrito, além de outros livros, O jogo da amarelinha, mas é prosa e poesia em tons matemáticos e arquitetônicos. É andar com loucos e voltar são. Katherine Mansfield é sábia demais para se deixar montar em meu cenário. Mas eu a leio e carrego ovos para preparar um bolo que será servido com chá para algumas amigas que conversam, mas não se olham. Há outros. A estante está berrando. Bukowski, uísque, cigarros, pergunte ao pó e ao John Fante qual o caminho mais rápido para o engano. A estante berra em tantas vozes. Eu preciso ouvi-las. Dar atenção a elas. Mesmo com este tempo louco de nunca ter tempo, eu me empresto alguns minutos e leio. Porque não há outro caminho para ver o que vejo. Respeito meus livros como quem "acolhe seu único amante". Clarice Lispector? Creio que sim. Mas há também um quê de todo autor em toda estante.


Voltarei a comprar livros.
Sim.
É um vício.