13 abril 2013

solúvel


















Você sabia que há uma banda de rock ensaiando na rua de trás? Venha tomar café. Vamos ouvir rock. Isso é tão anos 80. Olha lá. Deve ser atrás daquela casa o ensaio. Não é rock. É gospel. Não sabe mais diferenciar coisas? Não é gospel. É rock, Perpétua. Não me chame de Perpétua. Por favor. Okay, okay, okay. Não te chamo mais de Perpétua. Aceita um café? Desde quando me pergunta coisas? Sim, eu quero café. Você sabe que eu quero café. Não há necessidade de me perguntar. Cara, será que você pode ficar bem só por um minuto? Eu estou bem. Este é meu estado de estar bem. Respeite que será respeitado também. Coisa mais hino de país, Helena. Você já teve discursos melhores. Isto não é discurso. É clichê confesso. Réu confesso? Bem assim. E o café? Está bom? Isto não é café. É água e pó. Solúvel não faz a minha. Gosto do café moído. Na hora. Isto não é café mesmo. E a tal banda da qual você falou está tocando gospel. E não rock. Como sabe? Consegue ouvir a letra daqui? Não. Mas conheço acorde gospel de longe. É muito ré e lá menor. Não entendo você, Cecília. Você tem problema sério com meu nome, não tem? Problema nenhum. Só não me agrada estar com uma mulher que tem o mesmo nome de minha mãe. Me sinto estranho, sabe? Por isto mudo seu nome. Você é doente. Muito doente. Okay. Sou doente. Agora beba seu café. Eu não quero café. O que quer, então? Eu quero transar. Mas assim, no meio da tarde, no meio de nossa conversa? Que conversa? Isto não é conversa. Estamos apenas nos socando. Como se faz com aquele socador de sementes. Bem na cabeça e tudo se esmaga. Júlia, por que precisa tanto se ferir? Não estou me ferindo. A verdade é que eu estou atolada na realidade e preciso de algo que me tire daqui. Eu só vejo realidade. É o meu funeral todo dia que acordo e durmo. Estou farta da realidade. Por isso você está sempre me agredindo? Não é agressão. É uma forma de pedir ajuda. Mas você é burro, assim como tudo que vejo na realidade. Você é exato como aqueles prédios pontiagudos construídos perto do mar. É a realidade contrastada. O que quer de mim? Quer que eu saia e quebre a cara dos caras que estão tocando música gospel? Quer que eu chame você pelo seu nome de verdade? Quer sexo? Não agora. Não mais. Quero apenas que minta para mim. Minta aos montes. Me faça acreditar em todas as mentiras. Está mesmo disposta a não enxergar a realidade? Eu preciso não enxergar. Então, beba esta merda de café e aguente tudo, Lívia. E, depois, faremos sexo fora de moda. Na cama, nos enchendo de beijos, olhando o céu e as estrelas. E tudo isto ao som da banda de rock da rua de trás. Me parece boa sua mentira. É só realidade nua, Olívia.