19 maio 2013

a larva e a mariposa









Lembrar de certas passagens.
Fechar os olhos para ver no tempo.

(flor de sal)





Carta? Pra quê? Eu não vou ler. Aliás, eu vou ler. Mas o que irá mudar em mim acaso eu leia? Eu não quero palavra alguma. Conheço bem. Ela escreveu um monte de coisa e muita bobagem na tentativa de me ter de volta. Mas ela nunca me teve de verdade. Prefiro dizer que não aconteceu isto. Eu não vou ler esta carta. Envelope surrado de tanto tempo que passou enfiado no bolso. Tanto tempo esperando para ser lida. É só uma carta. Vou deixar de lado. Não quero ler. Não preciso. Pela espessura do envelope a carta deve ser curta. Uma folha. Vou colocar contra a luz. De repente consigo ver algo, uma palavra. De repente acabo descobrindo o que tanto ela tem pra me dizer. Já não basta ficar lembrando? Não basta? Eu lembro sempre. Aquele gosto de azul na boca. De bebida azul. O que eu fiz? Por que construí isto? E por quê? Não quero mais analisar. Os seios. Eu me lembro dos seios. O que eu buscava? Eu os tive nas mãos. E na boca. Ela pedia. Com os olhos. O tempo todo. Eu dei apenas o que ela me pedia. Por carência minha? Sei lá. Tenho tanta coisa pra pensar, tanta coisa minha pra resolver. E agora esta carta no caminho. Se eu não ler, vou me sentir mal. Eu me conheço. Conheço? Ela beijou tanto a minha boca naquele dia. A gente se engolia. E parecia tão normal. Era normal? O ruim era me sentir traído. Eu sempre me traía. Eu não era quem eu sou. Mas eu gostava. De alguma forma. Muito besta aquilo tudo. Dou risada. Eu toquei o corpo dela como se conhecesse. Não foi a primeira. Mas era a primeira. As outras não contam. Nunca fui tão longe. Tão longe de mim. Ela sorriu naquela noite. Sorriu sacana e tão romântica. Aquela porra. Dirigi tanto tempo (sei lá como) com ela ali, curvada, debruçada, me tocando. Odeio pensar nisso e amo me lembrar disso. Me sinto sujo e limpo. Ao mesmo tempo. Me sinto outro e me sinto eu. A larva e a mariposa. Tão delicada me tocando. Tão diferente de tudo. Embora eu não sentisse o que geralmente sinto. Não era físico. Era afeto. Era alma. Eu sei que era alma. Arranquei a roupa dela inteira e me deixei. Larguei meu medo e acho que eu sentia amor e tesão. Eu me senti louco. Eu a queria tanto. E não queria. Eu a queria dentro de mim. Eu queria estar dentro dela. Mas não daquela forma. Ou talvez fosse daquela forma. Eu sei bem o que eu queria. Hoje eu sei. E não foi nada comum. Não foi como eu disse. Eu menti. O corpo dela estava todo ali, com a alma dela inteira e intacta em mim. Corpo e alma em mim. Nunca antes eu havia sentido aquilo. Ou havia? Acho que não. Por isso tenho medo. Ou será orgulho? Eu não posso ter sentido. Tenho vergonha de ter sentido. Me armei sobre ela e depois ela se armou sobre mim. Dois em dois. Cada um mais egoísta e mais louco. A gente se amava e não se amava. Se queria e não queria. Ela deitou sobre mim. Anda lembro. Era tudo. O corpo inteiro daquela mulher. Mulher? Isso é estranho. Eu só queria estar dentro e não estar dentro. Eu sentia fome de outro e sentia fome da mulher. Hoje eu a teria de novo. Mas não posso viver do que desejo. Mas será que eu desejo? Me sinto sujo ao pensar nisso. Não sou eu. Lembro da noite. Ela disse que não lembra. Ela mente. Eu minto. Eu queria. Ainda quero. Sim, eu quero muito. Minha vida está uma merda. E eu sei que ela sabe. Ela sempre sabe. Será sempre esta merda. Tudo minguado. Mas com ela também seria minguado. Fiquei todo dentro dela, comendo tudo que nunca poderia ter sido meu. Ela não era minha. Talvez eu quisesse ser como ela. É isto. Talvez eu quisesse ser o que ela é. A mulher. Não. Não quero ser a mulher. Eu a quis de verdade. Gozei de verdade. Mas foi metade. Senti raiva. Impotência. Senti impotência. E vergonha. Eu precisava de tudo. Precisava dela. Não teria problema se ainda acontecesse. Teria? Seria meu o problema. Não sou aquele. Sou outro. Eu sou eu. Mas não me sinto mal ao lembrar. E querer ainda é tão simples. Me completa de alguma forma. De todas as formas. Nosso beijo era o tempo perfeito. Era exato. Eu ainda sinto. É loucura isto. Mas eu sinto. E me apego sempre. Eu a amo sempre. Tão louca e tão minha. Se ao menos ela entendesse que é diferente. Mas ela não entende. Vou ler a carta. Mas não hoje. Ainda não. Vou guardar. Outro dia eu leio. Hoje vou me esconder de novo. Ou me deixar ser quem eu sou nesta minha verdade. Ainda larva. Ainda em estado imaturo de puberdade.