21 janeiro 2013

das horas bêbadas











Ele saiu de casa dizendo que voltaria. Mas nunca voltou. Sei que isto se parece com a história do cara que sai pra comprar cigarros e não retorna. Talvez seja. Talvez ele esteja em algum lugar desse planeta, fumando e contando mentira. Porque ele mentia. Mas era mentiroso mesmo o homem. Dizia que a coisa era de um tamanho e, quando eu me plantava pra ver, era de outro. Dizia também que o pai era coronel e que a mãe era letrada e sabia tudo de gramática. Quando chegou tempo de conhecer a família dele, vi: o pai era pedreiro e a mãe não sabia dizer sequer o nome do próprio filho. Eu nunca tive preconceito com isso. Tratei bem a família. Os irmãos eram feiosos e tristes. Era feito gente magra que sofre de seca. E ele tinha muitos sobrinhos. Todos iguais aos irmãos, magrinhos e entristecidos. Que tanta tristeza era aquela no olhar daquele povo? Houve um tempo em que comecei a entender. Foi quando morei perto de sua família por dois meses. A proximidade com certas coisas faz com que a gente ganhe a capacidade de entender. Mas daí a gente se mudou e eu não pensava mais neles e acabei esquecendo a dor que eles sentiam. O homem inventou mais uma de suas histórias e nos mudamos para outra cidade. Deixei meu emprego pra ficar com ele. Se aquilo não era amor, não sei de nada do mundo. Era tão imensa a necessidade de ficar perto do homem que fui vivendo, cada vez mais, uma vida que o coubesse. Me afastei de minha família, de meus amigos, de minhas atividades. Na época em que nos conhecemos eu costumava cantar no coral da igreja. Hoje sei que, se há um lugar certeiro para encontrar o diabo, é dentro de uma igreja. Foi como uma fisgada quando eu o vi. No peito. Senti tonteira, boca seca, olho vidrado varando o homem de bigode fino e conversa longa. Uma semana depois já estávamos morando juntos em meu apartamento. E o homem, muito espaçoso que era, fez de minha casa o canto dele tão veloz quanto um rato faz seu ninho no quarto de dispensa. E eu não reclamei de nada. Aceitei. Ele me tomava de conta: dos pés à cabeça. Era tão habilidoso em sua lábia que passou a controlar meu dinheiro, meus horários, minha vida toda. Porém, não irei agora dar uma de contrária e dizer que me arrependo. Me arrependo de nada. Ele só me controlava porque era isto o que eu precisava. Era o que eu queria. E o amor que eu dizia ser tão grande só era grande porque eu acreditava que fosse. A gente cria coisa na cabeça e a coisa consome a gente. Agora, com todos esses anos passados, sei que o amor foi criado e permitido por mim. Assino embaixo. E ele não me deixou. Fui eu quem o deixei partir. E ele nem mentia tanto assim. Eu mentia mais. E ainda minto. Porque, o tal homem, de conversa longa e bigode fino, jamais existiu. É tudo cria minha. É tudo história besta que conto aos amigos nas horas bêbadas de fazer chorar de rir.











7 comentários:

Bruno Oliveira disse...

Aprecio essas narradoras piadistas! A anedota virou algo viral ultimamente. Mas quer saber? Vai ver até a mentira é mentirosa. É num momento ébrio que a verdade costuma nos agraciar com um sorrisinho sincero e faceiro. ;)

Marcelo R. Rezende disse...

Mas tá lindo isso daqui. Fiquei com dó da guria, ter que inventar as coisas pra poder ter algo. Mas depois fui buscar na memória e percebi que já fiz isso. Segundo minha mãe, a gente só se emociona com aquilo que interfere na vida da gente, do contrário não seria emoção, só falsidade. Tô com tua guria e não abro.

Thales Nascimento disse...

Creio que quem nunca inventou, tambémnunca amou... E as invençoes bêbadas são ainda melhores, e piores também, rsrs. São mais livres,eu acho. Massa! Gostei.

Tamires disse...

:)

Darlan disse...

E tem amor maior que inventar seu próprio amor? Ah, tem não...

Thomaz Ribeiro disse...

Nada mais Fernando Pessoa que este seu texto aqui. Realmente a arte é a mentira que nos liberta de ser verdadeiros.
Abraços.

Antônio Lira disse...

Muito bom. "A eterna contradição humana".