08 fevereiro 2013

crisálida transparente











Tudo estava lento. A agulha da costureira, o fecho das torneiras, o pão da fornada das tardes, a voz do vendedor de redes, o arrastão que movia peixes, o motor do automóvel, a velocidade da ratoeira, as folhas não tombavam das árvores e a água cessou de matar a sede porque ninguém mais buscava beber. Era um tempo devagar e manso, de letreiros apagados e esquecidos, de rua sem gente e relógio sem marcar instante algum. Nada quebrava aquele silêncio. Tudo era mudo. Tudo era estático. E, para a surpresa de todos, embora não houvesse luz, não estava escuro. Era o começo e não o fim do mundo.



...



Perguntam-me por que estou mudada. Você está diferente. Um amigo me disse que estou diferente. Você parece distante, disse este amigo em seu tom de desespero por me ver tão silenciosa. Tentei fazê-lo entender que o que para ele era mudança, para mim, não passava de continuidade. Eu não estou mudada. Aliás, talvez eu esteja. Não me sinto velha, nem jovem. Não sinto febre, nem fome. Será que morri? Prima em mim a ideia de que todo ser vivente, para estar realmente vivo, sofre de alguma paixão consumida e, caso se encerre isto, tudo morre. Acredito que estive errada. Errante por horas. Eu não morri. Estou tão viva quanto sempre estive. O que realmente mudou é que agora busco sentir singular o que antes meu desespero não me deixava sorver em grãos. Eu queria comer todas as frutas do cesto. Eu queria todas as cores nas roupas. Eu desejava todos os olhares das festas. Eu explorava todos os mares da terra e mal sabia nadar em meu aquário de porta e janela. Eu queria carregar o mundo nas mãos, as bocas nos seios, enquanto a fome líquida me consumia e eu pensava não sentir pavor de portar em mim tantos anseios. Então, acordei um dia muito breve que não durou mais do que ele mesmo e, percebi, ao me olhar no espelho, que havia em mim apenas aquilo que há em todos: um ser infestado de desejos. Hoje sei que eu não mudei. Sei apenas que ser alguém nos leva muito tempo. Estou apenas no início de meu entendimento.



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Distinta é a vida da pedra que não nos permite ultrapassar caminhos. Cansados não estão os pés que insistem em seguir. E gasta é a mentira do passado que tenta atingir alvo antigo. Necessário advertir: duvidar desde o princípio.











5 comentários:

Cyelle Carmem disse...

Lindo, lindo, lindo!
Ótimo para meu momento...

Paula Barros disse...

Eu li. Eu aprecio a sua forma de escrever, de colocar as ideias nos textos. Eu me identifico, eu gosto.

Marcelo R. Rezende disse...

Duvidar e insistir. Transpor. Mudar. E ser!

Beijo.

Anônimo disse...

Como é incrível tua escrita, Letícia! Um dos melhores textos! Parabéns e obrigada!

Daniela Delias disse...

Eu li há alguns dias atrás, Letícia. E não consegui comentar (tudo tão lento), mas queria muito... o primeiro texto é especialmente poético. Tão cheio de imagens incríveis! Enfim...

Escrever um comentário para dizer que se está mudo não dá certo, né? rs...

Beijo grande!