19 fevereiro 2013

diálogo de coisas











Não te faz lembrar um pub inglês?

Nunca estive em um pub inglês. Não estamos em Londres.

Você não consegue fingir por um minuto sequer? Fingir que concorda comigo ou que estou me adequando?

Mas eu estou fingindo.

Fingindo o quê?

Fingindo que nada me comove. Estou me esforçando para fingir que estou ilesa.

Você diz coisas que não quero entender porque me parece tudo uma forma de ataque. É como se você quisesse estar sempre superior.

Mas como posso estar sempre superior se me proponho a dizer que finjo? Fingidores, geralmente, são os mais inferiores dos seres.

Tirou isto de algum livro?

Nem tudo vem dos livros. Há coisas que vem da convivência com outras coisas. E coisas, para mim, são todas as coisas. Não faço exceções.

Sou uma coisa?

Sim. Você é uma coisa. E estou tentando não observar intimamente seus detalhes porque não quero ter contato completo com suas dimensões de coisa.

Isto é filosofia.

Isto é nada. Esqueça teorias. Me fale mais a respeito do pub que não é inglês.

Para conversar com você preciso beber.

(Uísque sem gelo. Por favor)

Por que precisa beber?

Porque me nego a estar sóbrio diante de suas dimensões. Você também é coisa.

Sou. Eu nunca disse o contrário. Eu sou coisa como toda coisa. Diferença nenhuma.

Entendi. Apenas me diga sobre o que quer falar.

Eu não sei. O convite foi feito por você. Se acabaremos a noite bêbados tentando decodificar coisas ou tentando devorar um ao outro, não é de minha escolha.

Por que se deixa tão submissa?

Submissão nada a tem a ver com isso. Estou apenas dando a você a chance de escolher. Agora estou abrindo exceções. Veja só. Acho que amadureci, dando ao outro a chance da escolha. Sou outra. Eu não sou mais eu.

Você é tão você agora. Mais do que em qualquer outro momento. Não percebe?

Por que diz isso?

Porque está se encolhendo em si mesma, fingindo controle, tentando manter lucidez a cada palavra.

Mas eu estou lúcida.

Você nunca esteve lúcida.

Tudo bem. Me fale apenas do pub inglês. Qual a origem do termo pub?

Que importa a origem? Pare de se retrair como se fosse um inseto medroso.

Insetos se retraem?

Sim. Principalmente quando observam a luz bem de perto.

Pensei que a luz os atraísse.

Eu também. Mas mudei de opinião vendo a forma como você está agindo, toda cheia de receios.

Mas todos nós temos receio. Vê o homem de camisa azul? Aquele que joga sinuca? Ele tem receios. Ele manuseia o taco, observa o alvo e receia perder a jogada. Você, desde que chegamos a este pub, que é um bar, vagabundo e lotado de vazios, sente receio de que eu vá embora e o deixe falando sozinho.

Você se sobrepõe a tudo. Você se ilude acreditando que está sempre na posição mais alta do mundo. Você é minúscula, sabia?

Eu sou. Assim como toda coisa que tenta crescer e se fortalece de sua própria fraqueza. Sou minúscula.

Preciso beber mais.

(Outro uísque)

Não vai beber?

Não. Eu quero estar lúcida (de álcool). Já me embriaga demais sua presença.

Finalmente você está se liberando.

Por que finalmente? Não percebeu que desde o primeiro instante, desde o telefonema, que já me pareceu tardio, me rendi ao contato com você?

Sente medo de mim?

Não é medo. É receio.

Receio de perder a jogada?

Na verdade, eu tenho receio de sentir (de novo) o que eu nunca senti.

Este também é o meu receio.

Porque não estamos em Londres, entende? Porque não saí para elaborar teorias em um pub. Porque eu cedi ao que mais me assusta.

Então é medo? O inseto fugindo da luz.

Não. A luz é quem se afasta da criatura.

E o que faz o inseto quando busca aquilo que se retrai?

Não sei. Talvez apenas procure saídas. 

Você acha que coragem é o contrário de receio?

Em algum aspecto, sim.

Que inseto você quer ser?

Nenhum. Porque eu não sou o inseto.

Outra teoria?

Não. Agora eu estou falando a verdade. O inseto é você.

Desde o princípio?

Desde o primeiro gole de uísque.

A caça se volta contra o caçador?

Prefiro dizer que a teoria explica mais aquele que a cria do que a coisa estudada e específica.









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